A revolta de Sumé


Armagedom. Foto de Mariel Mafer (Pixabay)

Ao ver que seu povo ainda em massacre estava sendo extinto, Sumé foi pego por uma imensa compaixão, que se transformou em uma ardente revolta pelos que há muito tempo tinha ensinado seus básicos saberes. Indignado com a perversidade dos brancos que vieram do mar, de outro profano continente, os que adoravam um Deus estrangeiro vingativo e punitivo. Pensou por um pequeno tempo (anos para nós humanos), elaborou um plano para a retomada do território e uma lista de regras para que o povo da terra se desenvolvesse e se tornassem soberanos em seus próprios territórios. Ele entendia pouco de ciência, mas sabia que teria que evoluir seu povo em espírito e na carne, além de estruturar um desenvolvimento técnico biótico que fosse totalmente sustentável. O que realmente sabia era escrever leis, mas precisava de outros saberes, das outras divindades. Resolveu se reunir com os outros deuses na floresta sagrada (Se mudava constantemente dentro da floresta Amazônica). Por pensamento fez essa convocatória: “Deuses do povo da terra, precisamos urgentemente debater sobre o destino de pindorama e dos nativos.”. Seu pensamento ecoou nos quatro cantos da Pindorama até o firmamento.

O primeiro a chegar foi Tupã, trazido por um raio, entidade criadora da vida e de maior benevolência. Em segundo chegaram Jaci e seu Marido (Também Irmão) Guaraci, ela é a entidade Lua que guardava a noite a geradora do amor e da libido, ele é a entidade Sol o guardião do dia e das atividades vespertinas, ambos filhos de Tupã. A terceira a chegar, com a brisa, foi Ceuci a entidade que protege as moradias e as lavouras. O quarto a chegar foi Anhangá em forma de onça, logo se transformou, entidade maligna que protege os animais e os caçadores. O quarto a chegar foi Akuanduba, tocando sua flauta virtuosa vindo da região da tribo dos Araras. O quinto foi o malandro Yorixiriamori, o que seduz pelo canto, entidade que se transformava em pássaro para fugir dos perseguidores da tribo Ianomâmi. A sexta veio da região dos Dessanas a Yebá Bëló, a grande criadora, a “mulher que apareceu do nada” junto com Tupã gerou o universo e a vida. O sétimo e último foi Wanadi provindo do povo Iecuanas, junto com suas irmãs: a fome, a doença e a morte.

Após a chegada destes que estavam no patamar dos mais evoluídos entre os deuses dos povos da terra, Sumé se preparando para o discurso, subiu no alto da árvore-mãe, pôs-se a falar:

“Deuses e Deusas, chamei vocês aqui para denunciar o extermínio do nosso povo da terra, causado por homens brancos os que vieram do mar, através de opressão pela ganância do ter, desmatando florestas e matando nossos animais. Venho ressaltar a necessidade de aprimorarmos nosso povo em carne e espírito, além de desenvolvermos um conjunto de leis e ciências para a evolução desses e dos humanos como espécie. E para concluir peço a ajuda de vocês com seus saberes, para desenvolver e executar esse plano, peço que vocês em ordem de chegada tenham a palavra e informem no que podem ajudar.”.

Após seu discurso Sumé abriu espaço para os outros. Terminando o discurso de Sumé, Tupã com sua voz estrondosa como um trovão pôs-se a falar: “Entendo que não podemos deixá-los a mercê da própria sorte, posso ajudar a trabalhar no corpo e no espírito das minhas crianças para que desenvolvam mais rápido e tenham um poder maior de defesa, essa parte da criação pode deixar por minha conta.”.

Então Jaci se pronunciou: “Posso ajudar produzindo as grandes ondas para dizimar a praga que se chama homem branco, destruindo suas cidades e deixando-os sem abrigos.”, e após sua esposa falar Guaraci também se pronunciou: “Agitarei o núcleo solar para que produza tempestades e elas façam os homens brancos perderem a comunicação direta destruindo sua tecnologia poluidora”.

Logo depois falou Ceuci: “Não gosto de participar de nenhum extermínio, pois sou a favor da vida, mas não vejo alternativa para mim que não seja a de participar desse plantio. Esses cruéis homens brancos corrompem minhas plantações com suas sementes artificiais para o acúmulo de riquezas, também destroem as florestas e campos para plantar frutos que não alimentam o povo da terra. Eles não conseguirão colher nada mais nesse solo que chamam de Brasil. Mas antes lanço uma proposta de salvarmos os que se preocupam com a vida e com a natureza, podemos isolá-los na floresta sagrada em uma vila sustentável que eu mesma construirei”.

Acabando a fala de Ceuci, Anhangá com sua voz gutural e aparência bestial se pronunciou: “Venho das profundezas, trago sofrimento e dor, ajudo vocês com uma condição de liberar meu exército infernal para o tormento desses homens brancos, roubando as almas deles para alimentar os meus carniçais e a mim”.

O próximo a falar foi o Akuanduba, parando de tocar sua flauta, falou: “Deuses e Deusas, vejo como imprescindível nos movermos, lançarei um feitiço na minha flauta para que os que merecem ser salvos se atraiam para a minha música e ajudará a retirá-los das podres cidades”. Após sua fala voltou a tocar sua flauta.

O bonito Yorixiriamori se aproximou do grupo, charmosamente falou: “Posso ajudá-los na fuga das cidades até a vila sagrada, tenho aptidão para tal”. Após se pronunciar logo se afastou do grupo, observando a discussão de longe. Yebá Bëló, a Deusa da criação, brevemente se pronunciou: “Trabalharei em conjunto com Tupã na busca de um aperfeiçoamento dos povos da terra”. Por último Wanadi se pronunciou por ele e pelas suas irmãs decrépitas: “Liderarei minhas irmãs no espalhar do suplício para esses homens brancos que sempre oprimiram nossos filhos da terra. A morte trabalhará com a fome, e com a peste. Podem contar conosco”.

Então, Sumé, que ainda estava em cima da árvore, feliz de sua empreitada ter sido aprovada por todos sem contrariedade, voltou a discursar: “Escreverei novas regras e leis, para que os que merecem sobreviver possam alcançar uma coletividade e um avanço sem prejuízo para a mata e animais. Em um ano concluiremos nosso projeto”. Após a fala de Sumé a reunião foi encerrada e os Deuses e Deusas voltaram para suas moradias, saindo da floresta sagrada que já tinha mudado de local no território da floresta amazônica.

Cada um dos Deuses e Deusas foi cuidar dos seus afazeres, planejando a revolta contra os homens brancos, um ano se passou, e eles simultaneamente trabalharam no projeto libertário. Ceuci construiu as edificações no meio da floresta sagrada, com a árvore-mãe no seu centro, as habitações foram construídas de forma que nada foi destruído, a base dos edifícios eram as próprias árvores. Akuanduba enfeitiçará sua flauta com a melodia certa, para atingir a frequência de quem vibrava em harmonia com a natureza, e como uma pantera caminhava camuflado na noite das cidades. Conseguiu atrair poucos da civilização urbana os mais atraídos foram os habitantes do campo, a cada dez humanos oito eram do campo e 2 de cidades grandes. Para completar o serviço de Akuanduba, Yorixiriamori agiu furtivamente como um pássaro ajudando na fuga dos filhos da terra para a cidade nas árvores. Após chegarem à cidade os escolhidos, por volta de 5000 pessoas ainda estavam perdidos, então Sumé os instruiu, até colaborou com Ceuci na construção de uma biblioteca com livros contendo os saberes sagrados em diversas áreas.

O discurso de Sumé foi registrado nos Anais da história do povo da terra: “Meus filhos, sejam bem-vindos! Sei que vocês devem estar perdidos, mas fiquem tranquilos, foram escolhidos dentre a população da sua antiga terra para prosperarem como uma nova espécie. Sei também que boa parte de vocês foram separados dos que amavam, não se preocupem eles serão conduzidos, após o suplício, suavemente para a Boriwi. Onde as almas deles aprenderão para voltar para a Pindorama”.

Então os escolhidos se tranquilizaram e escolheram os respectivos lares. O Tupã e a Yebá Bëló, trabalharam em uma vacina que alterava a composição da espécie humana além de modificar também a liberdade do espírito, então logo após o discurso recepcional o povo da terra recebeu essas vacinas em frente à grande árvore-mãe. Para os que não foram escolhidos só restou o suplício.

O primeiro a atuar nesse projeto foi o Guaraci o guardião do dia, agitando o Sol gerou uma tempestade solar imensa onde todos os satélites e os receptores de sinais foram queimados, causando total desorganização dos que não foram escolhidos. A segunda a agir no arrebate foi Jaci, na mesma noite da tempestade solar a Lua se aproximou da Terra bruscamente gerando Tsunamis gigantes arrasando as cidades com até 100 km de proximidade do litoral. O terceiro a agir foi o carniceiro Anhangá que liberando suas crias das profundezas devoravam a carne e sugavam as almas, agindo durante madrugada até o raiar do outro dia. Alguns sobreviveram e conseguiram fugir, passaram anos nas ruínas das cidades, estes foram amaldiçoados com o solo infértil, por Ceuci. O suplício dos homens brancos teve seu fim com Wanadi e seus irmãos, primeiro veio a fome, depois a praga e por último a morte. Após esse período de transição, Sumé refletiu, decidiu convocar outra reunião, em conjunto com o conselho que eles deveriam acordar os Deuses e Deusas do novo e antigo mundo para limpar a Pindorama dos espíritos inferiores que insistiam em viver para acumular riquezas, os que espalhavam miséria e morte.

Sobre o Autor:

Hugo Britto, nascido em Recife no dia 15/03/1985, tem formação em Engenharia, mas é apaixonado por Literatura. Começou a escrever por razões da militância socialista, e a atividade se tornou um Hobbie. Hoje escrevo mais poesias, folhetins, Contos e ensaios (Filosofia, Sociologia).


Revisão: Jázino Soares

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