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Do canto das comunidades ao folheto: heroínas negras brasileiras pelo cordel de Jarid Arraes

Atualizado: 17 de mai. de 2021


Concebida e publicada pela escritora cearense Jarid Arraes, nascida e criada em Juazeiro do Norte, a série Heroínas negras do Brasil – da qual já fazem parte cerca de quinze cordéis – tem o propósito de resgatar a trajetória biográfica de mulheres negras que, desde o período colonial até a contemporaneidade, tiveram uma atuação considerada relevante na luta antirracista. A produção cordelística de Jarid constitui um dos diversos meios pelos quais se concretiza sua militância, voltada principalmente à luta feminista, antirracista e em prol dos direitos humanos, e se desdobra em séries que incluem cordéis de temática infantil (com títulos como As princesas africanas, A boneca preta de Juju e A bailarina gorda) e que abordam questões mais amplamente associadas ao gênero (Informação contra o machismo, A mulher que não queria ser mãe e Aborto, entre outros folhetos).

Registrar, em versos, acontecimentos de uma nação ou de um povo trata-se de uma necessidade que vem desde a antiguidade ocidental e oriental. Primeiramente pela oralidade com o canto das comunidades, preservado na memória dos poetas que cantavam tais registros versejados. Da tradição grega através dos rapsodos – poetas que cantavam versos com auxílio da lira – aos bardos e trovadores medievais, cujo primeiro registro ocorreu em cancioneiros manuscritos, evoluindo para o registro impresso com o advento da imprensa. No Brasil, aportam com as caravelas os impressos portugueses em versos e, em seu conteúdo, estórias de príncipes e princesas, reis e rainhas, aventuras e desventuras registradas nas famosas obras do romanceiro Ibérico. Essas obras correram do litoral ao sertão brasileiro, com mais força no Nordeste, receberam adaptações pelos poetas que moldaram uma literatura de cordel genuinamente brasileira. O cordel serviu como importante instrumento de comunicação e preservação da memória, a partir da transmissão das narrativas de fatos ocorridos em tempos de comunicação oral, numa sociedade predominantemente rural, isolada, analfabeta e sem meios de obter conhecimento ou informação para além de seu cotidiano.

A posição de escritora concede a Jarid Arraes a possibilidade de tratar as protagonistas de seus folhetos não como figuras histórias que precisam ser retratadas de forma rigorosa – tarefa que, considerando-se especificamente as figuras presentes em diversos de seus cordéis, seria efetivamente inviável, devido à escassez de documentação ou à absoluta carência de registros – mas como personagens literárias que podem ser construídas livremente, a partir de parâmetros estabelecidos pela intenção autoral. Em relação à caracterização das protagonistas dos cordéis de Jarid Arraes, é perceptível a ênfase em habilidades e competências que desafiam os parâmetros patriarcais. Não há, por exemplo, qualquer propensão descritivista que ressalte os atributos estéticos das “heroínas negras”, que em vez disso são valorizadas por sua capacidade de liderança, sua disposição para a resistência ou sua consciência política. Figuradas como mulheres combatentes, conscientes de sua posição política e dispostas a enfrentar as estruturas dominantes, as “heroínas negras” de Jarid Arraes escapam aos estereótipos produzidos pela trama historicamente consolidada de discursos opressores, oferecendo novas possibilidades de representação para a feminilidade negra.

No âmbito do chamado para a luta coletiva e ao reconhecimento da importância dessas “heroínas negras” para movimentos políticos contemporâneos, pode-se perceber, por exemplo, como Luíza Mahin é lembrada como uma figura de liderança, em constante articulação com levantes de sua época; ou o caso de Aqualtune, personagem que é inserida em uma luta coletiva, inspirando-se em negros escravizados que já se articulavam e uniam forças para resistir às estruturas opressoras. Em diversos momentos, Jarid Arraes enfatiza a importância das heroínas negras para movimentos políticos atuais, o que explicita a preocupação de construí-las literariamente como figuras representativas de uma luta que está longe de chegar ao término. Assim, Dandara dos Palmares é lembrada por seu significado para o feminismo negro contemporâneo, do mesmo modo, como Zeferina, Antonieta de Barros e Carolina Maria de Jesus são louvadas como figuras inspiradoras até os tempos atuais.

Jarid Arraes conta a história de mulheres negras que a literatura brasileira pouco contempla, utilizando o cordel como instrumento de divulgação da cultura afro-brasileira. A cordelista é porta-voz de tantas mulheres negras, por vezes esquecidas, trazendo para a literatura, nos versos de seus cordéis, a saga dos excluídos, dos (in)visíveis, tanto na questão de gênero quanto racial. Em um contexto tão adverso, as heroínas negras assumem uma importância ainda maior, na medida em que persistem como símbolos de uma resistência não apenas possível, mas sobretudo necessária – precisamente a fim de que possam surgir novas heroínas que perpetuem a luta pela construção de um mundo mais igualitário.


Referências Bibliográficas:

ARRAES, Jarid. Heroínas Negras Brasileiras: em 15 cordéis. Edt. Seguinte, 2020.

ARRAES, Jarid. Site: <www.jaridarraes.com> Acesso em 01 Mai. 2021.

BENJAMIN, Roberto Emerson Câmara. Breve Notícia de Antecedentes Franceses e Ingleses da Literatura de Cordel Nordestino. In: Tempo Universitário, v. 1, n. 1. Natal/RN: Editora Universitária, p. 171-188, 1980.

OLIVEIRA, Luma. Poetisas negras: gênero e etnias através dos versos. 2016. Disponível em: <http://blogueirasnegras.org/2013/04/05/poetisas-negras/ > Acesso em:01 Mai.. 2021.

SAMYN, Henrique Marques. Negritude e gênero no cordel: ensaio sobre as “heroínas negras” de Jarid Arraes. Macabéa – Revista Eletrônica do Netlli, Crato, v. 5, n. 2, p. 92-102, jul.-dez, 2016.

 

Sobre a Autora:

Aline Amorim é Recifense, aquariana, mãe e feminista. Graduada em Gastronomia, Pós-graduanda em História Social e Contemporânea, Pesquisadora da temática Relações de Gênero e o Mundo do Trabalho; Alimentação e Feminismo. Amante das Letras, é colunista da Literatura Errante trazendo a temática Mulheres e Literatura sob uma perspectiva Feminista.


 

Revisão: Carol Vieira




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