Carnaval Pandêmico


O mundo não está nada normal nos dias atuais, tudo começou no início do ano passado, ainda em 2020, depois do carnaval, e agora, antes dele, nada mudou. Aquela euforia, aquela agitação, aquele calor, aquele barulho nas avenidas, o samba, as escolas, os desfiles, a “pegação”, a balbúrdia... Esse ano se silenciará. Em 1892 e 1912, por casos diferentes a festa foi adiada, porém o motivo agora é pela vida. Faz sentido continuar? Fazer algazarra diante de tanta coisa triste? E se o carnaval realmente não acontecesse? Isso é real, fato, pela primeira vez na história ele está cancelado...

Ele desligou a televisão depois das tais palavras ditas pelo jornalista. “Cancelado? É isso mesmo?” Indagou em sua mente que agora borbulhava com tal notícia chocante. Estava preparado para a festa, para sair, para curtir... Em estado de choque sentou em sua mesa diante de seu notebook quando seu celular tocou, era uma vídeochamada em grupo, vários amigos seus ligando... Atendeu. Depois dos cumprimentos, chamando uns aos outros pelos queridos apelidos, um deles deu início à discussão.

— Viram isso? Cancelado...

— Dá para entender, não é gente? Diante disso tudo... — Disse uma das garotas.

— E a tal vacina?

— É muita gente para ser vacinada... Vai demorar... — Falou o gordinho da turma.

— Faz sentido... Isso é realmente algo surreal, coisa de ficção científica. — Falou outra garota.

— E ainda tem aqueles que insistem em não tomar.

Um silêncio pairou entre eles, pareciam ainda digerir tudo aquilo.

— E agora?

— Não vamos morrer sem festa, não é? É somente esse ano, logo tudo volta ao normal.

— Ano passado disseram: “É só seis meses.. Logo tudo volta ao normal...” E olha no que deu.

Risadas ecoaram entre eles.

— Vamos pensar num jeito? Numa solução, nos reunir sem...

— Não! — Disse Felipe, o qual estava calado ouvindo seus amigos até então, interrompendo o colega. O qual ainda tinha as palavras ditas pelo jornalista ecoando em seus ouvidos. — Não podemos fazer isso... Pense nas vidas, nas pessoas que perderam seus parentes... Não podemos fazer festa em meio a tudo isso.

— Desculpa cara, foi só uma sugestão...

— Eu sei... Mas, o que vale mesmo é a nossa empatia, nosso cuidado e respeito diante de tudo isso.

— Falou bonito. — Disse o gordinho.

— E... — Continuou Felipe. — Vamos nos reunir no dia 15 virtualmente, sem aglomeração, não para festejar, mas para fazermos uma homenagem aos que se foram e repensar nossas vidas, afinal sobrevivemos a tudo isso e estamos bem...

— Assim você me emociona.

— Todo grupo de malucos tem um com a cabeça no lugar.

— Então gente? Tudo combinado?

Assim, despediram-se da chamada. Cada um, nos dias que se seguiram, retomaram suas vidas de trabalhos e estudos. Home Office e aula on-line são realmente sem graça e complicados, quando se pode está juntos, convivendo, interagindo, conversando... Mas, o mundo não é mais o mesmo... E ele nos impôs a algo diferente.

Então o grande dia chegou. Estipularam o horário da noite, por volta das sete. Assim todos estavam juntos no horário estipulado para o grande momento. Felipe riu ao se deparar com certas figuras no computador.

— Não ria de minha fantasia! É para não perder o costume... — Disse o gordinho.

— Eu estou acompanhado de minhas inseparáveis cervejas...

— Eu, do meu vinho...

— Já eu... D-da m-minha... Ca... Caipirinha...

— Mal começamos e já está bêbado, Otávio?! — Gritou uma das garotas.

O riso foi livre, Otávio cambaleou na cadeira e foi amparado pela parede.

— Opa... Quase eu caio...

— Então? Como vai ser?

— Bem...

— Eu quero falar! — Gritou Otávio.

— Ah não...

Otávio ficou de pé meio cambaleante, ouviu-se um som alto, mas ele apressou-se e desligou, por fim falou:

— Eu... Quero beber esse copo em homenagem a... Todos que... Se... — Desiquilibrou-se um pouco e logo finalizou — Foram. — Tomou tudo num gole só.

— Muito bem... Obrigado, Otávio... — Começou Felipe, mas logo parou, pois ouviram dois baques seguidos de uma queda e a pequena tela de Otávio estremeceu revelando-o debruçado sobre a mesa dormindo.

— O cara dormiu!

Risadas ecoaram mais uma vez. Por fim Felipe retomou a fala.

— Amanhã ele vai estar melhor... Bem, meus amigos, esse ano o carnaval está diferente para nós, para todos nós, temos motivos para sorrirmos, para estarmos aqui não celebrando escolas ou quem é melhor que outra... Não, mas para celebrar a vida, a saúde e a proteção... Muitos se foram, mesmo não querendo ir, mesmo ainda lutando... E nós estamos aqui, vivos. Que neste carnaval as máscaras exuberantes sejam substituídas pelas máscaras da proteção, da empatia, que as fantasias sejam substituídas pelas armaduras da proteção em cada um de nós e em nossas famílias e... Que o único som, batuque, passadas, sejam o som dos nossos corações pulsando como um só, pois o distanciamento nos distancia, mas o amor nos une.

Aplausos ecoaram de seus amigos, por incrível que pareça viram Otávio erguer as mãos e aplaudir também. Depois de risadas, Júlia falou:

— Muito lindo o que você disse, até me emocionei, falou tudo.

— Verdade... — Disse o gordinho.

— Então, um brinde a todos que se foram e um brinde à vida!

Ergueram seus copos, mesmo não podendo tocar um ao outro e ouvir aquele tilintar. A noite seguiu-se assim, cada um em seu lugar, cada um em seu canto. É do ser humano a aglomeração, o calor, a agitação, porém o carnaval ficou diferente assim como o mundo está diferente. Tudo isso nos ensinou a reinventar, a mudar, a refletir... A nos impor numa situação, que não estamos acostumados, porém necessária. Assim como Felipe e seus amigos, no grande dia que também todos possam se reinventar, se juntar sem aglomerar, brincar sem estar juntos e lembrar-se dos que se foram lutando pela vida. Pois o distanciamento nos distancia, porém o amor nos une.

Sobre o Autor:

Nasceu em Manaus/AM é formado em Letras – língua portuguesa e literatura, pós graduado em didática do ensino superior, professor, escritor, poeta, músico, dramaturgo, compositor, contista e roteirista. Autor do livro: OS TRÊS. Tem trabalhos em duas antologias poéticas, ama escrever, criar e se perder em seus mundos que tanto lhes tira da realidade.


Instagram: @jazinosoares

Facebook: Jázino Soares

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