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Ernest Miller Hemingway - Crônica de uma morte anunciada: Adeus às armas


Foto da Praia das Goiabeiras

"É uma resposta aos que chamam ao suicídio um fim de cobardes e de fracos, quando são unicamente os fortes que se matam! Sabem lá esses pseudo-fortes o que é preciso de coragem para friamente, simplesmente, dizer um adeus à vida, à vida que é um instinto de todos nós, à vida tão amada e desejada a despeito de tudo, embora esta vida seja apenas um pântano infecto e imundo!" (Florbela Espanca).

Ketchum, Condado de Blaine, estado de Idaho, EUA, 2 de julho de 1961

Bolas! Nesta última meia hora nada mais fiz que relembrar e remoer meu passado, Seis décadas inteiras de impotência, neuroses, alcoolismo e depressão. Já não consigo raciocinar direito, nem lembrar bem de como se datilografa um escrito, um rabisco que seja nessa velha Smith-Corona, que há anos me acompanha encimando os atris que ela bem quis e descansou.

Eis que, por um momento, achega-se à minha mente a lembrança da madrugada na qual o velho amigo-irmão Scott Fitzgerald, ido há pelo menos vinte anos, disse-me em uma carraspana memorável, que para cada novo livro alçado à luz um escritor deve necessariamente encantar-se por uma nova mulher. E rio por dentro ao ter afirmado a ele e a outros da minha estirpe, que não me apaixono, mas, sim, caso-me! Sim, caso-me como mal completados 20 anos e já servindo à Primeira Guerra Mundial como motorista de uma ambulância da Cruz Vermelha, decidi por me casar com a bela Elizabeth Hadley Richardson, com quem tive um filho. Foi por influência dela e da enfermeira Agnes Von Kurowsky, que me atendeu após um bombardeio do qual me restaram centenas de estilhaços de uma bomba que explodira próximo ao local onde eram resgatados alguns soldados americanos, que dediquei às duas, em 1929, Adeus às armas.

Mas a Guerra de 1918 chegou ao fim e o Condado de Oak Park, onde nasci, ficou muito monótono para um homem grande e robusto como eu, 1 metro e 96 centímetros de altura mais 118 quilos de peso. Era demasiado curto escrever para o pequeno jornal de meu torrão natal. Precisava, urgente, conhecer novos horizontes, novas plagas, outros tantos arrabaldes.

Sem pensar duas vezes, mudei-me com Elizabeth e o menino Jack para a doce Paris, que sempre foi e eternamente será uma festa. Fui empregado como correspondente da revista canadense Toronto Star Weekly. Não fosse essa mudança, nunca teria conhecido vates do porte de Ezra Pond, Sherwod Anderson, Waldo Pierce, John dos Passos, T.S. Eliot, James Joyce e Gertrude Stein, com os quais dividi penas, tintas, papéis, noites-madrugadas-manhãs e Absintos na “Geração Perdida” dos Loucos anos 1920, encastelados no inesquecível Café-Livraria Shakespeare and Company da Rue de Ledeon, número 12.

Droga! Já lá se vão quinze minutos e eu neste polimento monótono e cansativo!

Entretanto, o tempo passou e como todos os grupos de pensadores nos afastamos. Cartas eram relíquias trocadas com frequência britânica. Alívio às dores d'alma que SEMPRE amotinaram-me o cérebro.

Em Paris, meu primeiro casamento se foi, quando apaixonei-me pela jornalista Pauline Marie Pfeiffer, que converteu a Catolicismo, com quem casei em maio de 1927 e tive dois filhos.

Amante que sempre fui de esportes, na década de 1930 parti rumo a uma pescaria de Marlins nos mares cubanos de Fidel Castro e sua Revolução Socialista. Minha paixão pela ilha se deu à primeira vista, onde passei a a residir no Hotel Ambos Mundos, localizado na Vieja Havana, onde eu passei as próximas duas décadas em intenso combate aos meus transtornos mentais e depressões profundas.

Na ilha de Fidel e Guevara dos anos 1930, duas arrebatadoras paixões poriam fim ao já combalido casamento com Pauline. Primeiro, foi o affair com Jane Mason, que era casada, mas não mediu esforços para estar em minha cama. Em 1936, contumaz apreciador de mulheres destemidas que sempre fui, surgiu-me às já velhas e cansadas retinas a figura destemida de Martha Gellhorn, jornalista correspondente de guerra que, de passagem por Cuba, partiria para a Espanha em busca da cobertura da Guerra Civil daquele país. Com meu coração livre e um novo romance que inspiraria e traria à luz Por quem os sinos dobram, de 1940, parti às terras dos loucos moinhos de Cervantes como jornalista do North American Newspaper Alliance e, claro, nos braços de Martha.

E toda a Segunda Guerra passei entre bombardeios e gozos ao lado de minha terceira esposa. Foram duros aqueles anos de chumbo, recessão e milhões de mortes. 1946 chegou e com ele a Paz aparente. Cuba, como as touradas espanholas, já não me agradava mais. Precisava voltar ao meu ninho norte-americano, mais precisamente à cidade de Ketchun, no condado de Blaine, estado de Idaho. Martha e eu havíamos decidido por não mais dividir vidas, o que mais uma vez me levou a uma profunda tristeza de viver e ao alcoolismo exacerbado.

Droga de polimento bolorento!

Porém, entre minhas andanças por revistas e jornais, encontrei a frágil e tímida jornalista Mary Welsh, um oposto completo das mulheres arrebatadoras que haviam passado por minha nada monótona vida. O diabetes, alcoolismo, depressão e a maldita hemocromatose se aliavam à minha perda de memória intercalada por rompantes de lucidez à trazerem-me à lembrança a personalidade dominadora de minha mãe Grace, que sempre insistiu em me recordar do fim trágico que meu pai havia posto à sua vida terrena.

Lá se vão cinte e cinco minutos de uma apavorante solidão, dos quais sei que não sairei ileso. A mente alucinada à moda dos exaustivos monólogos interiores de Willian Faulkner, em seu Palmeiras selvagens, tão repleto de jogos de tempos e falas delirantes de um narrador onisciente atormentado por situações e diálogos absurdos e ásperos.

Vez por outra falo comigo mesmo e com meus pares já idos. Atormenta-me a imagem da orelha de Van Gogh e sua quintessência de gênio incompreendido, onde a loucura e criatividade dos discursos de suas tintas e pinceis me conduzem ao nada absoluto e à ausência total de qualquer positividade ou esperança.

É 2 de julho de 1961 e a manhã se anuncia aos sons de pássaros que teimam em piar em louvor ao novo arrebol que desponta amarelado. À beira dos meus sessenta e dois anos, sinto-me cansado! Já não consigo desferir dedos à minha velha máquina de escrever, culpa das dores supremas provenientes de articulações e nervos sacrificados. Escrever em pé, à maneira que sempre gostei, é hábito quase não mais exercido. E isso dói como doem as faltas dos amores partidos...idos!

Mary dorme. Já não há mais Amor de mim para com ela. Como também já não há mais Amor pelo Pulitzer de Ficção de 1953, nem pelo Nobel de Literatura de 1954. Nada mais vale a pena! Filhos distantes, cada um cuidando de suas próprias existências. De mim, seu pai, por certo somente vagas lembranças amarelecidas em velhos papeis de carta.

É manhã feita. O tempo se arrasta agourento feito um corvo de Poe. Ponho fim ao polir e azeitar meu velho rifle de caça. Um calibre 12 da Abercrombie & Fitch de minha tão grande estima. Lembrança de caçadas indeléveis África Mundo afora.

Com licença. É hora de ir!

Partir aos braços de Morfeu e ao reencontro dos amigos e amigas que se foram antes de mim.

E Hemingway não quis...

 

Sobre o Autor:

Túlio Monteiro – Escritor, biógrafo, historiador e crítico literário. Graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Grau de Especialização em Literatura e Investigação Literária, também pela Universidade Federal do Ceará – UFC, com a monografia: Intertextualidade e Fluxo da Consciência na Obra de Graciliano Ramos.

Membro efetivo da Academia Internacional de Literatura Brasileira - AILB - Cadeira de número 246 - Com sede em Nova York - Estados Unidos da América.

Autor dos livros

Agosto em Plenilúnio – Poesias – 1995 – Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará.

Lopes Filho e a Padaria Espiritual – 2000 – Biografia – Coleção Terra Bárbara – Edições Demócrito Rocha – Jornal O Povo.

Sinhá D'Amora, Primeira-Dama das Artes Plásticas do Brasil – Biografia – 2002 – Coleção Terra Bárbara – Edições Demócrito Rocha – Jornal O Povo.

Antologia de Contos Cearenses – 2004 – Organizador – Coleção Terra da Luz – Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará – UFC, em parceria com a Fundação de Esportes, Cultura e Turismo de Fortaleza – FUNCET – Prefeitura Municipal de Fortaleza – Ceará.

Dois dedos de prosa com Graciliano Ramos – Contos – 2006 – Coleção Literatura Hoje – Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará – UFC.

Sonhos e Vitórias - A História de João Gonçalves Primo – Biografia – 2007 – Em parceria com o Poeta, Escritor, Historiador e Biógrafo Juarez Leitão – Premius Editora.

Cajueiro Botador – Infanto-Juvenil – 2008 – Coleção Paic – Secretaria de Educação do do Estado do Ceará – SEDUC – Governo do Estado do Ceará.

Assessoria Técnica do Texto Original

24º Cine Ceará – Prêmio de Melhor Produção Cearense para o curta-metragem "Joaquim Bralhador", adaptação do conto do livro "Joaquinho Gato", do escritor Juarez Barroso – Dirigido pelo cineasta Márcio Câmara – 2014.

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