Joaquim, Filho do Trovão

A vela e a choupana bruxuleavam no vento intenso que prenunciava a tempestade prestes a desabar no solo seco.

Luzia rezava como nunca havia feito antes e parecia-lhe que as orações não conseguiam subir e, tampouco, adentrar o céu escuro e denso.

Na pequena rede, o filho recém-nascido tiritava de frio e febre, embora estivesse bem agasalhado. Uma diarreia, dessas que leva muito curumim para o céu, o acometera com poucos dias de vida.

Nascera prematuro e, embora de forma muito fraca, prodigiosamente conseguia sugar algum leite dos seios generosos de sua mãe sertaneja.

Os profetas haviam dito que o rio chegaria em breve. Para eles, isso não tardaria porque moravam em um ipu onde as águas tomavam seu primeiro volume após descerem velozes da serra.

A descida do rio era ocasião de tristeza ou de alegria, conforme a prudência dos seres humanos. Eram comuns os relatos de casas construídas no leito e tragadas pelas águas que desciam com força violenta da Serra das Matas. Nem sempre as pessoas calculavam com precisão o que era margem e o que era leito.

A chuva começou a cair suave e fina, tomando, paulatinamente, um volume forte que, graças ao bom trançado das palhas de carnaúba, chegava ao interior da cabana como respingos de uma garoa.

Ao longe, Luzia ouviu um som semelhante ao do tropel de cavalos descendo o vale. Era o Acaraú, descendo a galope e recebendo a aclamação das buzinas de búzio, tocadas pelos canoeiros ao longo das margens.

Não havia mais jeito: ou ficariam ilhados ou seriam arrastados pelas águas. Tinha uma forte intuição de que não seriam condenados à morte pelo velho Acaraú.

As águas umedeceram o chão da choupana e acomodaram-se no leito que rodeava a ilha de areia: estavam ilhados e vivos.

Na rede, o pequeno Joaquim sorria cada vez que os respingos lhe tocavam o rosto. “O que seria isso? Uma carícia dos anjos?”. Sentiu-se tão bem que ficou lânguido, em um êxtase no qual pulsos e respiração assemelharam-se a sibilos e sussurros. “Iria compor o coro angélico dos outros anjinhos que a mãe entregara a Deus?”.

Percebendo que o menino amolecera, num impulso, Luzia tomou-o nos braços e choveu sobre ele as lágrimas bentas com as quais umedeceu os dedos para traçar o sinal da cruz em sua fronte, pronunciando a fórmula do batismo: não havia ali tempo e forma de chamar um padre.

— Eu te batizo, Joaquim Boanerges, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Como o menino não retomou a consciência, Luzia o elevou, olhou para o céu escondido atrás do véu do teto de carnaúba e orou com a profunda beleza dos simples:

— Se o Senhor quer o menino de volta, leve. Mas se quer que eu crie ele, cure.

A resposta veio na calmaria súbita que se fez e nos raios de sol que passaram pelas frestas do telhado, iluminando o rosto do menino que abriu os olhos e sorriu, consolando o coração da mãe.

Deus quis a existência de Joaquim Boanerges Barbosa, pai de gerações e gerações de outros que ocuparam aquela ribeira.

Sobre o Autor:

Leandro Costa é poeta e contista da Terra dos Verdes Abutres da Colina: Santana do Acaraú, no Ceará, terra de onde tira inspiração para a escrita. Seus versos e contos são marcados por metáforas, simbolismos, memórias e descrição psicológica de seus personagens.

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