As donas de casa do conto “A Imitação da Rosa” de Clarice Lispector: uma análise Feminista Marxista

Atualizado: Mai 5


Ilustração de Oberholster Venita (Pixabay)

A função pedagógica da arte é revelada no momento em que é possível verificar que os temas abordados pela literatura permanecem atuais e despertam o interesse dos indivíduos, alargando a sua interpretação. O conto A imitação da rosa, de Clarice Lispector, publicado em 1960, em um tempo conhecido como Anos Dourados, o qual correspondeu aos anos de 1945 a 1964, no volume Laços de família, é denunciador da cobrança social que os indivíduos enfrentam e que, por extensão, as obras literárias retratam. O livro é formado por um conjunto de contos que têm em comum o fato de retratarem os elos familiares que unem homens e mulheres da camada pequeno-burguesa da sociedade, concedendo especial atenção à figura da mãe-mulher inserida no seu cotidiano.

Em um contexto, onde o Brasil presenciou a ascensão da classe média entre 1950 e 1954, época marcada pela eleição direta e o suicídio de Getúlio Vargas, e em decorrência do fim da Segunda Guerra Mundial, e do consequente otimismo, imperava no Brasil o crescimento urbano e a industrialização. Desde a primeira frase de A imitação da rosa, fica patente que a personagem Laura está a todo o momento na tentativa de se enquadrar nos padrões femininos dominantes de sua época. Uma mulher sentenciada a viver a insensatez da vida onde toda a estrutura patriarcal que a circula se aproveita do seu desequilíbrio emocional para contestá-la, anulá-la e diminuí-la. Assim, sua insatisfação é revelada pelo fato de não se identificar com o lar. Na vida de Laura, todos os afazeres domésticos são planejados detalhadamente, uma vez que, em sua formação, o ser feminino foi educado para aceitar com resignação a sua fadada vida, em que está sempre à margem das realizações pessoais. Nesse sentido, Laura é a representação da submissão e opressão.

No trecho em que Laura arruma a penteadeira, ao olhar-se no espelho, entrando num diálogo interno, busca se reconhecer e faz uma analogia a sua aparência, que é de uma dona de casa, com cabelos presos e demais atributos postulados para a mulher. Como uma mulher resignada, Laura busca sempre uma aceitação das pessoas e uma construção da sua identidade. No casamento, nota-se claramente que Armando e Laura tem uma relação estagnada, a mulher é invisível ao marido. A própria personagem contribui para a construção de uma imagem negativa do seu próprio sexo. Além disso, Laura julga que não ter filhos é uma ofensa, já que entre os diversos papéis que a sociedade a preparou e idealizou um deles era de ser mãe. O presidente Vargas, em 1941, assinou um decreto estabelecendo que a educação feminina seria voltada para formar mulheres “afeiçoadas ao casamento, desejosas da maternidade, competentes para a criação dos filhos e capazes na administração da casa”. A boa esposa e a mulher ideal era aquela que não reclamava, não criticava, não desafiava o marido, se vestia de forma sóbria, sem chamar a atenção. Ela, entretanto, não era uma mulher perfeita, pois não tivera filhos: “por acaso alguém veria, naquela mínima ponta de surpresa que havia no fundo de seus olhos, alguém veria nesse mínimo ponto ofendido a falta de filhos que ela nunca tivera?” (LISPECTOR, 1998, p. 35).

Nas suas obras, Clarice Lispector não só enfatiza a divisão existente entre homens e mulheres, como também ameaça o universo masculino por meio do momento epifânico, em que a mulher busca suplantar a sua posição submissa, transformando a tradicional relação masculino versus feminino (COQUEIRO; SEGATO, 2012, p. 9). Essa falta de reconhecimento da esfera privada ainda está presente no século 21 e decorre da separação implícita ou explícita entre esta e a esfera pública. Elas passam a ser vistas como pontos eminentemente diferentes e, portanto, a vida privada é ignorada, uma vez que apenas a pública é merecedora de reconhecimento. Há anos as mulheres brasileiras trabalham, tendo participado do processo de elaboração da Constituição de 1988, quando diversos direitos referentes à vida e ao trabalho foram definidos e melhorados. Principalmente a partir dos anos 80 elas se afirmaram no mercado de trabalho, entretanto ainda são patentes as desigualdades entre os sexos, sejam elas de natureza econômica, política ou de acesso aos postos de poder. No âmbito doméstico não há divisão do trabalho, havendo uma dedicação muito maior das mulheres. Nesse sentido, cresce entre as mulheres brasileiras a luta pela diferença, pela valorização da sensibilidade e dos valores femininos, querendo ser mães, trabalhadoras, cidadãs e sujeitos de seu lazer e prazer, concomitantemente.

A esfera do trabalho doméstico, entretanto, permanece sem reconhecimento, de modo que o Movimento Feminista, aqui irei me basear na pesquisadora feminista Marxista Silvia Federici, tem se apoiado no pressuposto do reconhecimento do trabalho doméstico ou reprodutivo exercido pelas mulheres como trabalho produtivo, ou seja, produtor de valor para o capital. Nessa conceituação está incluso todo o trabalho de cuidado com a família, casa e reprodução de força de trabalho, tanto no sentido de reprodução sexual, gerando mais força de trabalho e gerindo seu crescimento e desenvolvimento, quanto no sentido de manutenção da força de trabalho já empregada, qual seja, o marido, que deve ser alimentado, entretido etc. Uma vez que este trabalho está inserido no processo global de valorização do capital, e é essencial a este, ele deve ser remunerado. O não reconhecimento desse trabalho enquanto tal e a não remuneração, o “patriarcado dos salários”, coloca as mulheres em escravidão do lar: seria a apropriação, em primeira instância pelo marido, e, em última, por parte do capital e do Estado, do trabalho das mulheres. De acordo com a tese da autora, o trabalho não remunerado das mulheres seria o comum expropriado para a produção de valor no processo de trabalho capitalista.

Tendo em vista todo o exposto, percebe-se que a questão da invisibilidade das mulheres que realizam trabalho doméstico requer ações políticas de redistribuição e reconhecimento. Ainda mostra-se presente na sociedade uma divisão hierárquica do trabalho pautada na separação entre trabalho reprodutivo e doméstico – responsabilidade primária das mulheres – e trabalho produtivo e pago – responsabilidade primária dos homens. Gênero também estrutura uma divisão dentro do próprio trabalho produtivo entre melhores salários – área predominantemente masculina – e os menores salários – área predominantemente feminina. Ainda que as mulheres consigam alcançar altas posições, financeiramente elas recebem menos do que os homens que ocupam o mesmo cargo. Além disso, gênero também embasa uma diferenciação cultural-valorativa, visto que há uma depreciação das mulheres que são donas de casa, seja de forma exclusiva, seja as que realizam dupla jornada, apenas valorizando-se o trabalho fora de casa.

O papel da mulher nos contos de Clarice Lispector centraliza-se no núcleo familiar, seus afazeres domésticos, bem como a função de zelar sempre em prol do bem-estar de todos, sendo reprimidas e condenadas à resignação em padrões sociais que não considera os seus desejos, direito de escolha ou sua liberdade. O ser feminino ao longo da história vem sendo construído por meio de relações de poder. Desse modo, o feminismo deve, na verdade, superar as estruturas de gênero presentes na sociedade, em especial a divisão entre trabalho produtivo assalariado, tradicionalmente destinado ao homem, e as tarefas ligadas ao “cuidado”, historicamente não remuneradas e associadas à mulher, em vez de consolidar essa estrutura ao se preocupar apenas com o acesso das mulheres aos altos cargos corporativos. Somente assim será possível a emancipação das mulheres que realizam trabalho doméstico não remunerado.


Referências Bibliográficas


COQUEIRO, W. S.; SEGATO, M. C. A identidade existencial feminina no conto “A imitação da rosa” de Clarice Lispector. Revista Intertexto, Uberaba, v. 5, n. 1, p.1-14, jan./jun. 2012.


DEL PRIORE, M. Histórias e conversas de mulher. São Paulo: Planeta, 2013.


FEDERICI, S. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução: coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017a.

______. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e a luta feminista. Tradução: coletivo Syncorax. São Paulo: Elefante, 2019a.


LISPECTOR, C. Laços de Família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.


PINSKY, C. B. Mulheres dos anos dourados. São Paulo: Contexto, 2014.

Sobre a Autora:

Aline Amorim é Recifense, aquariana, mãe e feminista. Graduada em Gastronomia, Pós-graduanda em História Social e Contemporânea, Pesquisadora da temática Relações de Gênero e o Mundo do Trabalho; Alimentação e Feminismo. Amante das Letras, é colunista da Literatura Errante trazendo a temática Mulheres e Literatura sob uma perspectiva Feminista.


Revisão: Carol Vieira


#DiaDoTrabalhador

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