Cena 4 - O fim da música

Créditos iniciais ou Prefácio para quem preferir.

Uma vez ao andar em um trem turístico, não pude evitar ouvir uma conversa. Ao olhar uma casinha fincada no pé da serra, a senhora sentada no banco em frente ao meu, disse: Olha lá, João! Parece casa de pintura. Daquelas que Odete pinta.

Não sei quem é João, nem Odete. Mas o que seguiu na conversa me deixou encafifado. João, perdido em olhares profundos disse: Ali deve ter história.

Narrativas que se cruzam, histórias que não são contadas. Amores, traições, derrotas, vitórias. Coisas que acabam bem. Novelas sem casamento no final. O herói da profecia que falha, o anti-herói sem redenção. Mortes estúpidas. Vidas gloriosas. Tudo acontece ao nosso redor e nem notamos. Nem tudo tem registro ou sentido. Algumas vezes apenas passamos ao longe e vemos uma moça na janela, um menino na rua, uma manchete de jornal. Não há ligação, mas tudo está ligado. Basta olhar com atenção. Ler atentamente. E olhar cada capítulo da vida como quem olha um álbum de retratos velhos e imagina o antes e o depois do abrir e fechar do obturador. Leia o texto a seguir com esses olhos. Olhar de quem imagina e enxerga além da fotografia. Divirta-se.


CENA 4

– Que coisa chata – reclamou o homem que seguia para casa depois de um dia de trabalho, louco para rapidamente guardar o carro na garagem, beijar a esposa, abraçar a filha e abrir uma cerveja. Antes, de se deliciar com esses desejos acalentados ao fim do expediente, segue inutilmente buscando por algo que toque no rádio e mexa com seu coração, humor ou ao menos traga alguma lembrança de tempos esquecidos graças ao caos cotidiano em que vive.

– Realmente a música morreu. – falou desligando o rádio e resignado continuou, aguardando em silêncio que o caminho até sua casa acabasse logo.

Em casa, realiza os sonhos planejados e ouve de sua esposa:

– Seu amigo Antônio disse que vem para o jantar. Pode parar nessa latinha! Você tem andando fraco para a bebida ultimamente. Misturar vinho e cerveja não vai te fazer bem. –Maria cumpria o papel de esposa criteriosamente bem. Marconi apenas obedecia e deixava claro que a opinião dela era importante e absoluta. Termina o conteúdo da lata de cerveja e a joga fora sinalizando que era a derradeira. Fala com um tom de dúvida misturado com alegria:

– Sério? Que bom que ele confirmou. Há tempos quero que ele venha. Cadê a minha filha linda? – fala aumentando a voz pensando que a filha ouviria e viria correndo ao seu encontro.

– Foi para a casa de minha mãe. Pediu para dormir lá. Disse que estava com saudades da vovó.

– Agora fiquei triste...

Era um pai presente, apesar dos pesares de sua rotina. Aproveitava ardentemente os poucos minutos que dispunha com a filha.

– Bom, pelo menos o Antônio vem para o jantar.

– Fique alegre que daqui a pouco ele toca a campainha. – disse a esposa conhecedora do drama que o marido fazia quando a filha não estava por perto.

– Tem razão.

Eis que, alguns minutos depois, o amigo chega trazendo uma garrafa de tinto seco. Ao notar o presente, O anfitrião diz:

– Mas nem precisava, meu amigo! Já providenciei algumas garrafas! Se bem que nunca é demais.

– Hoje é sexta. Temos muito que conversar!

– E como! Já te falei do livro que estou lendo?- fala, dando espaço para que o amigo entre em sua casa e segue com outra pergunta:

– Sobre a história da música clássica? Na verdade é mais sobre a indústria fonográfica.

O amigo entra e responde:

– Não me lembro...

– Aquele que ganhei de natal de Maria: Maestros, obras-primas e loucura.

– Ah, sim! Já leu?

– Já sim. Ele é interessante, mas nem por isso; é outra coisa: A música morreu. – Marconi coloca a garrafa sobre a mesa de centro e aponta o sofá para que o amigo se sente.

– Como assim?

– Deixa para depois do jantar. Primeiro vamos abrir essa garrafa. – Vai até a copa da casa em busca de saca-rolha e taças. Já voltando com os apetrechos, com um sorriso no rosto fala calmamente, saboreando o momento:

– E depois outra e outra...

Riram muito, brindando e bebendo a primeira dose de uma talagada só. Antônio fala ao anfitrião.

– Mas como assim, Marconi? Como assim: a música morreu?

– Me fale você que é pianista!

Antes que pudesse responder Maria os chama para o jantar.

A conversa segue, após a refeição, na varanda que havia na saída da cozinha, onde Marconi mantinha algumas cadeiras confortáveis para esses momentos de descontração e bebedeira.

– Fazia tempo que queria terminar uma sexta assim: Sem pressa de terminar a conversa, beber e conversar sem que o relógio seja regente de minhas vontades, impedindo de continuar qualquer coisa que fosse.

– Eu também. E como! Mas me diga a música morreu por quê? – Antônio se lembra do assunto anterior e o retoma.

– Então... Não foi só a pirataria. Foi uma mudança de investimentos das empresas que trabalham com entretenimento.

– Ponto interessante...

– Mas claro que não foi só isso. A sociedade mudou. A atenção é fracionada. A música tem que dividir a atenção de quem, em seus momentos de ócio, busca passatempos.

– Então a música se resume a passatempo?

– Desculpe se te ofendi...

– Não! Isso acontece com a literatura também. Não é apenas uma mudança de hábitos ou interesses de investimentos. Há algo maior nisso aí. Maior que imaginamos e com um estrago incomensurável na sociedade. Mas temos que aprofundar essa conversa. Continue!

– Lendo o livro, pensei em uns pontos. Algo que pudesse amarrar essa coisa toda e vi uma reportagem onde dizia que o CD, ou a invenção dele, possibilitou uma nova onda de vendas e isso deu um sopro de vida maior ao mercado de música.

– Mas a possibilidade de gravar um CD em casa, no seu computador, também deu chance para a pirataria.

– Acho que isso tem mais a ver com lavagem de dinheiro, crime organizado. Esse mercado tem raízes em terrenos funestos. Onde, se cavar bastante, irá achar só podridão.

– Realmente deve ser isso. Como dar fim nisso? Por outro lado acho que os preços atrapalharam muito.

– Acho que a morte da música tem a ver com mais coisas que só essas questões financeiras e culturais tentam explicar. Acho que morreu junto com o mercado, a sensibilidade, a percepção do etéreo, a sublime expressão artística. Tudo em detrimento do belo e da poesia em função e em prol da vaidade e da ambição.

– Boa filosofia... Mas isso é bíblico: Tudo abaixo das nuvens é vaidade. E o Homem se deixa corromper. No fim descobriremos que o término do mercado foi apenas uma loja que fechou para dar lugar à outra. – Antônio concordava com Marconi aceitando suas colocações e tentando entrar na essência da conversa. Conversa essa que, se não atentasse ao fio de Ariadne proposto, seria infindável em ramificações e subtextos, possibilidades, alternativas.

– Também não gosto de conceitos e ideias se sobreporem à execução ou ao resultado final. – Marconi fala e olha para o amigo buscando uma conclusão ou mais possibilidades para o assunto. Antônio então, dando fôlego para um ponto específico, dispara:

– Essa discussão sobre estética vai longe. Mas infelizmente a falta de acesso à cultura geral faz acontecer resultados medíocres na indústria. Há um apelo velado em tudo. Seja sexual, emotivo, ideológico. Sempre há um apelo para tentar te fisgar de alguma forma. Mas isso é difícil elucidar. Até mesmo porque há muita razão emotiva em tudo que nos é mostrado durante a vida. Deixo claro que essa é minha visão particular. Gosto de Bach por motivos óbvios. Estudei música, fui apresentado à obra dele em uma hora certa, quando meu conhecimento teórico me fazia enxergar o cerne da estrutura musical e me deixar impressionado com a complexidade. O que nunca me impediu de gostar apaixonadamente de música pop. Aquelas mesmas que eu e você ouvimos na adolescência. Músicas cruas, simples ao extremo, mas que ao escutá-las me trazem lembranças felizes e maravilhosas. Como não gostar delas tanto quanto gosto de Bach?

– Verdade. Só que naquela época tocava de tudo. Hoje me parece um armazém onde só se encontra uma marca de feijão. Se não experimentar outras marcas como vou desenvolver meu gosto? Vou ficar limitado ao que me é exposto, oferecido?

– Nesse ponto você está certíssimo. Não há variedade. Mas isso na mídia comprada. Não significa que não exista... Porém, entretanto, todavia... – Antônio revira os olhos, fazendo certo drama - não acredito que alguém sente à frente do computador e pergunte para si mesmo: Agora vou pesquisar quais novos compositores, quais novas bandas? Ou escreva em sites de busca: Quem são os eruditos contemporâneos? A não ser estudantes de música ou diletantes. Acho triste ter tanta possibilidade de acesso e não saber o que procurar... E tem uma coisa que me incomoda. Esses sucessos que tem prazo limitado, esses artistas que aparecem em um verão e desaparecem. Sem citar nomes. Tenho uma cisma que há algum tipo de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas nesses artistas. Lembra de uma dupla sertaneja do sul que o pai de um dos cantores fabricava cigarros falsificados e usava os contratos de shows da dupla para lavar dinheiro?

– Nossa nem me lembrava disso.

– São os terrenos funestos, as ligações nefastas. Tão vil e baixo quanto quaisquer criminosos, desde o ladrão de galinhas ao grande político corrupto. Não há mais indignação com isso. Há apenas indiferença. Banalizou tudo. Mas cadê a Delegacia que cuida de facções e lavagem de dinheiro? Tem recursos para investigar? Tem condições de prender esses bandidos?

– Claro que não! E os interesses políticos? Quem garante que esse dinheiro lavado não apoia campanhas políticas?

– E pensar que o assunto era o fim da música? – Antônio fala esticando a mão com a taça vazia. Marconi preenche a taça com o tinto seco apreciado por ambos e se assusta com o barulho das sirenes chegando e com o ronco dos motores das viaturas policiais parando bruscamente em sua rua. O barulho: sirenes, motores, vozes nervosas pareciam se originar frente à casa da moça que morava vizinha. Os amigos se olham assustados. Sem dizer nada, se levantam rapidamente e vão para a entrada da casa ver o que estava acontecendo. Ficam olhando a ação policial e dos socorristas.

Um silêncio agourento assume o lugar das sirenes, que aos poucos foram desligadas, giroflex ligados agregando sensações angustiantes diante do ocorrido. O vermelho do vinho das taças assemelhado ao vermelho que manchava as roupas da moça. Policiais balançando negativamente as cabeças. Pessoas se aglomerando, engrossando a multidão de curiosos. Fazendo suposições óbvias e preconceituosas, julgando a vítima sem conhecimento real do ocorrido: “Quem mandou morar sozinha!” ou “Deve ter sido algum namorado ciumento”. Faces tristes, aflitas, em constrição dos policiais que não puderam fazer nada pela moça. Moça que sozinha apenas conseguiu chamar a polícia após ser agredida de modo mortal por sabe Deus quem.

E o silêncio.

O fim do pulso, do ritmo, da respiração, do som melódico da voz. Fim das aspirações e expirações aceleradas ou das pausadas; fim das passadas apressadas ou do andamento lento, contemplativo; fim do timbre único da voz, timbre é o nome que os músicos chamam de cor do som e fim da cor e brilho dos olhos; dos brilhos agudos da fala; das risadas graves salpicadas de risinhos; fim de uma infinidade de analogias sonoras que são o cerne da vida, mas que ali perdiam a beleza e cessavam silenciosamente, sem da capo, sem ritornello, sem chance de recomeçar ou fugir, não no sentido de uma fuga, mas como as fugas de Bach.

Quando o corpo era colocado na ambulância. Marconi fala sem pensar na ironia das imitações da vida:

– Para ela a música realmente findou...

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