A visão do Feminino de Clarice Lispector em “A Hora da Estrela”


Foto de André Moura (Pexels)

Para iniciarmos, gostaria de deixar claro que não se trata de uma resenha ou qualquer tipo de resumo sobre o livro, mas sim um breve estudo sobre o gênero feminino e os estereótipos que acercam as mulheres ao longo de séculos, focado na obra da escritora Clarice Lispector: A Hora da Estrela, a qual trata com bastante sensibilidade por meio de sua personagem Macabéa, a realidade de milhares de mulheres brasileiras, mulheres essas excluídas, oprimidas pelas desigualdades sociais e, principalmente desigualdades de gênero.

Clarice Lispector, nascida Haya Pinkhasovna Lispector na aldeia de Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920, chegando ao Brasil com apenas 2 meses de vida, recebendo o nome de Clarice por iniciativa de seu pai, para que todos da família mudassem o nome, já que haviam fugido de seu país de origem em plena guerra Civil Russa e eram judeus. Com seu romance inovador e com sua linguagem altamente poética, sua obra se destacou diante dos modelos narrativos tradicionais, tornando-se um dos maiores nomes da literatura brasileira no século XX, tendo escrito seu primeiro livro Perto do Coração Selvagem em 1943 e A Hora da Estrela, escrito em 1977, seu último livro. Clarice Lispector tem um estilo inconfundível e seu intuito é renovar por dentro o ato de escrever ficção que a situa fora dos padrões convencionais da literatura brasileira. A renovação da linguagem, preocupação constante de muitos escritores brasileiros, alcança na obra de Clarice um grau que aproxima a prosa da poesia. Seus textos não apenas narram histórias, mas também apresentam a síntese e força expressiva, típica da poesia. Além da linguagem, outro aspecto inovador na obra de Clarice Lispector é a visão de mundo que surge. Ela enfoca o ser humano em suas angústias e questionamentos existenciais, predominando a figura feminina.

A Hora da Estrela é um romance que retrata através da nordestina Macabéa, uma classe de pessoas marginalizadas e excluídas pela sociedade, que sub-existem nas grandes cidades. Durante a narrativa, realizada por Rodrigo S.M., que vai privando Macabéa de marcas de feminilidade, desconstruindo-a através de mecanismos de integração social, instrumentos de seduçãoe relações amorosas. Macabéa nada sabe de si nem do meio em que vive. A personagem aparece por entre páginas e páginas como um ser anônimo e indefinido. Macabéa encarna no seu estado de miserabilidade da identidade pessoal e social, grande parte das mulheres no Brasil. Sem ter acesso à cultura de bens materiais, intelectuais e afetivos, sem ter condições de construir uma história, já que está à margem da sociedade, vivendo de migalhas. No entanto, Macabéa vive em estado de pureza. Não tem noção nenhuma do mundo desumano que a cerca. Ela vive como milhões de outras moças pobres e anônimas da cidade grande. Até que é atropelada e morre, é o seu único momento de brilho e glória, é a sua “hora da estrela”. Como os macabeus, Macabéa vive como imigrante, em permanente estado de resistência contra forças adversas. Assim, também permeiam milhares de mulheres diante de um contexto promovido por preconceitos e injustiças, sem falar nas desigualdades sociais e ainda na diferenças de sexo e pelas múltiplas implicações das questões de gênero, problematizadas no corpo ou mesmo em sua representação. Macabéa é o retrato da mulher que vive em constante opressão e que tem imensa dificuldade de integrar-se à sociedade. Traduzindo, desta forma, o feminino na obra A Hora da Estrela, de Clarice, que configura a mulher massacrada e despojada de esperanças.

A visão do feminino de Clarice Lispector presente na obra é fruto de um processo histórico e social a que se submeteu a mulher por longos anos, perdurando até a modernidade, pois ainda hoje é possível presenciar desigualdades e preconceitos voltados à sua figura . Clarice mostra essa visão do feminino como uma denúncia, retratando a realidade de milhares de mulheres, que como sua personagem Macabéa, tem suas vozes silenciadas e abafadas pela sociedade da qual fazem parte. A obra A Hora da Estrela é a revelação de uma realidade palpável, constante e concreta, onde vozes femininas são veladas não só na ficção (como foi comprovada na voz oprimida da personagem - principal), mas, principalmente no cotidiano de inúmeras mulheres “macabeanas” da sociedade brasileira.


Referências Bibliográficas

ANDRUART, Jaime de. Resenha - A Hora da Estrela. Revista Avessa, 2016, Atualizado em 2021. Disponível em: https://revistavessa.com/2016/11/resenha-a-hora-da-estrela/ Acesso em 06 Mar 2021.

AZEVEDO, Luciano Taveira de. Uma Análise das Relações de Gênero na Obra a Hora da Estrela de Clarice Lispector. Revista Letra Magna, V. 4. N. 8, 2008. Disponível em: http://www.letramagna.com/horadaestrela.pdf Acesso em 06 Mar 2021.

FRAZÃO, Dilva. Biografia de Clarice Lispector. E-Biografia, 01/2021. Disponível em: https://www.ebiografia.com/clarice_lispector/ Acesso em 06 Mar 2021.

MOTA, Jucilaine Oliveira. Um mergulho no feminino na obra “A hora da estrela” de Clarice Lispector. TCC do curso de Licenciatura em Letras pela Faculdade de Ciências da Educação do Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, 2006.

Sobre a Autora:

Aline Amorim é Recifense, aquariana, mãe e feminista. Graduada em Gastronomia, Pós-graduanda em História Social e Contemporânea, Pesquisadora da temática Relações de Gênero e o Mundo do Trabalho; Alimentação e Feminismo. Amante das Letras, é colunista da Literatura Errante trazendo a temática Mulheres e Literatura sob uma perspectiva Feminista.


Revisão: Carol Vieira

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