Não sentia que pertencia àquele lugar

Não sentia que pertencia àquele lugar. O ar que respirava não era mais como o de dez anos atrás. As ladeiras, que desde menino, com suor no rosto, subia, tinham perdido toda sua poesia, não eram mais as minhas ladeiras, não me pertenciam mais. As ruas, as ladeiras, as praças, já mórbidas, sem graça, gritavam para que eu fosse embora logo daquele lugar. E quanto mais eu pensava se deveria ir, mais o medo recobria meus pensamentos. Os momentos que, criança, passei naquele lugar, as bolas chutadas nos portões, os furos dos espinhos, a correr de pés descalços, os beijos roubados nas noites vividas nas calçadas. Essas lembranças vinham bagunçar mais e mais a minha cabeça. Eu era um estranho no ninho, um pássaro sem asa, preso em uma gaiola invisível, preso em tais lembranças, era o medo de deixar o antigo e o novo ir tentar.

Como falaria para minha mãe? Hein, como? Como iria conseguir dizer que não aguentava mais estar acordando em teu ninho, que não conseguia ir mais à mesa e tomar seu café com o mesmo rosto que ia às outras vezes, como? Como poderia dizer que as benças, os xeros em minha cabeça, os cafunés deitado em seu colo, já haviam perdido todo o sentido de conforto. Hein? Diga-me, como um filho pode dizer isso a uma mãe? Como conseguiria dizer que o almoço já não tinha mais o sabor, que a cama onde dormia não me confortava mais, estava dura e o travesseiro rodeado de espinhos da dúvida. Como diria?

Minha mente não era mais a mesma, meu corpo não tinha mais a cor de antes, os almoços de domingo reviravam meu estômago, os cafés da tarde queimavam meu intestino. Isso era o medo que sentia. Eu não sabia se deveria partir, mas se partisse, para onde eu iria? O que deveria levar nas algibeiras da minha mente?

O que eu falaria para minha namorada? Hein, o que eu poderia falar? Falar que mesmo eu amando-a como um amante deve amar, estava prestes a partir, ir aventurar-me em outras terras, procurar novos horizontes, e que mesmo que meu coração estivesse com ela, minha mente, meu corpo sentiam a necessidade de conhecer lugares distantes. Como dizer isso para a pessoa que você ama? Convidá-la a ir comigo? Não! Não podia impor essa opção a ela, viver em lugares sinuosos, caminhar na solidão das BRs, conhecer a desumanização do homem, trancafiado em empregos fúteis, com a dignidade roubada, trabalhando por um pedaço de pão. Não! Não! Não podia ousar propor essa jornada, nem sequer impor que ela esperasse a minha volta. Pois esse caminho que devia seguir era meu e só meu, e voltas não existiriam. Como deveria agir? O que ela sentiria? Será que me expulsaria, bateria em minha cara, acharia que tenho outra, me maltrataria pros outros, ou só mesmo choraria e nunca mais iria querer ouvir falar de mim? Enfim, o que será de mim sem ela?

Era tantas probabilidades que poderiam acontecer que não sabia o que fazer. Acendia um cigarro e não fumava, de preocupação, ficava ali, parado, só observando as cinzas tomarem o lugar dele e ele partindo para outro caminho. Ele, o cigarro, mas eu não! Eu ficava ali, esperando alguma resposta divina ou algo do tipo, que me fizesse parar, pensar, algo que me desse alguma resposta válida para que eu ficasse ali ou partisse de uma vez. Mas não acontecia nada. Eu estava sozinho, largado entre meus pensamentos, nos meus velhos tormentos, sem saber se deveria ir.

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor. Escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região, preservando espaços de cultura de resistência.

 
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