Literatura Fastfood

Atualizado: Fev 25


Então...

Até pintou no fim de semana um assunto diferente, mas como havia prometido vou retomar minha opinião sobre a literatura fastfood ou esse fenômeno literário atlético.

Pegue sua dose de bebida favorita e me acompanhe.

Há muito tempo, quando a internet era mato (aqui no Brasil pelo menos), era comum um ou outro aluno vir até a minha casa e me mostrar um CD de dados com a discografia completa de uma banda preferida dele. Lembro-me da alegria de um que havia baixado todos os discos do Deep Purple. E que estava quase baixando a do Led, faltava pouco, o Emule não ajudava. Vocês conhecem esses termos? CD de dados? Emule? Não importa, continuemos.

Eu sempre perguntava: Você baixou, ok! Mas já ouviu todas as músicas? Geralmente a resposta era: Não.

Suspirava e dizia: Não adianta nada você baixar e não ouvir. Você só possui o arquivo, não experimentou. Que adianta?

Minha sina era convencer os alunos que deveriam ouvir mais e talvez ouvir o mesmo disco duas dúzias de vezes no mínimo. Perceber as diferentes nuances; sons criados a partir das texturas; notar a intenção das notas do solo de guitarra; traduzir as letras; ouvir com mais pessoas para analisar o efeito em cada um. Tentar aprender a tocar “de ouvido”.

Sim. Mas que isso tem a ver com a literatura?

Nada ou tudo depende do ponto de vista.

O que noto a semelhança é no consumismo puro. O prazer em falar que tem a discografia. A efêmera sensação de prazer em dizer que tem. Mas a perene emoção da vivência fica onde?

Sinto isso quando vejo pessoas dizendo que leram 150 livros por ano. Será que o prazer está em competir? Em dizer que leu um monte de livros? Mas e o livro de cabeceira? O livro que você leva para a vida? O livro que despertou conversas sem fim com amigos que também o leram? Aquela sensação de imersão que a literatura e a música lhe dão? Ou tudo se resume a ter e, no fim, só contabilizar os números? Que adianta estar sentado no mais alto monte e não ter ninguém para compartilhar as experiências?

Acho que estou ficando velho e olhando o mundo de outra forma. Mas será que não precisamos desacelerar um pouco e degustar mais as pequenas experiências diárias?

Não imagino qual a sua expectativa com o tema. Talvez tenha pensado que eu falaria dos padrões repetidos nas histórias, ou da linguagem usada, a falta de ousadia. Mas tudo isso também está relacionado ao consumo desvairado.

A cultura pop está em crise.

Eu acho...

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