Garçom, por favor, mais uma dose de noite

O Bar da Madalena estava lotado, então o balcão foi o destino de Letícia; como era o seu terceiro sábado, a vergonha de entrar sozinha foi menor. Entre um cruzar de pernas (então tatuadas pela meia-calça arrastão) e um gole e outro do drink, por cima do ombro esquerdo ela enxerga, na sua diagonal, um par de olhos de lince.

O magnetismo entre os dois foi agitação marítima e, ao som de Elis e Adoniran de tanto leva ‘frechada’ do teu olhar, o homem, em passo assertivo, vai até Letícia e dispara:

— Oi… Eu acho que a conheço de algum lugar. Posso lhe fazer companhia e descobrir este mistério?

— Acho que não nos conhecemos... Eu lembraria. E a propósito, qual o seu nome?

— Jean. Prazer.

— Prazer. Letícia.

Os dois conversam. Bebem. Gargalham. Jean pergunta se a vida não é mais do que trabalhar para pagar as contas. Letícia concorda. Sim, nunca se sabe o dia de amanhã, mas infelizmente o dinheiro está envolvido em tudo; é o sistema. O sistema. Discutem profundamente sobre o assunto, um ao ouvido do outro; sobre as correntes que prendem as pessoas ao capitalismo e isso entre uma mão num pescoço aqui, outra numa perna lá; ah e claro, os papéis aos quais todos se submetem voluntariamente. Um verdadeiro teatro esse mundo, ele fala; ah, mas não hoje, baby — lança Letícia — e lóbulos são mordiscados. Decidem continuar a conversa em outro lugar. Eles não sabem onde estão, mas reconhecem que há uma cama. Letícia surpreende-se com o físico de Jean; nossa, a caça desta noite está melhor do que a da semana passada, pensa, formigada da cabeça aos pés. E vive a sua noite até a exaustão.

Ela abre um olho. Ai, todo o frenesi da noite virou um daqueles contêineres da transportadora sobre a minha cabeça, diz a si mesma. Enxerga a parte da cortina em tom pastel. Olha mais perto e, no bidê ao lado, um livro de não ficção, primeiro lugar da lista dos mais vendidos. Uma pança sorridente entra pela porta do quarto com uma xícara de café forte e diz:

— Beba, querida. Precisamos pegar as crianças na casa da sua mãe.

— Ronaldo, por Deus, não bastam apenas os sábados.

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