Confidências Anônimas


Havia um quê de neblina no olhar daquela moça. Olhos inchados, sombreados de roxo, fitavam, perdidos, o chão daquela composição do trem. Entre um e outro segundo, observava, como quem olha, mas não vê, uma e outra cena bizarra daquele cenário caótico; mas era mais um reflexo corpóreo aos estímulos externos bruscos, do que uma real e psíquica contemplação do que ocorria. Sua mente estava numa dimensão inalcançável, era quase um fantasma ali, sua alma parecia não habitar aquele corpo; sem dúvida, seu pensamento e seu coração estavam a milhas de distância.

Seu olhar cruzou com o meu em uma fração de segundo. Foi quase palpável o pesar do seu espírito, quase palatável o amargor da sua tristeza, praticamente pude sentir o peso da sua existência. Eu podia ouvir uma súplica silenciosa naqueles olhos cinzentos.

Inevitável não se ver ali, naquela cena.

Sentir aquela dor que não era minha, mas que poderia ser minha (e tantas vezes já fora, de fato, tão minha). Impossível não se enxergar nesses momentos em que a alma de outro ser humano é tão transbordante que escapa pelas beiradas dos olhos úmidos ou agoniza no contorcer de lábios.

Nunca saberei ao certo a profundidade daquela melancolia, nem a causa dela (personificada que muito provavelmente era). Aliás, aposto que nem sequer sua fonte de desgosto, com nome e sobrenome, saberá que gravou marcas tão rudes no semblante daquela moça tão jovem, pode ser, inclusive, que ninguém nunca venha a saber.

Mas, talvez, naquele meu simples notar, num meio sorriso de quem confessa, um tanto constrangida, que compartilha da mesma (frágil) humanidade que a dela, o vazio da moça tenha sido, ao menos por um nano segundo, preenchido pelo segredo (nada secreto) que contamos uma à outra no olhar: no fim, qualquer que seja nossa história e realidade, nossa origem ou nosso nome, nossa estação de embarque ou de saída, somos todos humanos, tão humanos, tão igualmente suscetíveis e frágeis diante dos sentimentos e emoções com que a vida nos arrebata.

Nesse micro instante, ela soube que não estava tão só na sua vulnerabilidade.

Uma fagulha reacendeu em seu olhar.

Sobre a Autora:

Escritora e compositora paulista, formada em Direito pela USP, largou a profissão para se dedicar ao empreendedorismo e à arte. Desde pequena, tem na escrita e na música a expressão necessária de tudo aquilo que não consegue segurar dentro do peito. Escreve publicamente em sua página autoral Sentimentos Errantes (@sentimentoserrantes) desde 2016, além de ser colaboradora com seus textos em portais da internet. Na música, cantora e compositora com trabalhos lançados nas plataformas de streaming e conteúdo no seu instagram @marian.koshiba

Revisão: Hellen Heveny (Revisa Aê)

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