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Onde tudo cresce de baixo para cima


Retrato de uma casa antiga e decadente
Foto de Robbie Down (Unsplash)

A história da vez é sobre uma terra distante até mesmo das terras mais distantes que possam existir, um lugar onde tudo cresce de baixo para cima, mas que parece tão natural quanto a irresponsabilidade. Desse jeitinho, nasceu uma lenda deste local. Não chegou a ter seu legado passado para outros lugares fora dali, porque alguns feitos não tem importância e sentido algum fora de onde deveriam acontecer. Foi o que houve com aquele jovem tão parecido, assim se via, com o Robin Hood. Tudo o que ele fez, toda a sua aventura não possui validez alguma fora de Garzêndia, a não ser que onde você viva seja uma ilha habitada por Miluckios, esses são uma raça mais provida de coragem do que de riquezas materiais, já o jovem garzendino nasceu entre os Colickinos uma raça mais provida de riquezas do que coragem, porém não se encontrava satisfeito. Você pergunta a si ou a mim qual o motivo da insatisfação, já que é rico, por que essa infelicidade toda? Em Garzêndia não fazia muito sentido ser rico, para eles conquista era algo muito importante, e não se conquista nada se você já possui tudo, era isso que pesava em alguns Colickinos, era precioso demais a ideia de sempre conquistar algo, principalmente com as próprias mãos ou tentáculos. Porém, essa ideia morava nesse jovem, sua mente era uma sucessão de guerras. Ele queria batalhar, mas não era considerado digno, pois pertencia a uma outra raça. Ninguém o conhecia, entretanto, esse fato não era critério para deixar de ser odiado, ele era uma piada para os Miluckios. Ele era tão corajoso quanto o Ardones de Armélia, superior dos superiores do noroeste de Garzêndia, o ser mais corajoso que já existiu e lutou por aquele lugar. Era um ilegítimo dos corajosos, foi concebido para ser rico, porém provou que estava no lugar errado sacrificando- se para mostrar que era digno de mudar seu próprio caminho. Era nele que o jovem se espelhava e sabia que um dia provaria o mesmo.

Achavam tão idiota a ideia de fazer escolhas. Na vida você não faz escolhas alguma, tudo que te acontecerá a partir de seu nascimento é obra dos escritos de Viverdia, o ser maior do que os maiores dos maiores e você não tem que mudar nada que já foi dado, isso é considerado traição e a pior das piores coisas: ser mal-agradecido. Viverdia ficava literalmente turquesa de raiva porque ela dava fios e fios do seu maravilhoso cabelo para criar tais seres e lhes davam pessoas para compartilharem os momentos, enquanto os fios mergulhavam em descanso em uma calda de framboesa com manga e depois de serem deixados por dois meses dentro dos ovos dos mais belos pavões na costa leste, ela escrevia com todo afinco horas após horas sem ao menos descansar a cabeça. Preenchia páginas e páginas do livro Vivere com detalhamentos, dons, dádivas, maldições, enfermidades e momentos gloriosos. Além da escolha de qual raça pertenceria tal ser, os Miluckios eram aqueles fios maiores que tivessem mais manga e os Colickinos os fios menores cobertos de framboesa, os fios menores cobertos de manga e os maiores de framboesa eram raridades aleatórias e com toda certeza seriam aqueles que dariam um maior trabalho para ela, era muito sabido por sua parte; a coitada já revirava os olhos esperando a desgraça que cairia sobre ela, mas o fator determinante era qual fruta cobriria o fio, o tamanho nem contava tanto. Contudo, depois de aparecer esses gatos pingados, Viverdia decretou que a manga simbolizaria os Miluckios e a framboesa seria os Colickinos. Depois de todo esse trabalho sempre vem um desses seres insultá-la, como se a tal não soubesse escolher a raça dos seus seres. Ela considerava tudo uma palhaçada. Como se a insultassem e dissessem que ela era incapaz, pois era isso que ouvia quando alguém se rebelava contra seu presente, ela considerava dar a vida da forma que dava um presente incrível e irrecusável.

Deve perceber agora o quanto a Viverdia ficou com raiva do jovem, ele lembrava Ardones de Armélia e ela não era muito fã de lembranças desagradáveis. Quando o jovem atravessou a ponte de Ficárcio isso foi o cúmulo para ela. Preciso deixar claro que tudo bem gritar para os oito cantos de Garzêndia o quanto era infeliz por ser rico ou corajoso, sim era algo normal, pois independente das terras sempre haverá seres insatisfeitos com suas vidas. As brigas que vinham depois disso também eram, até certo ponto, toleráveis, mas ter a audácia de atravessar a ponte de Ficárcio isso era demais para a paciente Viverdia.

Preciso contar sobre a ponte, ela separava Viverdia e seu calmo norte onde vivia sossegada em seu esplendor, a Montanha Inovare da Criação, o monumento mais silencioso e calmo que existe em todos os mundos. Pense na madrugada onde você mora, ou pense em uma vez que tudo realmente ficou silencioso, juro que seu silêncio nem chega perto do silêncio da Montanha Inovare da Criação. Para chegar ou sair dela se passava por uma ponte (essa mesma!) e não era uma qualquer, foi feita à mão pelos pais da Viverdia, os senhores Artinic e Moniuet que fizeram essa ponte usando a Wisteria como material de construção, é uma bela planta e tão amada por Viverdia que se tornou símbolo da bandeira de Garzêndia. Por todo esse amor que a fazia lembrar de seus pais, Viverdia não tolerava a passagem de ninguém sobre sua formosa e hipnotizante ponte. Todos sabiam disso e era uma forma do jovem mostrar sua coragem, visitar Viverdia atravessando a ponte Ficárcio, ou seja, desafiar a sua mãe fazendo algo que sabe que a deixaria enfurecida. O jovem sabia muito bem que não deveria pisar ali, mas ele já estava saciado de tanto ser alvo de piadas por ambas as partes e aquilo vestiu-se por cima dele; um jovem virou uma lenda. Só que isso custou-lhe sua sinceridade pessoal e todas suas convicções, porém como ele não contou a ninguém o que se passou e apenas acabou voltando com alguns arranhões virou a lenda.

Não se sabe ao certo o que sucedeu ali quando o jovem chegou de fato até a ponte, sabe-se que ele chegou, pois pôde se ouvir os gritos e sentir a raiva de Viverdia. Imaginam que ele lutou com ela, outros dizem que ele a machucou com palavras, o que é um ato de bravura, outros disseram que ele a deixou inconsciente. Porém, a verdade nunca foi dita, você e eu sabemos que por mais que se vista uma roupa fora do seu campo de conforto e atue por uma noite ou um dia como uma pessoa que traja sempre tal vestimenta de fato nunca mudamos, a roupa não faz o caráter. O jovem se vestiu de lenda e, assim, ficou durante anos, quando voltou da ponte e todos comemoraram sua entrada no mundo dos corajosos e ele abandonou toda a sua riqueza que não o interessava mais, contudo, os mais atentos poderiam reparar que havia algo diferente em seu olhar, era meio frio, meio quente, parecia estar enfeitiçado ou morto. Provavelmente estava morto de espírito.

Dizem que ele chegou até a ponte e antes que pudesse falar o motivo de sua petulância, Viverdia o encantou, provavelmente para evitar estresse, já que os planetas estavam se desalinhando e ela estava se concentrando na paz efêmera que só a metade de um ano de dez meses era capaz de trazer. Se era corajoso que ele queria ficar, então, ele ficaria na coragem e assim se fez, a teoria mais aceita foi essa apesar do jovem/a lenda nunca tocar no assunto, mas por que fazia sentido? Porque depois daquele dia qualquer coisa que envolvesse sacrifício, missões e afins o jovem não conseguia dizer não, mesmo com a perna machucada, um tapa olho, e o avançar do tempo não o impediu de ser a lenda e isso lhe custou uma coisa muito preciosa: a liberdade. Sabe por que ele não recusava nada? Porque tinha medo de que o chamassem de tudo que o chamaram, aquela ideia doía tanto que ele preferiu fugir do que lutar contra, porque ele precisava sempre provar para os outros quem ele era. Ser corajoso ou corajosa nada tem a ver em bater ponto com as pessoas a sua volta; a coragem vem de si genuinamente. Realmente ele não era um corajoso, Viverdia nunca errava nesse sentido.

 

Sobre a Autora:

Autora baiana, Kananda Gomes começou a escrever quando criança e não parou mais. Além de escritora também é estudante de Museologia na UFBA e criadora da página no Instagram @eu.e.minhas.ironias onde compartilha diversos textos com seus seguidores leitores.


 

Revisão: Maria Carolina Rodrigues

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