Cena 6 – Diálogos


Créditos iniciais ou Prefácio para quem preferir.


Uma vez ao andar em um trem turístico, não pude evitar ouvir uma conversa. Ao olhar uma casinha fincada no pé da serra, a senhora sentada no banco em frente ao meu, disse: Olha lá, João! Parece casa de pintura. Daquelas que Odete pinta.

Não sei quem é João, nem Odete. Mas o que seguiu na conversa me deixou encafifado. João, perdido em olhares profundos disse: Ali deve ter história.

Narrativas que se cruzam, histórias que não são contadas. Amores, traições, derrotas, vitórias. Coisas que acabam bem. Novelas sem casamento no final. O herói da profecia que falha, o anti-herói sem redenção. Mortes estúpidas. Vidas gloriosas. Tudo acontece ao nosso redor e nem notamos. Nem tudo tem registro ou sentido. Algumas vezes apenas passamos ao longe e vemos uma moça na janela, um menino na rua, uma manchete de jornal. Não há ligação, mas tudo está ligado. Basta olhar com atenção. Ler atentamente. E olhar cada capítulo da vida como quem olha um álbum de retratos velhos e imagina o antes e o depois do abrir e fechar do obturador. Leia o texto a seguir com esses olhos. Olhar de quem imagina e enxerga além da fotografia. Divirta-se.



Cena 6



– Bom dia, Doutor.

– Bom dia. Você já falou com o Escrivão?

– Já sim.

– Chama ele aqui... Junto com a Testemunha. Quero fazer o interrogatório agora.

– Ele me disse que houve outra morte.

– Falei para ele não te dizer nada. Não antes de você tentar sair dessa depressão.

– Mas vou ficar bem.

– Com um assassino em série agindo? Duvido.

– Mas isso será solucionado. Temos uma testemunha.

– Sim, mas não funciona assim, você sabe.

O Delegado olhou o Investigador sair de sua sala e pensou que ele mesmo deveria marcar a consulta com a Psicóloga, o Investigador não iria fazer isso sozinho. Porém, isso deveria ser em outra hora, agora teria que ouvir a Testemunha que viu o Assassino sair da casa onde encontraram o corpo da Garota.

– Bom dia, Senhora... Maria Guiomar. Desculpe trazê-la aqui logo pela manhã. Mas temos que correr contra o tempo.

– Sim, entendo... Não me incomodo. – A Testemunha estava resignada.

O Escrivão entra e começa a preparar o arquivo de computador onde irá registrar tudo.

Testemunha ouvida, papéis assinados, conversas pelo corredor:

– Que você acha?

– Ela sabe.

– E o Delegado?

– Conivente, sabe de tudo e vai fazer tudo para encobrir.

– Outro caso de crime sexual que vai para a mídia e nem vão lembrar no dia seguinte.

– Se chegar ao dia seguinte... Acho que quando o repórter ler a próxima notícia o povo já nem vai se lembrar da garota.

– Ou das garotas.

– Você ainda insiste nesse lance de serial killer? Aqui não é seriado americano, cara! Aqui é a vida real.

– Tenho meus motivos. Você mesmo concorda comigo.

– Concordo, mas não há nada que possamos fazer. Não tem como usar precogs.

– Puta que pariu! Você fala para mim que aqui não é seriado americano, mas cita personagem de ficção-científica.

– Calma, meu filho. – O Escrivão ri da indignação forçada do Investigador.

– Essas piadas são muito herméticas. Só poucos fãs vão entender. Aqui na Delegacia não tem muitos assim.

– Nerds?

– Você tá a fim de me deixar puto? Se for isso, fala logo.

– Zoeira. – Encerra a brincadeira, o Escrivão.

Um olha para o outro e vão para a sala do escrivão. Lá engatam um debate que, em outros tempos, levariam para um bar e entrariam noite adentro conjecturando e imaginando como seria fácil o trabalho policial caso a vida imitasse a arte, tanto a literária quanto a cinematográfica.

Eram amigos desde o tempo de Academia de Polícia. O Escrivão conhecia bem as fraquezas do Investigador, sabia que comparar, os livros policiais ou os filmes que gostava, com situações cotidianas do trabalho, o deixava irritado. “Essas fantasias da cultura pop não tem nada a ver com o nosso trabalho.” Falava o Investigador sempre que o amigo vinha com anedotas de mau gosto. O Escrivão nem ligava. Estava ali pelo salário, estabilidade e esses benefícios do funcionalismo público.

– Então, meu amigo. Te darei mais uma chance para me convencer que essa sua teoria de serial killer é verdadeira ou ao menos tem fundamento. Sei que isso está te matando. Pode falar. Sinto que vai te fazer bem. Desabafa, vai. – E cruza os dedos das mãos com os cotovelos apoiados na mesa.

– Acho que o psicopata estereotipado de seriado americano, por viver em uma sociedade onde há claramente uma cultura armamentista e bélica, cria sua válvula de escape entrando em um cinema com uma metralhadora ou um rifle e mata quantas pessoas puder.

– Ahan...

– Aqui no Brasil onde há uma desvalorização da figura feminina em músicas, novelas, no mercado de trabalho. Onde há uma sexualização exagerada do feminino, uma objetização do corpo da mulher. Uma estrutural cultura machista e de estupro. Acho, e acredito que vou provar um dia, que o psicopata aqui vive em um oásis. Aqui ele pode estuprar em série. Matar mulheres em série e nada vai acontecer. Não temos como investigar. Não há um clamor na mídia que nos obrigue a isso. Vira estatística. Pronto! A vítima de estupro não relata o crime. Tem vergonha. E para ficar mais surreal, o Maníaco do Parque recebe cartas na prisão; vira celebridade.

– Muita dor nesse coraçãozinho.

– Você brinca com isso.

– Você o quê? Colocar os corpos desses estupradores em um tanque e jogar gasolina?

– Tem horas que tenho vontade.

– O Delegado tem razão. Você precisa de terapia.

– Calma, cara. Não vou matar ninguém. Minha moral me impede. Mas desejar que alguém faça exatamente isso não fere meu senso de moralidade e justiça.

– Ser mandante também dá cadeia.

– Porra! Você acha que vou fazer isso?

– Por enquanto não. Mas mês passado você estava bem descontrolado na diligência.

A diligência a qual o Escrivão ser referia era uma coleta de provas em uma cena de crime. O Investigador analisava minuciosamente qualquer crime sexual tentando achar um padrão na conduta do delinquente. Apenas crimes domésticos ou acidentes não entravam nessa demanda. Os crimes mais analisados eram estupros ou assassinatos que envolvessem algum tipo de premeditação. Porém, crimes contra mulheres em geral, qualquer que fosse a razão, não diminuía sua revolta e tristeza. Não por causa de achar que mulheres eram frágeis e ou indefesas, mas por acreditar que a covardia dos atos era repugnante.

Entretanto, algo, ou quem sabe o quê, despertou uma profunda ira no Investigador na última diligência, uma busca de provas. Parecia um crime doméstico comum: Marido bêbado, com ciúme doentio, arrebenta porta do quarto do casal e espanca mulher. Espanca até algum vizinho perceber o perigo e chamar a polícia militar. Ao notar a viatura, que milagrosamente chegou antes do pior acontecer, o marido muda sua conduta: fica aparentemente calmo. Como se uma chave de comportamento fosse acionada em seu cérebro. A mulher resignada e acostumada com as repentinas mudanças de comportamento, diz aos policiais que caiu no chão, e a queda provocou os ferimentos no rosto e hematomas no corpo. Diante do absurdo da situação, os policiais ficam sem ter o que fazer. Apesar de ser clara a agressão não podiam fazer nada. Não houve flagrante. A suposta vítima dizia que quem chamou a polícia estava mentido e que os gritos foram causados pelo susto da queda. Os policiais incrédulos ficam sem ação. Mas em uma atitude de ousada estratégia, um policial chama pelo rádio outra policial em serviço, que acostumada com esses eventos, talvez pudesse avaliar melhor a ocasião e falar em particular com a esposa agredida. Resoluta, a esposa nega. Os policiais vão embora resignados. Uma quinzena depois um nefasto resultado desse evento aparece: A Esposa é encontrada morta; A Policial que tentou revelar a verdade: Espancada, estuprada e em coma; o Marido foragido. O motivo da revolta do Investigador? Não havia vestígios de nada relacionado a espancamentos no cadáver da Esposa. A morte aparentemente fora causada por ingestão de medicamentos. Resultado do inquérito: Suicídio. Como se resolveu o caso da Policial? Estupro e tentativa de assassinato. A investigação tenta provar que há possibilidades de retaliação por parte de criminosos presos anteriormente por ela. O Marido? Após a morte da esposa, em uma busca na residência do casal a polícia encontrou uma quantidade enorme de drogas que indicava envolvimento com tráfico e venda de entorpecentes sintéticos. Mas como o “achado” foi inesperado, a investigação não possuía detalhes e não conseguia ligar o Marido às facções de crime organizado.

E isso para o Investigador era apenas fumaça. Fazia parte da ilusão. O Marido não era traficante. A Esposa não se matou. A Policial estava em coma por um erro; era para ter sido morta. Ela sabia de alguma coisa. O Investigador acreditava ser uma possível tentativa de queima de arquivo.

– Vou te falar uma coisa. – disse o Investigador. – Para o Delegado é mais fácil seguir esse caminho: Dar soluções e respostas rápidas para a Mídia. Tranquilizar a população e mostrar domínio da situação. Você sabe que tenho razão.

– Ele não gosta de trabalhar, você bem sabe.

– Mas não podemos deixar um assassino solto. Prender o safado por tráfico não vai dar em nada. Você sabe que vivemos em uma Narcocracia. Ele vai ser um rei no presídio. Ele tem curso superior. Vão mandar o safado para Tremembé, junto com outras celebridades criminosas. E eu tenho certeza que todos os crimes sexuais e desaparecimentos que investiguei no último ano são ou tem o envolvimento dele; do marido da Carla, e o safado tá foragido.

– Tá vendo? Essa intimidade que é desnecessária. Você se refere à vítima como se fosse parente. O Delegado não está errado ao dizer que você quer transformar isso em uma vingança ou demanda sagrada. Guerra Santa ou o que quer que chame essa loucura.

– Não é loucura interligar as ações de um psicopata. É tudo claro! O Delegado que não quer saber disso. Falar que é gastar inutilmente recursos públicos, em uma ação que com certeza vai mudar a ação da polícia e diminuir o número de crimes? É simplesmente burrice! Cegueira de quem é divorciado da realidade. Não vou jogar dinheiro público fora. É investimento! É melhorar a ação policial. Jogar dinheiro fora é ficar dando entrevista para justificar mentiras e iludir a população. – A indignação do investigador aumentava o volume de sua voz em uma proporção que era próxima ao dobro do normal. O Escrivão ao notar, tenta corrigir a expressiva explanação.

– Calma, meu filho. Vai que ele te escuta. Pronto! Começa tudo de novo: Ele vai te indicar uma psicóloga, uma terapeuta. Vai pedir para você tirar licença, devolver a arma, o distintivo. Aí você fica sem grana, começa a beber... E eu perco o amigo para o vício.

– Ele não vai ouvir. Ele deve tá pensando na próxima entrevista.

– Com certeza.

O telefone tocou, ao atender, o Escrivão muda a feição drasticamente.

– Venha comigo. O Agente ligou e pediu para levarmos o perito lá no Posto da estrada velha. Funcionários do Posto encontraram um cara morto dentro de um porta-malas. A Polícia Militar suspeita de guerra entre traficantes. Disse que tá uma bagunça; que eles também encontraram, em um tanque desativado, uma quantidade grande de ácido sulfúrico. Deram um aperto no dono do lugar e ele se matou. Um borracheiro pelo que o Agente falou.

–Oxi, ácido sulfúrico derrete até osso. Será que iriam sumir com esse corpo encontrado no carro e não de tempo?

– Só indo lá para saber. Vai pegar suas coisas. A Seccional já está mandando os peritos.

No caminho os policiais mudam completamente seus semblantes. A conversa que antes era leve e dentro de um espectro de normalidade, no cotidiano policial, mudou completamente o tom. O sombrio e, algumas vezes, asqueroso mundo real, mostrava mais uma vez suas sórdidas e mórbidas facetas.

– Essas coisas que me tiram a vontade de ser policial. – Disse o Escrivão. – Esse circo que se arma em torno de um crime. Vai ter jornal, revista, televisão, gente de rádio. Vai ser um show você vai ver.

– Mas o que o Agente te disse? Você ficou um tempo enorme no telefone e não me deu detalhes de nada. Fechou a cara e veio para a viatura.

– Encontraram um carro de placa de outro estado, me esqueci de te falar. Informaram que o dono está desaparecido há tempos. Fora isso, o Agente disse que há um Borracheiro morto e ácido sulfúrico. O resto, nós vamos descobrir lá.

– Eu conheço seu jeito. Deve ter algo que não quer me contar. Ou você não quer me pilhar para eu chegar lá louco de raiva ou quer ver a minha reação sem prévias especulações, in natura.

– Nem uma coisa nem outra. A verdade é que o Agente me disse que a parada vai ser grande. Não tô a fim de holofotes. O Delegado vai vir conosco, e não gosto da empáfia dele nesses showzinhos que ele promove em casos desse vulto.

– Então, vou acreditar em você.

Os minutos que se passaram até a chegada ao Posto foram silenciosos. Cada um vivia seu inferno particular. O Escrivão, policial que era sólido em suas reações diante de situações como aquela, contrastava em face ao Investigador que ali estava apenas por questões financeiras. Para o Escrivão eram as mazelas do trabalho. Contabilizava as misérias humanas em seus relatos frios e atentos apenas aos fatos. Enquanto o Investigador procurava uma tábua de salvação ideológica para se apoiar e aguentar as agruras do ofício. Um se aliviava nos gastos desnecessários que o salário proporcionava, o outro esquadrinhava maneiras de abrandar a alma destruída pelas acidezes engolidas no cotidiano policial. Ambos apenas se anestesiavam em doses homeopáticas. Um nos prazeres materiais, regalos do consumismo. O outro na redenção de uma imaterial sensação de fazer o que é certo. Nada aliviava a dor de não poder fazer nada em horas como as que estavam no porvir, dali a alguns instantes.

E os homens chegam ao local do crime.

As transgressões morais eram as mais horríveis para o Investigador. Os crimes planejados, as mortes encomendadas, as vítimas silenciosas que a sociedade esquecia ao ouvir respostas óbvias em canais de televisão.

Quem clamaria por elas? Era injusto demais. Mas alguém deveria jogar a sujeira para baixo do tapete. Mesmo que uma hora ou outra não coubesse mais e algo ficasse à vista de todos. Pela quantidade de pessoas envolvidas na operação que se iniciava, essa hora parecia ser a que se principiava.

– Olha o tamanho da tenda do circo. O Delegado vai adorar. – O investigador se referia ao número de jornalistas já posicionados ao longo da fita amarela que a polícia militar usava para cercar e afastar pessoas do local do crime. O pátio da borracharia e grande parte do estacionamento do Posto estavam cercados por ela.

– Que bom que chegaram. Vamos precisar de muita gente aqui. Mas muita gente mesmo. – O Agente Policial estava tenso, prestes a surtar de tanto nervosismo. O Investigador, juntamente com o Escrivão, sem demora percebe o motivo.

– Que pilha é aquela onde os policiais militares estão?

– Corpos. – Sucintamente responde o Agente.

– Os peritos vão ter trabalho.

– Não vão. São de oito donos de biqueiras. Alguém fez uma limpa nas facções daqui.

– Opa! Já vi disputas assim, mas oito de uma vez?

– Falei com um ganso daqui mesmo, por celular. Ele me disse que algum maluco roubou toda movimentação desse mês das biqueiras e deu o fora.

– Como assim?

Enquanto o Agente contava ao Investigador detalhes das informações passadas pelo informante, o Escrivão atentamente associava alguns pontos.

– Não pode ser tão simples assim. Sei que parece pelo em ovo, mas não acho que essas mortes têm a ver com uma simples disputa de traficantes. Não funciona assim.

– Vamos ver o que temos aqui.

O Investigador conversa com os policiais militares que estavam ali, queria saber a história da ocorrência. Como chegaram ali, que informações tinham e o que motivou a morte do Borracheiro. Precisava montar o quebra-cabeça.

– Alguém que trabalha aqui no Posto ligou para o 190, falando que este carro estava aqui desde ontem. Como a placa batia com um veículo de um homem desaparecido, viemos averiguar. Assim que chegamos, o Borracheiro ficou descontrolado, histérico, andando de um lado para o outro. Quando tentamos chegar perto para conversar sobre o carro, ele correu para dentro e se matou. – Disse o Policial para o Investigador.

– E depois?

– Depois fomos dar uma busca no quartinho ao lado da borracharia e encontramos os barris de ácido sulfúrico. Em um armário encontramos uma mala com roupas femininas e fotos de mulheres que já identificamos como vítimas de desaparecimentos e chamamos a Civil. O Agente estava mais perto e foi o primeiro a chegar. No momento que ele chegou, já acionou vocês.

– E os corpos dos traficantes?

– Estavam dentro de um tanque de gasolina desativado. Achamos que ele iria usar o ácido dos barris para derreter.

– Tá cada vez melhor. Veja isso! – O Investigador chama o Escrivão para ouvir o relato do Policial Militar.

– Tô ouvindo, os peritos vão ter muito trabalho. O Instituto de Criminalística vai fazer hora extra. Mas, pessoal. Será que foi acerto de contas? Disputa por território? Oito caras? Que tá havendo nos negócios dos caras? Que loucura. Nem quero ver a reação do Delegado. Ele vai pirar com essa história. Que vocês acham? – Pergunta o Escrivão.

– Não quero nem saber dos traficantes, mas a mala com objetos das vítimas me deixou puto. Se o Borracheiro for o responsável... Estava aqui o tempo todo e nem imaginamos. – A raiva do Policial Militar era evidente em suas palavras;

– Se ele usou ácido sulfúrico, a perícia só vai encontrar algum resido que nem dará para classificar como biológico, como orgânico. Só vai aparecer carbono como resíduo misturado ao ácido. Ou seja, teremos indícios, mas nada conclusivo, incontestável. – Disse o Investigador. – Mas acho que essa maleta, mala pode resolver os crimes contra mulheres que ando investigando, se for a “coleção” de um psicopata e se os objetos forem das vítimas, tudo indica que o Borracheiro seria o responsável pelos desaparecimentos. E no carro o que encontraram?

– O porta-malas estava só encostado, meu parceiro abriu e encontramos o corpo do suposto dono morto, amarrado e com um pacote de cocaína. Os peritos e os caras do IML estão lá.

Antes que alguém falasse mais alguma palavra o carro do Delegado estaciona antes das fitas de isolamento. Do veículo, sai o Delegado com uma expressão apreensiva. Andando com firmeza e pressa, se achega aos policiais civis e militares, e dispara uma saraivada de perguntas e ordens:

– Nada será dito à imprensa que não seja algo que passe por mim. O que vai acontecer de agora em diante será sob minha supervisão. – Olhando para o Investigador fala com um pouco mais de calma – Temos que arrumar um local para conversar sem que ninguém, que não seja da polícia, nos incomode. Os urubus já estão loucos para comer a carniça e não quero que falem que o trabalho policial é incompetente. Quem foi o primeiro que chegou aqui? Quero saber de todos os detalhes. Cadê o P.M. que atendeu o chamado? – O Investigador aponta o Policial que ainda a pouco contava a história.

Após um rápido, porém detalhado, relato de tudo que havia constatado. O Delegado parecia mais tranquilo e fala para as pessoas que estavam ali:

– Então, pessoal é isso. Vamos esperar a confirmação da Perícia, do Instituto e é só finalizar o inquérito. Daqui para frente é só burocracia. Esses psicóticos surtam e nos dão o serviço completo.

– Mas, Doutor. Essa quantidade de ácido sulfúrico não se compra assim facilmente. Tem mais coisa aí para investigar.

– Para de procurar chifre em cabeça de cavalo. Você tá louco? Já arredondou tudo. Tá óbvio! O Borracheiro é o maluco que procurávamos, o corpo do carro está com drogas, com certeza tem envolvimento com o tráfico. Guerra de quadrilhas. Pronto, meu amigo! Menos bandido para encher nosso saco. Vai querer trabalhar à toa? Fica na sua. Faz o trabalho e deixa a coisa como está. Colhe os depoimentos de quem trabalha nesse lugar e já era. Acabou. Resolvemos.

– Sim, Doutor... Pode Deixar. – Como o Investigador já não estava bem na avaliação do Delegado era melhor concordar e deixar a situação como estava.

– Vou alimentar os corvos e já volto. – Fala o Delegado caminhando em direção do grupo de jornalistas que aguardavam por migalhas noticiosas.

O Investigador queria muito que a perícia encontrasse algo relevante que colocasse em dúvida a conclusão de que o Borracheiro era responsável por tudo aquilo. Para ele as mortes dos traficantes foram feitas por outra pessoa e aquilo ali era só a operação de limpeza. A sua intuição lhe dizia que havia algo maior. Teria que investigar sozinho, alheio ao trabalho oficial. Não iria esperar a coisa esfriar e cair no esquecimento.

Em um ato impensado, totalmente impulsionado pela intuição, o Investigador entra no quartinho onde o Borracheiro dera fim a sua própria vida. Conversa com o Perito responsável e pede para olhar os pertences que o suposto psicopata recolhia de suas vítimas. Ao ver duas fotos tiradas de celular e impressas em folhas sulfite, não conseguiu manter as pernas firmes, sem conseguir conciliar nenhum pensamento, gritou ao Escrivão:

– Liga pro Hospital. AGORAAA!

Longe dali, fumando calmamente um cigarro barato. O marido de Carla seguia em direção ao nordeste do país. No porta-luvas do painel, uma nota fiscal de compra de certo produto químico; no porta-malas um corpo de mulher que recentemente estava desacordada no hospital. Agora, o destino era algo que ninguém queria que fosse certo. A frase: “Na vida a única certeza é a morte.”, nunca teria mais verdadeiro sentido denotativo.

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