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Café para bêbados


Valas em Manaus. Vítimas do Corona Vírus, do descaso do governo, da irresponsabilidade das autoridades, do negacionismo da ciência.
Fotos de Vitor Pinto e de Devin Avery (Unsplash)

Nota: Os nomes e acontecimentos contidos neste texto são fictícios. Qualquer semelhança com a realidade é dessas coincidências que nos fazem procurar as notícias nos jornais e descobrir que Deus deve ser escritor.

É da sabedoria popular que, para curar o efeito da cachaça, deve-se dar café ao embriagado. Bobagem, claro. A ciência sabe que isso não cura embriaguez alguma e que, assim, tudo o que você terá é um bebum bem acordado. E é isso que os Macedo vivenciariam naquela fatídica tarde de domingo.

Os tempos eram difíceis, e todos sabiam daquilo. Desde que a franca expansão do vírus começara, e ele se tornara um sucesso maior do que o google ou os Beatles, e mais universal do que Jesus ou Buda, era sabido que o caminho era se isolar. Ficar em casa era não só uma medida sanitária, mas estritamente necessária.

Claro que a maior parte das pessoas não pensava assim. Não no Brasil, é claro, reino inconteste das Fake News, distribuídas e popularizadas com apoio da máquina estatal nacional. Aqui, o Estado pode ser acusado de não fazer o necessário para conter a expansão do vírus (que o diga a falta de suporte às famílias para poderem não sair de casa, a falta de plano nacional de controle da pandemia, a falta de compra de insumos para vacinação e, claro, das vacinas, entre outras decisões incriminadoras), mas não se pode acusar o estado brasileiro de ausência, por mais velada que sua presença possa ser.

A família do presidente é o Estado, tal qual Luiz XIV. Por meio do Gabinete do Ódio, disseminam-se mentiras sobre toda sorte de coisas ou de pessoas que possam comprometer ou atrapalhar a vida ou os planos totalitários da família Real… quer dizer, presidencial. Perdoe-me o ato falho. Mas, voltemos ao que interessa.

A família Macedo não tem nada de realmente extraordinário. É uma família típica de classe média alta, com ascendência um tanto nobre e orgulhosa disso. Não é como se isso fosse grande coisa para a maioria das pessoas, mas é para eles. Em nome desse orgulho, cada núcleo familiar provindo do robusto tronco nobre preservou-se claramente conservador nos costumes, embora, contraditoriamente, tenha passado a adotar ideias liberais no pensamento econômico (que melhor meio teriam de conservar sua posição na elite?).

No entanto, o que lhes aconteceu só lhes poderia trazer sofrimento e consternação. Após semanas em declínio, sua honrosa tradição familiar de manter o aspecto aristocrático tornou-se cada vez mais difícil. Os negócios não iam bem desde que a Operação Lava Jato dera uma rasteira nos clientes da maioria dos seus empreendimentos. Apoiaram a operação até o último fio de energia, claro! Era preciso acabar com a corrupção! Que os Macedo viessem praticando pequenas burlas nos sistemas de pregão, isso era mera questão de sobrevivência, não havia nada demais. O importante era se manter acima e apoiar quem combatesse os alpinistas sociais que quisessem enriquecer à custa do dinheiro público!

Mas, a chegada da Pandemia foi um soco no estômago de cada membro da família. O governo local tomou a decisão estúpida de fechar o comércio. Fechar tudo! Como sobreviveria a economia? Os Macedo não poderiam tolerar aquela afronta. Com certeza era um ataque pessoal de seus inimigos políticos! Promoveram todo tipo de ativismo nas redes sociais, mobilizaram os empregados e não fecharam as lojas, nem as fabriquetas que a custo mantinham. Sabiam que conseguiriam não pagar multas ou outras punições que se abatesse contra eles, pois tinham contatos.

E assim passaram os primeiros meses de pandemia. E os segundos, também. Foi difícil manter tudo funcionando, na verdade, porque os funcionários incompetentes insistiam em adoecer e, fracos, alguns morriam. Difícil repor os funcionários quando o país está acovardado, não é? E, nos últimos meses, como continuar?

Fato é que a doença acabou se abatendo sobre alguns membros da família. Perder a matriarca, que os reunia, foi uma dor imensa, mas foi fácil de se acostumar, já que ela, idosa, começava a se tornar um estorvo, um peso a se carregar, um custo permanente. Mas, quando a nova cepa começou a hospitalizar jovens, acendeu uma luz de alerta. Aumentaram as doses do kit para tratamento precoce, mas, como se pode imaginar, assim como a ciência diz, não há tratamento precoce. Quando André, 25, morreu por Covid, com seu quadro clínico severamente agravado por problemas no coração e insuficiência renal, a família não aceitou a informação de que isso se dera como fruto do tal tratamento precoce. Claro que não!

Quando Felipe, 42, teve os mesmos problemas, mesmo não tendo Covid, finalmente consideraram ajustar as dosagens da medicação. Felipe, coitado, não conseguiu uma vaga no hospital, quando seus rins pararam, e entrar na fila de doação de fígado foi especialmente triste. Mas, claro que a ciência não é séria! Como se pode dizer que esses medicamentos não dão conta? Eles curam a Covid, é óbvio! Absurdo é pagar caro pelos melhores planos de saúde e não conseguir uma vaga sequer em nenhum hospital, nem nos melhores nem mesmo nos mais fracos. Isso parece roubo para você? Para os Macedo, também!

E o caos no sistema de saúde se fez sentir mais algumas vezes. Após a quinta morte na família, alguns até cogitaram a heresia de que o kit para tratamento precoce estaria contribuindo para a piora nos quadros. E, se estivesse, qual o problema? Todos sabiam que ele curava. Estava curando doentes pelo país inteiro! Não era uma propaganda negativa de cientistas comprados e de uma mídia corrupta, opositora a seu presidente, que iria convencê-los de que não eram um caso grave de azar, uma triste exceção no meio da multidão. Uma família martirizada, por sua fé num reino divino de paz e prosperidade, por sua confiança no futuro em Cristo.

E onde entra o café nessa história? Bem, cientistas disseram que quarentenas bem feitas e o distanciamento social eram o caminho para que pudéssemos nos livrar rapidamente da pandemia e garantir o retorno inclusive às atividades econômicas. Os Macedo não ouviram. Cientistas afirmaram categoricamente que era preciso usar máscaras. Os Macedo não ouviram. Cientistas declararam que a medicação produzida para doenças como febre amarela, lúpus, vermes, bactérias e doenças afins em nada contribuía para o combate à Covid-19, e que ainda teriam efeitos colaterais graves, aumentando a quantidade de doenças e até mesmo majorando as mortes, direta ou indiretamente, relacionadas à pandemia. Os Macedo, adivinha? Não ouviram. Por que ouviriam que café não cura bebedeira? E, quanto ao efeito colateral do café, nesse caso, de deixar o bebum ainda mais acordado… bem, por onde começar?

Alberto de Macedo tomou meia garrafa térmica de café bem amargo, comeu goiabada (outra receita famosa para acabar com a bebedeira e, quiçá, até a ressaca), e se sentiu em condições de dirigir, após um churrasco promovido pelos primos em sua casa de praia. Encheu seu carro com a família. Um carro grande, forte, ostensivo até. Sua esposa, dois filhos e uma fraquejada, quer dizer, uma menina, filha do meio.

E pegaram a estrada, para voltar à capital, onde os negócios os aguardavam. Alberto não temia a blitz da “Lei Seca”, que fiscalizava bêbados, pois tomara café amargo até não poder mais. Comera goiabada até enjoar! No mínimo, o calor do café evaporara o álcool em seu sangue, certamente. E o doce devolvera a glicose, talvez… não sabia exatamente como funcionava a bebida, mas sabia que tinha algo a ver com glicose no sangue, ou a falta dela. A esposa resistira um pouco a entrar no carro quando ele se dispôs a dirigir, mas ele se ofendera e ordenara que entrassem todos! Ora! Ele era o patriarca daquele núcleo familiar e não aceitaria ser humilhado com desobediência diante de todo o resto da família! Que tipo de desmoralização seria aquela? O homem é a cabeça da família!

O que ele não previa (e como poderia prever?) era que seus reflexos não eram dos melhores, mas lhe parecia que não havia nada demais (estava bem desperto para que algo lhe pudesse escapar). Sua prudência, também, não estava em sua melhor apresentação, parece. Alberto achou que o retorno da viagem estava demorado demais para que pudesse simplesmente esperar. Claro que devia acelerar! Quem seria estúpido de sofrer um acidente na rodovia? Ele não, pois sabia dirigir como um Homem (viu o “H” maiúsculo? Importante). Ignorando protestos da esposa (mulheres!) e dos filhos, ele acelerou, e o resultado foi o que se podia esperar. Naquela rodovia movimentada, o seu carro pesado foi muito eficiente em arrastar consigo outros veículos. Seus airbags protegeram Alberto e sua esposa, bem como os três filhos, todos passando pela situação apenas com algumas escoriações. À sua volta, um dos carros capotou e começou a vazar combustível do tanque, e só não explodiu porque o sistema elétrico se desligou com o impacto. Outros automóveis engavetaram. Uma criança sem o assento adequado à sua idade gravemente ferida e sua mãe chorava copiosamente. Outro motorista saía do carro para verificar o estrago.

Não demorou e o motorista mais revoltado voltou ao seu carro e tirou do porta-luvas uma arma. Se eu entendesse de armas, diria detalhadamente qual era. Uma pistola semiautomática, suponho. Alberto estava bem acordado, mas o mundo girava à sua volta, parte como efeito da batida, parte como efeito do álcool. Estava enjoado e lhe faltava pouco para vomitar boa parte do café que ingerira. Enquanto tentava se refazer, viu o homem forte se aproximar, de revólver na mão.

Alberto quis pegar sua arma no porta-luvas, mas não o conseguia acessar com aquela porcaria de airbag no meio do caminho! Maldito airbag! Mas, ele era homem! Não. Homem, com H maiúsculo! Ele encararia o outro camarada. Nenhuma prudência o seguraria, já que o álcool lhe cortara as amarras e ele estava muito desperto. O outro valentão, de arma na mão, não perdeu tempo. Sentindo-se ameaçado e sem saber o que esperar, descarregou a arma na suposta ameaça. Atira primeiro e pergunta depois. Sabia que o índice de acerto, na hora do nervosismo, é de quase um tiro para cada seis, e descarregou os onze, doze tiros que dera, na esperança de neutralizar o agressor.

Instantes depois, o choro foi generalizado. Mais algumas pessoas choravam. O cartucho estava esvaziado, e ele superara as expectativas acertando quatro tiros no idiota que saíra do carro com nada mais do que as mãos fechadas. Mas os tiros que errara levaram consigo um dos filhos do idiota (Macedo) com dois anos e um tiro na testa. No carro de trás, matara o motorista e, acidentalmente, ainda acertara áreas não vitais de mais duas pessoas e perfurara alguns carros nos arredores.

A reação foi imediata. Iniciou-se um caos. Enquanto alguns corriam com medo, outros avançavam contra o atirador. Ele, que também tomara sua dose de café para segurar uma dosezinha de nada de uísque com água de coco, estava mais sóbrio, mas a revolta de tantos agressores quase o impedia de articular seus movimentos para trocar os cartuchos de balas. Foi atingido por uma barra de ferro, dessas que se usa para remover ou apertar os parafusos da roda. Não apagou como nos filmes, mas, teve uma fração de segundo no escuro, depois da qual se descobriu caído no chão. Chutado e pisoteado, ele não sairia dali, apesar dos esforços de sua esposa e seu filho adolescente para afastar os agressores.

O caos só acabou quando finalmente chegou a polícia rodoviária. Quer dizer, mais ou menos. Com a falta de pessoal, até que o posto mais próximo tivesse informação do que ocorria e enviasse alguém, já fazia horas desde o início do caos. Muitos já haviam partido, uma ambulância já levara os casos graves e alguns mortos já estavam cobertos por lonas na estrada. Os policiais se responsabilizaram por abrir o trânsito e restabelecer a ordem. Nada mais havia a ser feito.

 

Sobre o autor:

Pernambucano, ator e escritor. Escreve em versos desde a infância e entrou de cabeça no universo dos contos e romances em 2009. Escreve em diversos gêneros, desafiando-se regularmente. Tem trabalhos em obras realistas, de fantasia, ficção histórica entre outros. Idealizou o Literatura Errante, inicialmente um blog, e tem batalhado para fazer o Literatura Errante acontecer nos novos moldes.

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Revisão: Tatiana Iegoroff

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2 comentarios


Parabéns meu caro.

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Tati Iegoroff
Tati Iegoroff
21 abr 2021

Que excelente texto! Apesar da temática extremamente séria, uma leitura muito prazerosa

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