A vida em uma xícara de café


João não sabia bem como chegou àquele estranho lugar, com suas paredes de um branco estéril que rivalizavam com o negro lustroso do piso que sem uma única imperfeição era de certo que gerava uma visão impressionante.

Entre as paredes e o piso, pessoas sentavam em pequenas mesas de madeira onde cada uma se limitava a companhia solitária de uma única xícara feita estranhamente de barro preenchida com um líquido escuro que, pelo cheiro que empregava no aposento, só poderia ser um bom café.

Vagando os olhos entre as pessoas sentadas naquele lugar, João parou de súbito ao ver uma estranha entidade no canto do grande aposento atrás de um balcão de mármore, a entidade com seus olhos de gato, pele cinzenta e avental florido deveria ser uma visão de gerar espanto a qualquer um, porém para João o sorriso de dentes verdes era convidativo.

"Aqui seu café amigo" disse o ser colocando sobre o balcão uma xícara de café, João olhou, examinou, levou-o até próximo da boca e inalou o cheiro que em suas narinas remetiam a algo familiar, como se tivessem dado um odor às tardes alegres de sua infância, porém não tomou um único gole, com medo do gosto amargo de um café tão escuro que chegava a refletir o seu rosto.

"Bem, parece que ainda não é o momento, por que não se senta em uma mesa?" Disse a entidade fazendo um gesto para as muitas mesas vazias.

"Acho que prefiro ficar em pé, que lugar é este?" Perguntou-lhe João curioso não apenas com o estranho ser, mas com a variedade infinita de pessoas.

"É exatamente o que parece amigo uma cafeteria, você entra, toma uma xícara de café e então segue seu rumo".

João não ficou muito contente com a explicação, mas não achou que aquele que servia café lhe diria muito mais a respeito deste lugar.

"Então se eu tomar o café posso sair daqui?" Questionou João consciente de que não havia uma única janela ou porta que servisse de saída daquele local.

"A liberdade é o direito de todo ser vivente, você é livre pra sair, porém o mundo é causa e efeito, recomendo que sente-se e tome seu café, tempo não lhe falta".

Diante de tal fala João se viu perguntando: "pra onde eu tenho tanta pressa de ir?" Na sua mente palavras como amor, família, amigos, tinham importância, mas não forma, em seu âmago ele estava vazio.

Preso estranhamente à velha pergunta que nasce e morre com todos os homens: "Quem eu sou?" Ele se viu encarando o reflexo na xícara ciente de que por um breve momento, enquanto respirava os vapores aromáticos, sabia a resposta.

Tragado pela necessidade e tomado pela curiosidade, João levou a xícara até os lábios sentindo o cheiro doce do primeiro amor que abria o seu paladar com a necessidade de tomar todo o conteúdo de uma vez, porém não o fez. Um barulho profanou a estranha quietude que regia aquele lugar, uma xícara jazia partida ao chão.

Diante de João, o homem que a atirou ao chão parecia consternado enquanto o líquido preto se esvaía, perdendo o aroma e se misturando ao piso como se nunca tivesse existido.

O estranho ser olhou a cena com uma tristeza enfadonha, como alguém que vê uma tragédia se repetir tantas vezes que seus olhos perderam a capacidade de derramar uma única lágrima. Sob o olhar do estranho ser, o homem catou os cacos do chão e deixou sobre o balcão, antes que João percebesse ele havia ido embora como num passe de mágica.

Para João a ideia de jogar fora algo tão saboroso cujo cheiro era tão inebriante parecia absurda, porém logo ele se lembrou do que pensou quando olhou para este café pela primeira vez, "de tão escuro que é, este café de certo tinha que ser a mais amarga das bebidas".

Como se percebesse os questionamentos de João o estranho ser falou em uma estranha reflexão:

"Este café é como a vida, irradia beleza como um aroma inesquecível, porém é muito mais profundo que a beleza aparente, dor, raiva, angústia e inveja existem em uma medida que nem sempre é proporcional o que deixa um gosto amargo quase intragável na garganta".

Com essas palavras em sua mente João conseguia sentir um aperto no coração como se não quisesse experimentar um gosto tão terrível, porém derramar tudo aquilo lhe parecia algo tão aterrador quanto tomá-lo, essa era a dúvida que mantinha essas pessoas presas à companhia solitária de suas xícaras como homens sedentos presos nas margens do rio Lete, tendo que escolher entre o horror da sede e o pavor do esquecimento.

Preso no questionamento ele olhou para o ser em busca de uma resposta, mas aqueles olhos de gato cor de mel não lhe davam uma única pista do que deveria fazer.

Enquanto João ponderava, o ser se dedicou a colar a xícara caco por caco com uma delicadeza quase maternal espantando de seus olhos a tristeza de ver o seu café se esvair pelo chão.

"Sabe, uma xícara depois de preenchida nunca fica vazia, você pode lavá-la, quebrá-la ou algo parecido, mas em seu interior sempre restará as marcas de seu conteúdo, um dia ele voltará e lhe servirei um café nessa mesma xícara marcada com o que ele rejeitou".

"Então mesmo que eu jogue fora, não me livrarei de ter que tomá-lo?" Questionou João sentindo o calor da xícara envolta de seus dedos.

"Eu lhe disse, esse café é a vida, não se pode fugir dos dissabores, esse é o preço da consciência".

A certeza de que teria que enfrentar isso mais cedo ou mais tarde envolveu seu coração lhe dando o impulso que falta para enfrentar o amargo da vida, em um ato de coragem ele virou todo o conteúdo na boca e sentiu tudo de uma única vez, a dor da perda e da solidão, o amor e o carinho que vem e vão, assim como o sofrimento mais absurdo que se pode ter, o de uma vida presa em uma rotina vazia.

"Saboroso?" Perguntou o estranho ser sorrindo, mas João não respondeu. Algo lhe dizia que ele conhecia muito bem o sabor daquele café após tantas visitas em suas muitas vidas.

Com um sorriso meio torto de um homem que tirou os seus grilhões, João viu pela primeira vez a porta que lhe tiraria daquele lugar, de certo não foi a mais agradável das bebidas, mas esse café era como a vida, valia cada gota.

O Autor:


Nascido na cidade de Feira de Santana no interior Baiano, Jonycley Rodrigues (ou simplesmente JC Rodrigues) publicou seu primeiro livro, "A voz do anjo", pela editora EllA, no ano de 2020. Participou da antologia em homenagem a Isaac Asimov publicada pela Arkanus Editora, "Historias do cotidiano" pela Verlidelas, e "Filantropia do mal" organizada por Pris Magalhães.

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