O conto da água

Duas raças dominantes não podem coexistir, Dione é a prova disso.

Dione.

Bela, curiosa e ingênua Dione.

Lembro-me claramente do fatídico dia em que ela foi pega. Cada gota de mim doeu com o desespero, mas eu nada podia fazer, há coisas nas quais eu não posso interferir.

Sou tão antiga quanto qualquer forma de vida, quando não havia nada além do vazio, nada além das sombras, eu estava aqui. A mim foi dado o presente de conceber a primeira forma de vida existente e vê-la se multiplicar. Eu testemunhei cada evolução, cada nova criação que surgia, e também tive a oportunidade de criar.

Antes dos homens meu povo já existia, quando a primeira centelha da humanidade surgiu, eu almejei uma relação de amizade entre ambas as espécies. Mesmo em toda minha grandiosidade, eu fui ingênua. De início ambos os povos coexistiam numa relação de cooperação, porém, quando a sede por poder e dominância, surgiu nos homens, eu vi sua verdadeira essência, e os odiei.

Mas ainda havia aqueles que acreditavam na bondade deles, aqueles que não conheciam a dor, nem a crueldade. Minha querida Dione, sempre tão gentil. Ainda me lembro dos seus olhos curiosos passeando pelos cascos dos grandes navios, que começavam a se tornar constantes em mim. Lembro de suas perguntas constantes a suas irmãs. Ela queria saber mais sobre o povo da superfície, mas nunca recebeu nada além de um olhar de repreensão, afinal após as primeiras embarcações chegarem às águas quentes daquelas terras, corrompendo uma das poucas centelhas de gentileza que ainda restava na humanidade, meu povo foi proibido de se aproximar dos homens.

“Não deve chegar perto deles, Dione” diziam as outras.

Mas isso não a impediu. Um simples aviso não foi o suficiente, a expressão dura de repreensão não bastou para sanar sua curiosidade.

O dia havia acabado de raiar, o sol dava seus primeiros sinais, os raios amarelados iluminavam o céu, e aquele poderia ser o amanhecer perfeito, se não fosse corrompido por gritos de desespero e pavor. Eu a senti ser arrancada de mim.

Dione, sempre tão teimosa, estava perto demais das margens do rio, os pescadores jogavam suas grandes redes em busca de peixes, a rotina era a mesma, todos os dias. Exceto naquela manhã. Naquela manhã eles encontraram algo surpreendente, e assustador. Minha filha amada, ela estava tão assustada. A rede se enroscou em sua bela cauda perolada, a linha afiada, cortante, fez pequenos talhos em sua pele cor de caramelo e macia. Seus olhos, tão verdes quanto as mais belas algas marinhas, brilhavam com o desespero. Dione estava presa num emaranhado de redes, sendo arrastada para a superfície por um grupo de pescadores, que acreditavam ter capturado um grande cardume.

Porém os olhos se arregalaram e pareceram querer pular das órbitas quando avistaram o ser preso nas redes, dentes afiados à mostra, as unhas, muito semelhantes a garras, tentavam cortar desesperadamente os fios, porém em vão. Aos olhos humanos ela era uma aberração, para mim, minha querida filha.

Agora condenada.

Seus pulmões frágeis respiravam o ar terrestre pela primeira vez, seus cabelos, tão negros, eram um emaranhado de folhas e linhas de pesca, que se espalhavam por seu rosto.

Eu podia ver o medo e a admiração dos pescadores e de um em especial, seu nome era Uriel. Eu podia ver em seus olhos, seu coração dividido. Ele queria jogá-la novamente no rio, compadecido pelo sofrimento dela, porém a ganância é o defeito mortal dos humanos. Uriel mandou seu filho mais novo à cidade e, quando ele retornou acompanhado por dois homens uniformizados, eu sabia que sua decisão havia sido tomada.

Condenação.

Dione, fraca e assustada, foi levada.

Eu não a vi por longas horas, o silencio foi a pior parte, ao menos no começo parecia ser. Quando a vi novamente, preferia que sua existência jamais houvesse acontecido. Dione estava dentro de uma grande caixa de vidro, eu estava ao seu redor, sentia seu pavor, seu arrependimento. Inicialmente os humanos só a observavam, a olhavam por horas a fio, escreviam em suas folhas brancas, conversavam uns com os outros e saíam. Isso aconteceu por muitos dias. Dione sofria, a fome e a solidão a consumiam, seu corpo estava fraco, seu coração partido. Suas lágrimas se misturavam a mim, eu sofria com ela.

E quando os testes começaram, seu sangue passou a fazer parte de mim, assim como sua dor física. Primeiro eles tiraram seu sangue, um pouco a cada dia. Eles chamavam de “colher amostras”. Usavam grandes agulhas, o sangue dela tinha uma coloração azulada, uma textura viçosa, e quando se misturava a mim perdia toda sua cor.

Mas o cheiro continuava, era cheiro de morte.

Nos primeiros dias ela lutava, depois passou a não resistir mais, entregue. Depois das agulhas começaram a usar pequenas facas, tiravam suas belas escamas, e ficavam maravilhados com a forma como o corpo dela se curava. Mas nem a cura tão acelerada a salvaria de seu fim.

Dione não via mais o amanhecer ou o pôr do sol, ela não sabia se era dia ou noite, não sentia mais as mudanças de estações ou das marés. Após o segundo inverno desde seu sumiço, suas irmãs pararam de procurar, e eu me resignei em seu sofrimento, bastava a nos duas, por hora.

Dione já não se curava mais. Estava magra, fraca. Eu tentava aliviar sua dor, mas não podia fazer nada, não me era permitido interferir. Todos os dias lhe tiravam um pedacinho, um pedacinho do corpo, da alma, e diziam ser em nome de algo que chamavam de “ciência”.

“Ela está sofrendo!” ouvi um deles falar certa vez, aquele que observava Dione todas às noites, por horas a fio, e chorava por ela, longe dos outros.

“Essa descoberta vai ajudar a humanidade! Isso não passa de um animal. Está com pena soldado?” Perguntou o outro, num tom rude, ofensivo e ameaçador.

“Não... Não senhor.” Disse o mais novo, suspirando pesadamente, arrependendo-se amargamente de ter concordado com a pesquisa.

Depois disso ele nunca mais chorou.

Os dias se passaram e Dione voltou a clamar por mim, ela pedia um fim ao seu sofrimento. Mas eu não podia interferir.

Minha pequena Dione. Ela implorou, mas eu não pude fazer nada.

Quando os homens acharam que já não havia mais nada a ser “Descoberto”, deixaram de vir. Só Ele vinha, todos os dias, encarava Dione por horas, e ia embora depois. Um dia ele apareceu com um pequeno frasco nas mãos, um líquido levemente amarelado tremulava no frasco. O cientista, ou melhor, o soldado, destampou o vidro e subiu na pequena escada que levava ao topo do tanque, Dione o encarou com súplica no olhar. Ela implorava por alívio, por descanso.

“Desculpe-me, eu devia ter evitado.” Após isso, derramou o líquido sobre mim, contaminando aquela parte do meu ser, deixando-me amarga, mortal.

Dione sorriu, seus olhos, que antes eram tão brilhantes, ficaram opacos à medida que a sua vida saía de seu corpo, e voltava para mim.

“Experiência 137 encerrada, espécime exterminado. Hora do óbito, 17:23h.” Dito isto, ele desceu as escadas, caminhou lentamente para fora da grande sala, e fechou a porta, que nunca mais foi aberta.

Eu nunca mais vi aqueles homens, eles jamais ousaram tocar meu ser novamente. Uriel morreu meses depois, engolido pelas águas do rio amazonas, engolido por mim.

Desde então meu povo, minha criação, jamais teve contato com os seres cruéis da superfície, o nome de Dione jamais foi esquecido, estava gravado em livros, em castelos. Ela era a princesa gentil e amada. Sua vida tão jovem ceifada por humanos cruéis, sedentos por poder, sem controles diante de sua própria ganância.

Ela é parte de mim agora, uma lembrança constante de que duas raças dominantes não podiam coexistir.

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