Dama das Dunas

Atualizado: Out 5

Ela era areia... Ela era o tempo, ela era o vento. Uma deusa perdida em sua humanidade, uma vagante do deserto. Lamentosa e entristecida era a sua alma... Em seu misterioso rosto, via-se uma expressão de profunda aflição. Ela era um ser errante, sabia disso. Os outros a amaldiçoavam, os homens e os mais-que-homens, aos olhos daquele mundo ela seria sempre uma alma penada, desgraçada e rejeitada aonde quer que fosse. Sua mãe a amara, mas seu pai a odiara desde o momento de seu nascimento, porque a sua concepção havia tirado a mulher que lhe dera à luz daquele mundo. Entre lágrimas e um sorriso cansado foi que a mãe se silenciou, e a fúria aquietada de seu homem, do pai, acendeu-se ali.

Todos os irmãos de Danúbia também a odiavam, com exceção de uma. A única que lhe amara fora a irmã bastarda, Anle. Mas a morte levara Anle de Danúbia, e assim ela perdera a única criatura viva que se importava consigo. Todos a viam como um monstro, porque nela havia a marca de um velho mal, um velho deus, o deus caído, sua marca era um símbolo negro que significava “morte”. Desde o momento em que nascera, Danúbia possuíra este símbolo e ao longo de sua vida ele crescera, tomando partes maiores de seu rosto. Era uma sombra em sua testa, que descia através do nariz e se espalhava para os olhos, cujos orbes tratavam-se de verdadeiras gemas douradas, uma coisa de beleza sobrenatural. Na soma de todos os detalhes, era Danúbia uma criatura assustadora, mas incrivelmente bela. Com o tempo, surgiram coisas em seu corpo, riscos escuros e desenhos sem significado algum. Ela era uma filha do deus caído, diziam os sacerdotes desde sua infância, e coisa boa isso não poderia ser. Decerto havia ruínas no sentido daquela vida.

Certa vez, um de seus irmãos lhe dissera:

— Você cheira a desgraça...

Danúbia chorou por conta disso e, na calada da noite, sua fúria galgou as escadas de sua mente. Ela desejou vingança, sim. Sonhou com o irmão, no sonho ela era poderosa e controlava um mar de serpentes. Danúbia fez com que as serpentes cercassem o irmão, sufocando-o num amontoado de figuras obscuras. Pela manhã, ela descobrira que uma serpente negra havia assassinado seu irmão, enforcando-o. Danúbia não disse nada sobre o sonho para ninguém, mas sabia que havia sido ela a verdadeira assassina do irmão.

Nenhuma criança se aproximava dela, nenhum membro da família desejava sua presença. Antes, todos a odiavam, mas também temiam. Temiam que a misteriosa manta de poder obscuro que envolvia a garota, pudesse destinar garras traiçoeiras contra eles. Os anciões lhes diziam para que não fizessem mal algum a Danúbia, caso contrário, um grande infortúnio poderia cair sobre o povo. Só os deuses saberiam o que uma criatura como ela poderia se tornar caso a morte lhe inspirasse grande revolta. Eles temiam pelo pior e, como tementes, tudo o que faziam era confinar Danúbia em sua amarga solidão.

Quando se tornou uma moça passou a chorar mais. Acontecia que entendera de todo entendimento, muito bem, a miséria que vivia. Não havia amor em sua vida, apenas rancor e temor. Foi então, que tomada por grande angústia, Danúbia decidiu ir-se embora. Levantou-se numa bela noite de sua cama, a lua cheia brilhava no céu e as estrelas povoavam a imensidão azul sobre o deserto. Danúbia caminhou para fora de seu quarto, depois caminhou para fora de sua cidade e então, continuou o seu caminho.

Alguns sacerdotes haviam observado sua fuga e muito contentes deram graças aos deuses. Um deles disse:

— Aí vai a filha da desgraça, que pereça nas sombras e não volte mais!

Danúbia sabia que eles haviam a observado e deduziu que haviam sentido grande apreço pela sua partida. De fato, ela sabia que estava certa. Caminhara pelo deserto por dias e por noites. Sem se alimentar, sem beber nada. Estava apenas caminhando para a morte, esperando que ela a convidasse para descansar o descanso eterno mais cedo ou mais tarde. Talvez encontrasse sua mãe... “Será que ela me odeia?”, se perguntou, e algo em si fez Danúbia ter uma certeza sobrenatural de que não, sua mãe não a odiava.

Agora, Danúbia se encontrava no meio de uma tempestade de areia. Ela era uma das faces da morte, em seu rosto havia a insígnia do fim. Ela era a areia, ela era o vento, ela era o tempo. E estava entre as dunas.

A tempestade de areia era bela, Danúbia pensava. Mesmo em tamanho caos havia alguma poesia.

Ela encontrou uma caverna e então se abrigou nela. Sentou-se lá e apenas abaixou a cabeça em silêncio, a morte logo viria lhe buscar.

“Por que?” era a pergunta que se fazia. Por que havia nascido, por que havia sido amaldiçoada? Seria ela uma existência maldita tal como era o deus caído? Diziam todos que era ele o seu verdadeiro pai. Seria isso verdade? Perto de sua morte, Danúbia agora estava sentindo ódio. Um ódio que ela jamais sentira, um ódio que havia se acumulado durante anos. Ela berrava de fúria agora, ela desejava ser uma desgraça verdadeira agora, apenas para sangrar aquele mundo maldito.

Os olhos de Danúbia se enegreceram, conservando apenas as gemas douradas no centro. As marcas em seu corpo começaram a ganhar vida, ligando-se umas às outras e então, Danúbia foi inteiramente coberta pelo escuro e apenas seus olhos brilhavam amarelos.

A criatura se levantou, caminhando de volta para a tormenta de areia. Abriu os braços e se misturou. De seu corpo começaram a sair areias negras, estas se misturavam a areia comum. Então a areia negra apossou-se da areia comum, e logo nascera uma colossal nuvem obscura, que se fundira na tempestade de areia, transformando-a em uma tormenta sombria. Era o caos negro, uma montanha das trevas em furiosa corrida.

A criatura que antes fora Danúbia, desabrochou no meio da monstruosidade, tornando-se uma com a tempestade. Dois pequenos sóis dourados surgiram em meio a escuridão, eram os olhos dela. Então, a desgraça tomou o deserto, devorando a vida nele. A montanha negra, a tempestade obscura, tomou a direção do antigo lar de sua alma, se apossou dele e fez os vivos que ali haviam berrarem aos deuses pedindo por salvação. A vida fora tirada deles assim como eles haviam tirado a vida de Danúbia, que agora não era mais uma mulher, mas uma criatura. Uma coisa abominável.

A fúria da criatura havia tomado quase todo o deserto e seu povo, restavam apenas alguns lugares em preservação. O pesadelo estava prestes a tocar a cidade de Barnabá, mas então, algo o fez conter seu movimento. Era uma sensação estranha para a criatura, mas familiar para Danúbia. Ela sabia o que era aquilo... uma coisa quente, mas não para queimar. Uma coisa forte, mas não bruta. Uma coisa bela, mas não vaidosa. Uma coisa grande, mas não assustadora. Ao menos era como Danúbia sentia a coisa...

Isso era, isso era...

Isso era amor?

Ela podia sentir, vinha de Barnabá. Então, encontrando os restos de sua consciência, ela viu-se guiada até um lar. Ali vivia uma família, todos estavam juntos, dizendo palavras para o deus Marza, um deus diferente dos outros deuses. Ele era oriundo de uma terra distante, Danúbia o conhecera por conta de Anle. Por alguma razão, aquela oração havia chegado até o coração de Danúbia. Foi então que ela viu uma garota entre os braços do homem e da mulher, nela havia a marca do deus caído.

E Danúbia podia ver... sua irmã bastarda. Anle estava atrás da família, abraçando-os. Eles não sabiam disso, mas ela estava ali. Havia também outras duas pessoas, uma mulher sorridente e um homem de cabelos vermelhos. Eles também não eram vistos pela família, mas Danúbia podia enxergá-los. A mulher era sua mãe, de alguma maneira Danúbia sabia. E o homem, ele era Marza, Danúbia estava em lágrimas, porque havia entendido o recado. Não havia desafeto entre aquela família, mesmo que a criança carregasse a marca do deus caído, eles claramente a amavam. Danúbia pôs os olhos na criança... uma borboleta fantasma cruzou seu caminho.

A borboleta era branca, feita de luz. Ela pousou no peito de Danúbia e ali ficou. Então, Danúbia ouviu a mãe da garota dizer para ela:

— Vai ficar tudo bem... querida.

E Danúbia aceitou sua rendição.

A criatura, a desgraça obscura, morreu naquele instante. A tempestade de areia negra se dispersou, transfigurando-se em um mar de borboletas brancas. Aos que olhavam de Barnabá, a visão mostrava uma montanha branca em constante movimento.

Era belo.



Sobre o Autor:

Lucas Henrique da Silva Paiva, que assina artisticamente como Lucas Eugênio em homenagem ao avô, é apaixonado por fantasia e ama criar estórias!

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