Meu pé de Memórias Póstumas de Menino Maluquinho


Ler Machado de Assis antes de Ruth Rocha. Essa é a lógica da escola. Eu, por sorte do destino, conheci primeiro Marcelo e depois Brás Cubas. Por esse motivo, cativo uma paixão pelos dois, mas quem conheceu Brás Cubas primeiro consegue ter a força de odiar os dois e os outros que lhes antecederam ou sucederam.

Infelizmente as nossas casas não são espaços letrados, por vários motivos que não cabem elencar no momento. Mas eu vivia cercado de livros, não pela casa nem pela escola, mas pela biblioteca. Era uma aventura fuçar revistas, jornais e livros para fazer um trabalho de escola. Saía de casa cedo montado na bicicleta e descia a avenida Antônio Paulino até curvar na travessa Expedicionário C. Meira, seguir o chão ladrilhado da pracinha até a Biblioteca Municipal de Montanha.

Manhãs procurando respostas de perguntas da escola em papeis amarelados e folhas lisas de revistas, segurando as risadas ao olhar da bibliotecária e copiando informações.

Ver aquelas prateleiras lotadas de histórias me manteve em contato com um mundo que nem na escola eu via, mesmo tendo um cantinho de leitura no fundo da sala com finas lombadas de contos de fadas.

Li Ruth Rocha por causa de um trabalho de escola ainda na primeira série e na terceira já escrevia as minhas próprias histórias. Hoje em dia leio livros em uma tarde. Primeira tentativa de ler Vidas Secas foi totalmente frustrada. Dois anos de leituras depois, em uma tarde devorei o universo sertanejo de Graciliano Ramos.

Talvez se tivesse conhecido Fabiano antes do Menino Maluquinho também odiasse os dois. Talvez não tivesse quase duzentos livros na minha casa hoje, sem contar os e-books nos aplicativos.

A leitura é, antes de tudo, um hábito. Conviver com livros, mesmo sem lê-los no início, fez toda a diferença para mim e creio que para muitas outras pessoas. Nunca li um título por obrigação. Antes me apaixonei pela capa, pelo cheiro, pelo nome, pela mulher da foto da orelha. Depois abri e mergulhei em mil mundos.

Certeza que não amaria Julia Lopes de Almeida hoje se antes não tivesse Eva Furnari em minha vida. O dia em que me identifiquei com Felpo Filva, Menino Maluquinho, Marcelo, Flicts fez toda a diferença. Percebi que não estava sozinho, meus companheiros estavam nas páginas dos livros.

Fico preocupado ao ver que a coleção vagalume não é mais uma realidade para as crianças. A Turma da Mônica é apenas um desenho da TV. Tudo se rendeu à passividade audiovisual e não incentivamos mais os livros e contações de histórias. Jovens lendo obras puramente estrangeiras e relegando narrativas canarinhas. Não aponto culpados, pois não há em específico. E não julgo a TV e a literatura internacional. Mas será que nesse meio não tem um espaço para a Literatura Brasileira?

Sobre o Autor:

Capixaba natural de Ecoporanga, atualmente residindo em Feira de Santana-BA; estudante de Pedagogia, escreve desde criança. Apaixonado por café, criança, história, arte e cultura brasileira. A Arte de Viver foi sua primeira novela publicada, além da coletânea Contos Oh! Ríveis, de humor, estando presente em coletâneas de contos e poemas do Projeto Apparere e contos disponibilizados na Amazon.

O gênero policial vem sendo seu novo foco na escrita, explorando a temática familiar, um prato cheio para discutir as relações da sociedade e refletir sobre as atitudes passionais.

Revisão: Carol Vieira


#DiaDaLiteraturaBrasileira (01 de maio)

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