A Aldeia dos Magos Escondidos V

Atualizado: Nov 10

Silas sabia que convencer a amiga seria muito difícil. Ela já perdera muito. Proteger a filha era sua prioridade. A presença de Cecília ali só fora motivada pelo perigo que a chegada do Forasteiro trouxera.

– Não quero que você assuma nada. Fornecer poderes místicos à espada é minha maneira de deixá-la inútil para a magia.

– Quer transformá-la em que? Uma peça de enfeite?

– Sem que você a empunhe, ela só será uma faca de luxo. Uma faca grande...

– Não venha com piadas fora de hora. Não sabemos as intenções do vagabundo. Ele não se instalou aqui pelas belezas naturais da região.

– Não. Não por isso. Você também sentiu a aura negra?

– Ventos amenos que emanam de feiticeiros não me interessam. Eu senti o aço. O frenesi tomou conta de mim. Quase me atirei nele quando chegou à aldeia. Maldito aço arcano.

– Eu também. Mentalmente ele é fraco. Antônio não passa de um estudioso, de um pesquisador. Ele só conhece a teoria. Não sabe as consequências.

– Tenho clamado aos deuses. Não sei se consigo me manter longe do metal arcano. Ele conduz muita energia. Mas não quero ver romper a realidade. Não mais. Tenho a Anna. Já perdi o pai dela...

– Perdemos muito.

A conversa cessou.

Um grande silêncio tomou conta de ambos.

Metais arcanos conduziam mais que magia. Eram mensageiros de destruição. Romper a realidade abria o portal tanto do bem quanto do mal. Era de responsabilidade de quem o abre conduzir os anjos ou demônios que transpusessem o véu. E esse era o problema, nem todos carregam boas intenções ao desvelar a realidade.

Na prática era simples.

Alguns invocavam os Orcs, seres que serviam Orco, o deus do submundo, o espírito da morte. Algumas culturas se referiam a ele como um dos elfos caídos. O Anjo mais bonito o que carregava a luz de Erethir. Erethir era filho de Eretor, o deus fundador do mundo.

Milhares de anos após a criação do mundo e de paz entre as alvas criaturas que adoravam Eretor. Uma delas se corrompeu. A corrupção da alma enegreceu seu corpo. Orco se transformou na nêmesis de Erethir. Legiões de alvos seres bandearam-se para o lado da escuridão. Eretor enterrou Orco nos confins de terras longínquas. Apesar do deus do submundo possuir certo poder místico. Nada era páreo ao poder de Eretor.

E a criação vivera tempos de paz.

Os Alvos, adoradores alados de Erethir, chamados de elfos após mudanças linguísticas regionais, culturais, nunca deixaram de ser o ideal humano de santidade, de beleza. Eram os modelos a serem seguidos. Orcs, os adoradores de Orco, Alvos caídos, receberam um castigo. Foram marcados para que sua aparência não enganasse humanos incautos. Suas asas ficaram como a de morcegos, mamíferos alados noturnos. Assim surgem as lendas de sugadores de sangue, de demônios alados, de homens que se transformam em feras, transmorfos, e muitas histórias que o tempo vai alterando a verdade e que os bardos dizem ser apenas serem crias das imaginações férteis de velhos trovadores. Histórias para aterrorizar os ouvintes ao redor de fogueiras.

A Guerra das Três Raças desmentiu a fala dos menestréis.

Necromantes romperam a realidade. A terra deste mundo foi pisada por seres etéreos. As lendas e mitos se ergueram e horrorizaram o mundo. Velhas religiões foram desmentidas, velhas profecias esquecidas. Surgiram novas crenças, novos altares, novas rezas.

Credos e cultos se fundiram em um só. A verdade revelada uniu o homem sem fé.

Silas e Cecília eram remanescentes desses cultos. Queriam que verdades incontestes fossem mantidas enterradas e relegadas ao âmbito do mito novamente. O lugar de certas verdades era o esquecimento. Não saber o que é real, talvez entorpecesse o povo. E o manteria em paz.

Esse pensamento era compartilhado pelo casal de magos escondidos. Antônio era o relâmpago que poderiam incendiar a floresta. Era o chamado para a contenda, o grito de guerra que rompia a paz.

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