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Dentro do armário (nunca saberá)


Mulher indígena (Sônia Bone Guajajara) segurando a bandeira brasileira banhada em sangue indígena, tremulando ao vento.
Foto de Ketut Subiyanto (Pexels)

Diante da notícia de que eu terei mais um filho, muita gente tem perguntado se será menino ou menina. Bem, está cedo para sabermos, e tenho respondido com uma brincadeira com fundo de verdade: deixa ele crescer, que ele decide.

Algumas pessoas gostam da resposta, outras aplaudem, outras somente riem. Mas, o que me chamou a atenção é que houve quem questionasse: "quero saber se você vai dar essa abertura toda, mesmo, se ele chegar dizendo que é gay ou ela dizendo que é lésbica". E não foi só uma pessoa. Preciso dizer que é uma proposição besta? Talvez, por ignorância, talvez, por preconceito, mas, é, no mínimo, besta.

Pois, aí vai. Fui criado num ambiente em que preconceitos com relação à orientação sexual não têm vez. Sério mesmo. De tal modo que sempre tive toda liberdade do mundo para assumir para mim e para o mundo a minha orientação sexual. E isso nunca me fez homossexual, bissexual, transgênero, nem nada diferente do que eu sou. Pelo contrário. Sou um heterossexual desencanado, seguro de mim e de minha orientação sexual. Mas, sei que posso ser quem eu sou, independentemente de qualquer coisa, o que me faz muito feliz!

Isso me fez pensar em outra coisa: se eu tenho e sempre tive a liberdade de ser quem sou e de poder me assumir publicamente, com o apoio de minha família, e se isso me faz feliz, mesmo que não me mude em nada... bem, seguramente, uma família que tem a postura contrária tampouco muda a orientação sexual de seus filhos. Não evitam que eles se interessem por pessoas do mesmo gênero, por exemplo. Nem afetiva nem sexualmente! Mas, rouba-lhes a alegria de ser quem são. Rouba-lhes o orgulho de ter uma família que lhes ama e apoia, independentemente do rumo que tomarem quanto à questão de gênero. Pior: rouba-lhes a coragem de viver como lhes manda a sua natureza. É uma vida muito infeliz, disso não tenho dúvida.

Todo esse pensamento ainda me levou a uma outra conclusão: famílias que não se importam com a orientação sexual sabem da orientação dos seus filhos. Famílias que adotam qualquer comportamento homofóbico, qualquer atitude preconceituosa tendem a nunca saberem (e, por mais que seus filhos pareçam "Machos" e suas filhas "Mulheres femininas", jamais poderão ter certeza, em seus íntimos). Quando os filhos de famílias homofóbicas, por estímulos externos, resolvem ser quem são, encaram resistência e decepção em suas famílias, que, muitas vezes, terminam privando os filhos (e a si) até mesmo do convívio. Aí, o segredo fica super guardado. Temos visto bastante gente assumindo sua orientação sexual e de identidade de gênero. Mas, devido à intensa onda de agressividade anti-LGBTQIA+, não me espanta que o armário ainda esteja muito apertado.

Você, que bateria no filho ou expulsaria ele de casa, se ele fosse gay, sabe lá se ele já não é?

Nunca saberá!

Texto de 2015

 

Sobre o autor:

Ator e escritor pernambucano. Escreve desde a infância e entrou de cabeça no universo da literatura em 2009. Desafia-se regularmente a escrever nos diversos gêneros que lê avidamente. Idealizou o Literatura Errante, e tem batalhado para fazê-lo dar certo como um coletivo.

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Revisão: Tatiana Iegoroff

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