É, parece que o tiro saiu pela culatra - Parte 3

Era disso que Raul se lembrava enquanto estava deitado e olhando a luz do luar e das estrelas lá fora. Mas então os ruídos, risos e sussurros diabólicos voltaram do seu subconsciente, tirando-o do pequeno momento de paz que, agora, parecia nunca ter existido. Ele sentou-se, pegou o celular do criado-mudo e ficou encarando a tecla “redial”. Suas economias do emprego estavam se esgotando e ele precisava arrumar dinheiro o quanto antes, mas havia se cansado de tentar do jeito honesto e, mesmo que não concordasse com o que fazia, embora houvesse a escolha de aguentar até o último centavo pra ver se aparecia algum emprego, embora houvessem tantas escolhas… ele ainda decidiu pelo caminho mais arriscado. E agora, para piorar tudo, quem atende o telefone é um brincalhão. Ele não tinha a menor dúvida de que era um ser humano, ah, sim, tinha que ser; um ser humano espertalhão que gostava de pregar trote nos outros e, para o seu dia de sorte, topara com um sequestrador que, com certeza, não estava no seu dia de sorte.

Mas, apesar de tudo isso… como que caralhos ele sabia que o nome dela era Marta? Como?

Ele queria ligar de volta pro desgraçado (ou desgraçada) e dizer umas poucas e boas pra ele. Mesmo que fosse sair sem dinheiro, ainda assim precisava mostrar para aquele filho da mãe que ninguém mexe com Raul Santos, o Pistola. Mas, não, era arriscado demais. E se o filho da mãe tivesse identificador de chamadas? Aliás, e se o único motivo pelo qual a polícia ainda não aparecera na sua casa foi porque o filho da mãe decidiu não chamar a polícia porque achou que seria perda de tempo? Que não valia nem um puto da sua preocupação? “Porra!”, gritou Raul para o silêncio noturno. Ele decidiu telefonar para Lucas. Para quê? Nem ele sabia. Só sabia que precisava falar com alguém, e Lucas era o único que o ouviria, pois Seu Romário já estava esgotado mentalmente e não conseguia nem se levantar da cama. Havia vomitado na beirada da cama e no chão, e com certeza Raul teria que limpar tudo na manhã seguinte. Ele precisava de ar. Sim, era disso que precisava.

Ainda eram sete e meia, e as pessoas estavam nas ruas. Crianças andando de bike, adultos em bares, mulheres conversando nos salões e outras pessoas sentadas na calçada e batendo papo. Era uma noite típica do Rio de Janeiro e, embora fosse um bairro violento, tinha lá as suas noites pacíficas. Esta era uma delas. Raul desceu a escadaria íngreme do barranco que começava logo na porta do lado da sala, na lateral da casa. Enquanto andava pela rua foi cumprimentando o pessoal. Todos sabiam que ele havia sido preso, isso não era nenhuma novidade, mas mantinham a polidez, afinal, ele havia cumprido a sua pena e nunca mais fizera nada de ruim, não é?

Raul ligou para o celular de Lucas, e a voz da mãe deste foi quem atendeu. “Estranho”, pensou Raul. “O Lucas leva o celular praticamente grudado no bolso.”

― Ah, oi, tia Cecília! Tudo bem?

― Tá tudo muití-tí-tí-tí-tí-tíííssimo bem, meu bem! E você?

― Tô bem também, graças a Deus! ― Pensando “Caralho, tia, o que tu tomou hoje? Pílula da alegria?” Durante o pensamento, porém, percebeu alguma coisa do outro lado da linha. Pareceu um chiado de gato. Será que ele tinha ouvido isso mesmo? Talvez tenha sido a estática. ― Alô? Tia Cecília?

― Sim?

― A senhora tá legal?

― Tô bem, sim. E você?

“Mas o quê?”

― Eu… tô bem, também… graças a Deus!

O chiado foi mais alto desta vez.

― Tia, a senhora nunca me contou que tinha um gato.

― Ah, não? Nossa, devo ter me esquecido. A gente comprou um faz pouco tempo. O meu filho não te contou?

“A Tia Cecília tem alergia a gatos”, pensou. E adicionou: “Será que ela tomou pílula da alegria e da alergia? Aliás, essas pílulas existem?”

― Tia Cecília, você sabe quem está falando com você?

― Ué, claro que sei. É o querido amiguinho do meu filhinho.

“Aí, ó, de novo! Ela se referiu ao filho como ‘meu filho’ e não pelo nome dele. Deve estar chapadona, ou… Não! Não tem como ser isso. Nem pensar! Esquece. Pula fora. Segue a vida. Não fique paranoico.”

― É… Tia, você sabe onde o Lucas está?

― Uhm? Quem é Lucas, meu benzinho?

― P-p-p-p-puuuta que pariu!

― Olha, olha, olhaaaammmm, é feio falar palavrõeeeesssss.

― Você! Como quê…?

― Iiihhhhhh-hi-hi-hi-hi-hi-haiiammmm!!! Meu benzinnnhhoommm, como você é ingêênuoooo!!! ― cantou a voz diabólica.

― O que você quer, sua diabinha veada do caralho?! ― provocou Raul. ― Escuta aqui, seu bosta! Eu não sei que mixer você tá usando aí pra fazer essa merda de voz de bicha da porra, mas se você não parar com isso, eu vou aí te meter a porrada!

― Aiammm, para com isso, bebêammmm, olha só quem tá aqui, ó! Luquinhaaas, vem cá, meu queridoammmm! ― Do outro lado, a voz de Lucas surgiu. Ele estava chorando e quase não conseguia falar. Mesmo assim, Raul conseguiu reconhecer a voz do amigo.

― Tudo bem, seu filho da puta, você venceu! Quer que eu vá aí pra gente resolver isso que nem homem? ― Raul tinha passado do limite da fúria. Estava cego de ódio.

― Calma bebê, olha só quem tá aqui comigo também. Vem cá, dona Martinhammmm, vem. ― Um grito de dor chegou aos ouvidos de Raul, que apertou os punhos com tanta força que deixou marcas das unhas numa mão e quase quebrou o celular com a outra. Ele teve que se conter novamente, mas estava cansado disso. Se fosse pra ser preso de novo, que fosse! Sua mãe estava descansando em paz, ele tinha certeza, mas se seu amigo tivesse mesmo sido sequestrado, ele faria aquele (ou aquela) filha da puta pagar por isso. E, de quebra, ainda conseguiria descontar sua raiva enterrada por todo aquele tempo.

― Para com essa porra e me diz logo onde você tá. Vamos acabar com isso. Sem polícia e sem testemunhas. Vou te matar e libertar meu amigo.

― Ah, mas se eu te dissesse, eu estragaria a surpresa ― disse a voz que era de novo a de uma mulher madura, dessas coroas bem conservadas. Estava até mais sensual. Raul imaginou-a por um momento como uma mulher de aparência caucasiana, seus lábios de um batom vermelho vivo e cabelo ruivo, curto e liso. Seus olhos seriam azuis e…

“Não… eu tenho que parar com isso!”, pensou Raul sacodindo a cabeça.

― Que merda você pôs na minha cabeça?!

― O que foi, bebê? Admite, você não daria tudo por este corpinho? Esta boquinha? Pensa bem, eu posso te dar um prazer maior do que qualquer droga neste mundo injusto. Eu te faria ter sensações que você nem pode imaginar. Te faria se sentir mais completo do que todo o dinheiro do mundo. É só seguir o tom da minha…

― Caralho, mulher… ou homem… dá pra calar a porra dessa boca? Me diz onde você está!

― Siga o doce tom da minha voz ― insistiu a criatura/mulher/homem/demônio-bicha dos infernos.

De repente, Raul soube do que ele(a) estava falando, pois o zumbido alto voltou, mas desta vez ele não tentou ignorá-lo. Ouviu-o e o seguiu.

Pablo Vieira Neves nasceu Rio de Janeiro, onde viveu até os 14 anos. Vive em Varginha-MG, desde então. ​Inspirado em um jogo de videogame chamado Alan Wake, passou a escrever. Escreve desde então por diversão. Publicou em no Wattpad (conta deletada, atualmente), no Recanto das Letras e também publicou em uma feira literária, em Varginha.

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