Erudito Versus Popular

Essa disputa sempre rondou minha vida como artista. É... Às vezes esqueço-me de afirmar-me como artista. Eu sou e ponto. Então... Como artista da música, eu naveguei com um pé em cada canoa: a canoa erudita e a canoa popular. Como intérprete de violão clássico, jamais me estabeleceria financeiramente da maneira que queria. Morava em cidade pequena, longe dos grandes centros culturais, lá nos anos oitenta. Internet? Só em ficção científica. Bom. Por isso eu tocava violão clássico, guitarra, viola caipira, dava aulas e tudo que aparecia. Engraçado que vivi uma época onde as crianças ganhavam violão de presente no natal e em janeiro vinham até minha casa para aprender e isso era bom. Mas tenho amigos que optaram apenas pelo ensino do erudito e diminuíram muito sua amplitude de trabalho. E sofreram com as dificuldades que apareciam. Por que optei navegar nos dois oceanos distintos? Primeiro por que um alimenta o outro. Eu deveria escrever umas cinquenta páginas explicando tudo, mas não é nem artigo acadêmico, nem livro. Vou tentar resumir...

Como eu queria viver de música, não importava o tipo de trabalho. Eu queria tocar, ensinar, viver com o violão ou a guitarra no colo. O resto é bobagem. O resto é rótulo que a indústria fonográfica criou para facilitar a venda. A música é uma coisa só. O século XX que estragou tudo. Recomendo a leitura do livro “Maestros, obras-primas e loucura – a vida secreta e a morte vergonhosa da indústria da música clássica” de Norman Lebrecht. O livro trata especificamente da indústria da música clássica, mas dá para fazer ligações com o que quero discutir.

Vamos pensar lá em 1877, quando o Thomas Edison inventou o fonógrafo (aqui também precisaria de mais 50 páginas para explicar tudo... Resuminho sendo necessário). Então está. Inventaram um aparelho que grava sons. Como vamos ganhar dinheiro com isso? Alguém deve ter pensado: vamos gravar música. Por que até então a música só acontecia ao vivo. Só existia durante a execução do artista ao piano, ao violino, ao violão. Foi um momento magnifico. Música agora poderia ser levada consigo a qualquer lugar. Então Thomas Edison cria a Edson Records e começa a comercializar música. Virou produto, precisa de rótulo e por aí vai.

Acho que já dá para começar a falar sobre a minha tese. A disputa entre o Erudito e o Popular.

Nunca fiz distinção. Para começar tenho que deixar isso bem claro.

Sempre adorei tanto Bach e Villa-Lobos quanto Dilermando Reis e Canhoto. Música boa de qualidade não importa a origem. E tenho que lembrar que muitos temas “eruditos” são coisas que compositores colheram com músicos ciganos, etc.

E na literatura? Como o Guto faz?

A mesma coisa. Não acredito que só o cânone serve ou presta. Leio de tudo. Gosto de passear nos lugares que ninguém anda. Ermos, escuros. Subterrâneos, escondidos. É ali que a coisa acontece. Imagina se a gente só lesse tomos que passam por crivos acadêmicos. Apenas músicas de compositores com títulos de doutores em música. Não é assim que acontece. A arte nasce em qualquer lugar, em qualquer tempo. Nada impede da arte acontecer. Veja a pintura rupestre e ou os instrumentos encontrados em cemitérios descobertos em sítios arqueológicos. A arte, a expressão é intrínseca ao humano. O resto é rótulo para a prateleira das lojas. Ou você vai me dizer que o samba surgiu nos cantões acadêmicos, nas bibliotecas? Hum... Não surgiu, né?

E é isso. Como sempre apenas a minha irrelevante opinião.

Deixando claro que a erudição me importa muito para explicar de onde viemos e apontar possíveis caminhos. Mas ela, se não se manifestar, não impedirá a arte de subverter a terra arrasada. Ela vem depois. Para organizar e refletir a explosão da arte contida em cada humano.

Comente, por favor. Converse comigo.

Senão da próxima vez escrevo as cem páginas que deixei de lado.

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