ECOS DE CIRTAN - Capítulo III – Amizades e já no início Inimizades

Os homens, elfos e anões viviam cada qual em seu território, não sabiam da existência um do outro. Mas, em certo tempo, foram se desenvolvendo e construíram as primeiras jangadas, depois barcos e os homens foram os primeiros a construírem navios, pois de fato os homens eram mais ávidos a conhecer novas terras, as desbravarem e as colonizarem, talvez por saberem que seu tempo seria curto neste mundo, ansiavam por conhecer e desbravarem novos lugares. Já os elfos nem tanto, pois, embora amassem desbravar a terra, não tinham pressa quanto a isso.

Os elfos viviam na cidade chamada Decáris, e três elfos eram seus Reis, cada um com sua gente, Micras, Nalon e Fuindilas. A cidade de Decáris ficava cada vez mais bela, os elfos se multiplicavam e mais trabalhos eram feitos, a cidade era perfeitamente construída com pedras, mármore e adornada com ouro, prata e gemas preciosas. Entretanto, foi construída harmoniosamente com a natureza, de modo que suas construções não rivalizassem com a natureza local. Dentre os príncipes, havia um de maior destaque, Bóron, filho de Micras, este era forte em tudo que fazia e grandes projetos ele liderava. Começou a viajar com sua tropa para buscar novos materiais, voltava sempre com algo novo e os usava em novos projetos que tinha sempre a admiração dos Reis e dos outros príncipes. Os elfos moravam em Decáris, mas nem todos, pois como o território era vasto. Alguns grupos foram fundando aldeias e vilas, alguns floresta adentro, outros nas encostas das montanhas, e ainda outros próximo aos mares e foi com estes que os homens primeiramente fizeram contato ao desembarcarem no território dos elfos.

Os homens navegavam sem rumo e em muitas terras haviam estado, até então não encontraram nada além de animais e feras, porém, agora era diferente. Os homens desembarcaram e surpreendentemente puderam se comunicar com os elfos, pois a língua falada pelas três raças era a mesma, não sendo essa língua concebida por nenhum deles, mas antes pelos seus criadores.

Embora estranho fosse aquele encontro, elfos e homens se tornaram amigos e os homens foram conduzidos até Decáris, para conhecerem os Reis elfos. Assim foi uma enorme delegação dos homens até Decaris, liderados por Inieval, enquanto Naeval, seu irmão, ficou com os navios e o restante dos homens juntos aos elfos do litoral. Chegando a Decáris, foram os homens conduzidos até os Reis, houve então muita conversa entre eles e ambas as raças estavam curiosas com seus novos amigos, desejosos de conhecerem mais a respeito um do outro e ensinar e aprender um com o outro.

Alguns dias ficaram Inieval e sua comitiva com os elfos e o início de uma grande amizade entre essas raças fora concebida nesses dias. Inieval partiu depois rumo à terra em que os homens habitavam, retornaria logo com uma grande gente a fim de povoar um território ali, próximo aos elfos. Mas disso não havia gostado nem um pouco Bóron, filho de Micras, pois enciumou-se com o apego de seu pai e dos outros Reis aos humanos.

Passados alguns anos, retornaram Inieval, Naeval e muita gente com eles e habitaram as planícies e florestas próximas à bifurcação dos rios, onde se podia caçar e pescar. Neste momento começou, todo tipo de interação entre elfos e homens, trocavam seus saberes, grandes amizades eram feitas e uma aliança foi firmada entre homens e elfos, isso desagradava cada vez mais a Bóron. Mas, em uma viagem em conjunto de homens e elfos para além de seus territórios, em montanhas longínquas nunca antes visitadas, os elfos e homens perceberam certa atividade dentro dessas montanhas e ponderaram se deviam ir investigar o que era.

Bóron então destacou alguns elfos que o seguiam e, subitamente, foi ver de perto antes que, em conjunto, tomassem decisão se deviam ir ou não, pois não desejava tomar conselho de algum homem. Tão súbita e impetuosa foi sua chegada, que os anões deram aquilo como um assalto e atacaram aqueles elfos com suas ferramentas e seus machados. A contenda se inflamou e os elfos que haviam ficado para trás correram em auxílio até que chegasse Iorgson, o líder dos humanos, com eles.

Muita perda dos dois lados havia ocorrido, então Iorgson, com seu cavalo, subiu em um morro e tocou sua trombeta, a luta parou para ver o que era aquilo. Iorgson, tendo a atenção de todos, falou: “Parem de lutar todos vocês, não somos inimigos, não viemos causar-lhes mal, desejo conversar com o líder de vocês, a sós e desarmado para provar nossa boa-fé”! Os anões responderam: “Não baixaremos nossas armas”! Então Iorgson respondeu: “Acaso posso eu chegar a vós desarmado para conversarmos sem que me ataquem”? Os anões temiam ser uma armadilha, mas Daico, líder dos anões, aceitou que viesse a eles somente Iorgson.

Então desceu Iorgson até os anões, e Bóron achou uma péssima ideia e exclamava: “por isso que os humanos vivem menos”! Mas Iorgson conseguiu explicar ao mestre anão o que ocorrera e que tudo não passava de um mal-entendido, a contenda se encerrou por ali e então se retiraram os humanos e os elfos e foram embora. Este incidente foi o início das desavenças entre elfos e anões.

Conforme acordado entre Iorgson e Daico, retornaram uma comitiva dos homens e dos elfos até a terra dos anões, a fim de se reunirem, deixar este incidente no passado e evitar que ele se estendesse. Muitos dizem até hoje que essa foi a primeira vez que se fez política no mundo. Depois dessa reunião, as três raças passaram a compartilhar de seus serviços e conhecimentos, fazendo comércio entre si. Mas Bóron ficava cada vez mais enraivecido, pois desejava vingar aqueles que morreram pelas mãos dos anões. E sempre quando encontrava anões, falava desdenhosamente deles e com chacota, pois desaprovava amizade com eles e os achavam indignos de terem amizade com os elfos, e dizia: “Já bastava termos tratos com os homens, agora temos que aturar essas suas cópias pequenas e feias”!

Ora o que Bóron, e mais ninguém, desconfiava é que um mal já estava à solta e oferecendo perigo a todas as raças. Vez em quando alguém que se aventurava muito longe, sumia e nunca mais voltava. Tomavam como se essa pessoa tivesse se perdido ou que tivesse achado outro lugar para morar, mas eis que agora pessoas, tanto dentre os homens quanto dos elfos, estavam sumindo, geralmente sem deixar rastros. Porém, agora acharam vestígios de sangue, como se essas pessoas tivessem sido atacadas.

Até que, certo dia, uma comitiva de caçadores por parte dos homens encontram feras nunca vistas antes, perambulando pelo território deles e então se puseram a caçá-las. Não foi nada fácil, pois eram terríveis, fortes e com enormes dentes. Até que, um dia, uma dessas criaturas atacou uma vila dos homens e depois de grande estrago foi morta, mas notaram que outras feras maiores espreitavam ao longe e, por isso, mudaram mais para o interior do país e mais próximos a outras aldeias. Os homens passaram a forjar novas armas e procuraram os anões para que os auxiliassem nisso.

Já na vila dos elfos que habitavam as florestas, o ataque foi mais ferrenho. Algumas feras despedaçaram aquela vila e a queimaram com seus fogos da garganta, poucos sobraram para levarem essa amarga notícia aos elfos de Decáris, eram algumas mulheres e crianças que fugiram assim que o ataque se iniciou, por isso mesmo conseguiram escapar. Deste modo, não sabiam informar quem ou que os havia atacado.

Bóron logo acusou os anões: “Foram os anões! Eu fui repreendido em querer vingança, mas eles estão agora se vingando, e deviam nós elfos sermos subjugados por aquelas criaturinhas”? E continuou: “Pai, deixa-me eu e meus homens irmos até os anões e vingar nossos irmãos”! Mas Micras respondeu: “Não, primeiro vamos ter certeza de quem fez isso, não vamos nos precipitar e incorrer em injustiça e em culpa de sangue inocente”! Mas Bóron ficou revoltado e saiu e nas ruas, falava palavras duras contra os anões e dizia: “Seremos nós sobrepujados pelos anões? Criaturas rebaixadas poderiam estar trazendo sofrimento a nós elfos da luz? Sinto que nossos líderes estão fracos e sucumbiram a amizade com humanos e anões, não precisamos deles! Eu sabia que essas amizades e alianças ruiria nossa superioridade, e fiquem avisados, desde o início falo isso, mas ninguém me dá ouvidos”!

Na verdade, muitos davam ouvidos a Bóron e agora mais do que nunca. Assim, depois destas duras palavras, mais gente se juntou a Bóron e então, sem consentimento de seu pai ou de qualquer outro líder, juntou a si vários elfos e armados investiram contra uma cidadela dos anões, realizando uma grande matança e pondo fogo em tudo, pois os anões mais fortes estavam todos nas cavernas trabalhando e cavando em busca de suas riquezas. Assim, quando voltaram, foi grande a tristeza ao verem aquela destruição e amaldiçoaram os elfos três vezes, juraram vingança, pegaram seus machados, marretas, espadas, lanças e marcharam até Decáris para executar sua vingança.

Ora os Reis elfos nada sabiam do ocorrido, assim, quando as forças dos anões começaram a se aproximar de Decáris, vieram notícias aos Reis sobre isso e com espanto ordenou-se montar as defesas da cidade e montar posição estratégica. Chegando os anões frente à cidade de Decáris, um batedor foi até os anões com uma mensagem do Rei Micras: “Nosso Rei está deveras surpreendido e pergunta com que causa vem com guerra até a morada dos elfos, não somos nós amigos e não firmamos uma aliança e um tratado de paz”? Mas Daico respondeu: “Diga a seu Rei, o grande mentiroso, que sua aliança e tratado se mostraram enganos de vossa parte desde o começo e agora a paz virou guerra e a aliança virou vingança pelos nossos irmãos que foram assassinados”!

O elfo então levou essa mensagem ao Rei Macris, que então não entendeu a resposta do anão e foi ele mesmo com dois elfos até o líder dos anões Daico, Bóron não queria deixar, mas Macris o colocou no seu devido lugar na frente de todos, o que o envergonhou e o enfureceu intimamente.

Chegando Macris até lá, parou a uma distância e um dos elfos foi até a horda dos anões e solicitou que Daico fosse até Macris para conversar, Daico foi com dois anões junto dele. A essa altura, Macris já estava com medo, pois temia que seu filho estivesse certo e um erro havia sido ter sido amigo de anões, mas conteve sua desconfiança. Macris então diz: “Salve Daico! Amigo, não entendo essa tua atitude beligerante, por que procura vingança”? Daico responde: “Um bando de elfos nojentos atacaram uma das cidades dos anões enquanto estávamos fora, dizimou famílias, pilhou e queimou, não pense que me ganharás com palavras, a guerra é inevitável”! Mas respondeu Macris: “Daico, deve haver algum engano, não ordenamos ataque nenhum, nós é que perdemos uma vila inteira e exatamente da mesma maneira como descreveu. Estamos investigando quem nos atacou, espero sinceramente que você e seus anões não tenham nada a ver com isso”! A que Daico responde: “Além de tudo me insultas, vocês elfos se acham superiores, mas nós anões não agimos dessa maneira, nunca faríamos uma barbaridade dessas, e estamos aqui para vingar esse grande mal feito aos meus irmãos, chega de conversa, hoje os machados dos anões lavará este chão com sangue élfico”! Macris então diz: “Não faça nenhuma tolice anão, vós não sabeis a grande confusão em que está se metendo”!

Daico deu meia volta e, retornando a seus homens, avistou que vinha um destacamento pela lateral, eram Homens e isso confundiu ambos os lados, os anões não entenderam, pois sua ira nada tinha a ver com os homens, e motivos para os homens ajudarem os elfos também não tinham, pois os homens eram amigos dos anões também. Já os elfos sorriam, pois imaginaram que os homens vieram ajudá-los, menos Bóron e sua gente, que não gostavam dos homens. Bóron então ainda pensava em meio à batalha atacar com seus associados os homens, se livrando das duas raças num dia só. Mas chegando à delegação dos homens mais próximo.

Iorgson e Inieval vão cada um de um lado para saber o que está ocorrendo, assim explicam que se trata de um mal-entendido e que o mesmo mal assolou os dois lados e que agora é hora de as alianças serem honradas, mais do que nunca, pois ameaças grandiosas apareceram a todos. Assim Inieval e Iorgson trouxeram alguns elfos e alguns anões até uma grande carroça que transportavam e nela havia a carcaça de uma grande fera, que mesmo morta instilava terror e medo. Iorgson contou como essa fera e ainda outras, semelhantes e até maiores, estavam se aproximando e aterrorizando as terras ao redor de seus reinos.

Tanto elfos como anões ficaram perplexos e não sabiam como reagir àquela situação, assim somente, os anões se puseram em retirada e nenhuma desculpa ou outras palavras foram ditas por nenhum dos povos em contenda. Embora essa situação tenha sido levada a cabo antes de culminar num conflito violento, a relação entre elfos e anões não foram restabelecidas. Isso porque havia algo ainda não resolvido, que se descoberto pelos anões a guerra não teria sido evitada, que foi o ataque de Bóron a cidadela dos anões. Mas adentrando a Decáris com a carcaça daquela fera e pondo-se junto aos Reis, debatendo o ocorrido, Iorgson e Inieval deram muitas informações sobre os ataques, assim, os Reis e outros elfos passaram a investigar mais a fundo e foi descoberto que Bóron e seus associados realizaram o ataque contra os anões.

Macris ficou decepcionado e chamou Bóron para conversar, mas ao invés deste se curvar e lamentar o que havia feito foi arrogante e insinuou que o fez por ser forte, que seu pai não faria o que ele fez porque é fraco. Desta forma, muito discutiu-se entre o conselho dos elfos à que tipo de punição Bóron devia responder e, depois de muito discutir, ficou resolvido que este devia ser despojado de suas atribuições e ir trabalhar nos campos junto aos outros elfos de uma estirpe mais baixa que realizavam os trabalhos agrícolas. Nunca mais poderia ser ele armado novamente, senão por ordem do Rei Macris.

Mas antes de comparecer frente ao conselho para receber seu veredito, juntou todos os que pensavam como ele e levou consigo uma grande hoste de elfos que o seguiram para o exílio. Assim, o conselho élfico entendeu que esse também era um desfecho aceitável e que, tanto Bóron como os que o seguiram, não seriam caçados, nem trazidos à força de volta, mas também estavam a partir de então proibidos de retornar a Decáris.

Sobre o Autor:

Brasileiro, taubateano e descendente de italianos, Igor Demerval David (I. D. D. David) é formado em administração de empresas e graduando em educação física, servidor publico municipal, e praticante de karatê, apaixonado por literatura contextualizada em ambientes medievais ou análogos, principalmente as obras de J. R. R. Tolkien.

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