O Conto de Maquena

Maquena nunca viu, o verbo ver não fazia parte de sua vida, assim como para outros alguns verbos não são aplicáveis e assim como para qualquer um esse tal verbo desconhecido é estranhamente desejado. Maquena não conseguia caber em si, achava até que era uma peça de jogo infantil, movida por um bebê que ainda estava aprendendo a arte de dominar a coordenação motora. Ela se considerava semelhante a um retângulo tentando ser encaixado em uma forma triangular, ela achava que o bebê nunca aprenderia a colocá-la na forma certa. Todos que realmente a conheciam, ou em partes significativas, amavam-na. Diziam que ela poderia fazer qualquer coisa, ser quem quisesse, mas Maquena só queria que o verbo ver fizesse sentido e jus a sua existência.

Desejos podem se tornar realidade? Sim, claro que isso podia acontecer. Maquena acreditava que poderiam acontecer, que sonhos eram coisas maravilhosa e nem um mal poderia se juntar ao mundo onírico. Maquena não contava com a estranheza da vida, que existem outras milhares de coisas que acompanhavam a realização de seu sonho. Ela não fazia ideia do significado do tudo, porém desejava assim mesmo. Pode-se dizer que ela se arrependeria de esquecer da palavra consequência. Algo que não precisa ter o verbo ver presente, para saber que se faz algo outra coisa é retribuída. Porém, ela também não fazia questão de refletir. Assim como qualquer outro animal e coisa, a palavra reflexão não faz sentido e é aí que Maquena, eu e você nos perdemos.

Não há problemas em sonhar e tentar realizar seus sonhos, o problema está em como irá fazer isso. O caminho tem mais a oferecer do que o destino, e aí Maquena errou de novo. O desejo dela foi ouvido, atendido e realizado, ela viu o que realmente significa tudo. Se ela ficou feliz? Não, mas nós nunca estamos felizes.

Antes de dormir Maquena desejou com mais vontade do que qualquer outro dia, ela suplicava poder ver tudo, tudo, tudo. Depois de fazer seu pedido Maquena ouviu um assovio vindo do seu lado esquerdo. Era o Bom Vento das Memórias, um ser de origem desconhecida, de forma muito menos sabida, que realizava os sonhos dos curiosos, apesar de não fazer isso da forma mais segura e confiante, contudo, Maquena e os outros que esse ser "ajudou" não faziam a menor ideia das consequências. Como eu disse antes, esquecemos da importância de refletir sobre essa palavra, não só sobre essa como sobre muitas outras, usamos palavras como enfeites e armas.

Bom Vento das Memórias contou a Maquena que ele já viu tudo, que era absolutamente magnifico e sabia o quanto ela desejava ver tudo, ela perguntou se poderia saber onde poderia olhar tudo e o Bom Vento das Memórias pegou em sua mão e a levou. Maquena por um momento questionou a si sobre a própria segurança e não aguentando mais perguntou como poderia confiar no ser. Bom Vento das Memórias respondeu que ela não podia, que não se confia no ver e muito menos no tudo.

— Bom Maquena, eu levarei você para ver, te darei a chance de enxergar não só o que está ao seu redor, como também tudo que ninguém conhece, tudo o que qualquer outro animal não viu, coisas julgadas boas e ruins, acontecimentos que só eu, a terra e o céu podemos ver e ainda viver pensando no rumo tudo tomou. Mas, ao final de tudo, você pode escolher enxergar para sempre ou não. Porém, caso você queira ver o tudo pelo resto da sua vida, saiba que nunca esquecerá nada que viu aqui, nem a sensação que teve ao ver cada um dos acontecimentos. Tudo te atormentará tanto que você não aguentará e poderá sucumbir. Terá pesadelos, culpa, sentirá o peso do mundo em suas costas, será como Atlas e ainda sentirá todas as dores dos outros. Está avisada Maquena. Agora, antes que vejamos, algo quero saber sua escolha.

Maquena pensou que não aguentaria não ver e pensou mais ainda até que chegou à conclusão, seu desespero para saber algo que realmente nem conhecia tomou conta de sua cabeça e de seu corpo, pois, automaticamente, se esqueceu das negatividades que o Bom Vento das Memorias disse. Jogou seus pensamentos para outro lugar e falou que queria ver absolutamente tudo e, no momento em que o Bom Vento das Memória dava a visão para ela, ele pegava sua alma. Soprando a face e dando-lhe a ilusão, enquanto tempestades invadiam a mente de Maquena, sem sua percepção, as brisas do mundo pediam licença para estar em o Bom Vento das Memórias.

Depois que Maquena aceitou a proposta, o Bom Vento das Memórias a levou para o Túnel do Mundo, o lugar onde a memória da terra é guardada durante toda sua existência e, estando lá, é capaz de ver tudo, mas isso não significa ver o que realmente está ali ou ver o que quer, quem entrar ali verá tudo puramente.

O Bom Vento das Memorias perguntou se Maquena estava pronta, e ela respondeu que esperou por isso toda sua vida. Então a luz se fez.

Maquena começou a sentir seus olhos queimando e depois ficarem embaçados com as lágrimas. Olhou-se no reflexo da água de um lago, apaixonou-se por si e disse que sabia agora o quanto era linda, porém, se o Bom Vento das Memórias não tivesse a puxado, ela teria morrido afogada na sua ilusão de beleza.

A partir dali tudo ficou muito rápido, não como um piscar de olhos, contudo era agonizante estar dentro do Túnel do Mundo. Era como estar no cérebro da Terra, vendo suas memórias. Podia ser comparado a ler a mente alheia, mas as pessoas não são capazes de esconder tantos segredos quanto a Terra. Esse pensamento fez Maquena se sentir privilegiada e única, como nunca havia se sentido em sua vida. Não posso dizer que no lugar dela eu não me sentiria assim, afinal ela estava vendo tudo. O Bom Vento das Memórias a puxou e seguiu o passeio mais tortuoso ao qual Maquena já foi obrigada a ir, ganhando de lavada do dia na casa da inconveniente tia Camélia e do boçal tio Teixeira, de acordo com a disputa mental que ela fez ao longo do caminho, para se distrair enquanto estava cansada de ver tudo. Estava decepcionada com essa palavra e consigo.

Ela viu a Terra vazia, de longe via Gaia e Urano em um beijo longo e esplendidamente agoniante no que chamamos de horizonte, mas Maquena não sabia o que era aquilo então parecia meio assustador, porém, tinha noção que não devia ter medo e tentou aproveitar a viagem. Foi aí que viu os dinossauros nascendo, caçando e morrendo, quando percebera o surgimento de uma bola flamejante. Depois ouviu barulhos, tremores, a água do mar, que antes era calma, agora estava enfurecida, e como quem tragicamente acaba de acordar do melhor sono, ela se revoltou e começou a devorar tudo.

Ouviu-se gritos, filhotes de dinossauros estavam nascendo foram engolidos pelas águas e pela terra, deviam ter pensado que se a vida era assim preferiam não ter nascido. As plantas morriam e folhas voavam sem nunca cair. Maquena sentia a agonia da folha, ela entendia o que era voar e voar sem nunca saber quando iria cair, até não esperar mais e acabar caindo. Agora um tronco acertou alguns bebês dinossauros e tudo ficou um breu, como se a Terra tivesse sido engolida por um gigante monstruoso, um das sinuosas cavernas escaldantes do Sudoeste, e assim virara banquete do ébano.

Maquena ficou aliviada em reconhecer o escuro, ela mal conseguia se aguentar em pé, um dinossauro bebê morreu ao seu lado. As plantas tão vívidas começaram a sucumbir tão rapidamente e os olhos de Maquena arderam. Ela não queria mais ver aquilo, porque tudo parecia muito ruim. Ela passou a cogitar uma fuga, porém sabia que não podia sair. Tinha feito um acordo e agora teria que ficar até o fim. Ela disse vacilante um “sim” quando o Bom Vento das Memórias perguntou se ela já estava bem para prosseguir.

Lá se foram.

Viu pás cavando a terra tanto para o nascimento quanto para a morte. Do lugar onde nascia o que se usava para fortalecer, se enterrava e junto se enfraquecia. Viu vestidos roçando em tapetes longos e vermelhos, ao mesmo tempo em que via outros vestidos roçando em vômito e sangue, este de vermelho tão morto quanto o vívido tapete rubro. Viu o dourado do ouro banhando o rico, o dourado da areia banhando o pobre. O dourado do ouro em barra sob a cabeça do pobre e o dourado da areia erguido sob a cabeça do rico. Viu o lençol branco se manchar do vermelho do morto e da humilhada, isso durante toda a existência do ser humano.

— Animal terrível! — Praguejou o Bom Vento das Memórias, enquanto Maquena concordava.

Ouviu choros de bebês, uns nasciam com um grande teto pintado com anjos em um palácio, outros nasciam na palha, uns nasciam na choupana, outros no iglu, alguns em ocas, outros na palafita, sob madeira e blocos todos foram sustentados, alguns na forma bruta, outros entalhados e banhados. Uns nasceram com os membros do corpo e da família, outros teria membros que faltavam. Embora no começo não percebessem, logo o futuro os cobraria. Outros nasciam na grama, no berço, na lama, no paralelepípedo, ou nas calçadas, mas todos nasciam da terra.

—Ninguém jamais agradeceu a terra. — Disse Bom Vento das Memórias. — Criaturas ingratas. — Esbravejou ele.

Maquena pensou que não se podia agradecer quando não se sabe como ou a quem. Chegou à conclusão que esperamos demais os sinais que queremos, mas deixamos passar os que estão bem em nossa frente.

Maquena ouviu gritos, alguém foi espancado. Em seu corpo havia todas as cores, não sabia porque apanhava ou quem batia, nem mais pensava, só agia como sua natureza dizia para ser, quando sua falsa ilusão chegou caiu em si, arrependeu-se, deu conta que era um animal selvagem descontrolado. Percebia sem acontecer que seu corpo se moldava a sua selvageria renegada e se levantou, vestiu seu paletó, lavou suas mãos, comprou colares de pérolas e injetou suas palavras nas veias da sua presa, fez com que ela sentisse culpa, a presa fora da sua cadeia alimentar agora chorava e pela porta fora de seu habitat saia e seguia seu nicho ecológico. Maquena ouvia mais gritos e via as expressões, sim ela quis ver tudo, agora via além do que aguentava. Viu pessoas fracas em filas, fracas em aparência, por dentro via resistência.

Alguns eram forçados a andarem vestidos iguais, com o silêncio na voz e uma tempestade na cabeça. Do lado, rostos fardados com patentes gritavam num idioma estridente, sentiam as armas nas mãos e com vontade matavam essa gente. Viu pessoas marchando porque queriam, precisavam e clamavam por igualdade, liberdade e fraternidade. Todo esse povo em diversos lugares, idiomas, rostos e histórias, gritavam querendo coisas em comum, tinham roupas diferentes e Maquena pensou que tudo ali era em épocas distintas. Entristeceu-se de ver que lutavam ainda pelas mesmas coisas. Desejava explodir o mundo e começar outro, ou talvez não começar nenhum, Maquena pensou que a segunda opção seria a melhor.

Ela viu velhos e novos barcos jogando seus iguais no chão como se fossem papel ou um jarro, enquanto pratos eram quebrados, tiros eram dados e corpos caiam. Maquena viu o silêncio, viu pessoas dançando na rua rindo e comemorando, viu crianças dando seus primeiros passos na grama molhada, no piso polido, nas pedras de um prédio destruído, no barco usado para fugir, na fila para entrar em outro país. Apenas as crianças brincavam. Mães seguravam seus bebês enquanto eles choravam, enquanto elas choravam, enquanto ganhavam um belo presente de natal, enquanto reuniam a família, enquanto uma bomba atingia sua cidade, ainda seguravam seus bebês, com cabeças e sem cabeças.

Maquena viu pessoas atirando com lasers, festim, plástico, palavras, pedras, pipocas, comidas, confetes, pólvora, urânio, chumbo. Maquena viu a natureza, viu lagos, cachoeiras, oceanos, rios, geleiras, geadas, nevascas, enchentes, tsunamis viu a água de diversas maneiras, tanto cristalinas, quanto salobras, viu as claras sendo usadas para lavar as mãos no jantar de gala, e as escuras usadas na sopa para as crianças lá de baixo comerem. Ela viu o amor de diferentes maneiras. Viu as pessoas sendo interpretes de suas vidas, mas sem conhecimento algum de como a atuação estava prejudicando suas carreiras como viventes. Viu pessoas agindo como donos dos que diziam amar, viu amores e amizades proibidas, viu sempre a palavra matar. Viu assassinatos, pessoas presas injustamente, viu outras abusando do anel que conseguiram roubar, viu gotas da pia caindo no chão, viu chaves encostadas nos cantos das mesas, viu camas separadas, viu pessoas escrevendo histórias terríveis e belas. Viu pessoas no alto e avante, viu momentos de agonia constante, que pareciam filmes e às vezes eram.

Maquena viu criaturas que já foram extintas, pôr e nascer do sol, tapetes de flores, lixos voadores, ícones da modas, jovens nas drogas, cabeças e punhos nas paredes, antes e após fotos e fatos, festas, várias contagens e promessas para um ano novo. Lareiras esquentando quatro e fósforos esperançando quatrocentos. Viu pessoas se formando, realizando e fracassando, tentando e desistindo, esquecendo e conseguindo. Ela estava cogitando um novo acordo com o Bom Vento das Memórias, queria voltar a não ver tudo e nem lembrar de ter visto tudo, mas queria ao menos poder ver sua família. Antes que ela dissesse isso em voz alta, o Bom Vento das Memórias a puxou para uma porta a esquerda e era ali que a terra guardava as memórias sobre a vida de Maquena.

— Posso saber o que você pensa Maquena e vou te mostrar como é o mundo a sua volta. Como não é diferente de muitos do que viu, afinal viu quase tudo.

Como Maquena não viu tudo? O Bom Vento das Memórias sabe a dimensão e o impacto do tudo, coisa que eu, você e Maquena nem podemos mensurar, foge de nossa capacidade. O Bom Vento das Memórias sabia que devia mostrar as coisas mais importantes, mentia com frequência, mas era um bom ser, faz jus a seu nome. Alguns seres são nomeados de acordo com alguma característica marcante de sua personalidade, era o caso desse.

Maquena se viu, pela primeira vez viu a casa onde morava, se viu bebê, viu seus pais fazendo sons para ajudá-la, se viu brincando com amigos e primos, se viu dando passos, se viu sendo amada, sendo humilhada por estranhos e descontando em quem a queria bem. Viu a pior briga que teve com a mãe, viu agora que a fez chorar e se sentir incapaz, percebeu que fizera com a mãe o que faziam com ela. Agora Maquena pode ver que assim como ela sua mãe também não via, depois ela viu todo esforço que a mãe fez para cuidar dela e como todos diziam que ela era incapaz, Maquena já havia chamado a mãe de incapaz, não pelo mesmo motivo, mas jogara sal na ferida aberta daquela que mais a amava e a entendia. Como a mãe deixou de dizer que não via tudo? O Bom Vento das Memórias disse que a mãe tinha medo que Maquena sentisse vergonha dela, já que desde pequena Maquena falava que não conseguia ver tudo e por isso se sentia incapaz, dizia que odiava viver consigo por não ver tudo. Nessa hora Maquena chorou muito, o Bom Vento das Memórias colocou um espelho na frente dela, mandou que olhasse e disse que se ela quisesse ver tudo bastava olhar para si e enxergaria tudo que precisasse para sempre, porém veria e sentiria as consequências e sensações.

Sem olhar, Maquena devolveu o espelho para o Bom Vento das Memórias e disse que não queria ver mais nada, que tudo era muita coisa e preferia não lembrar disso. Assim se fez, Maquena voltou para seu quarto com um resquício de visão, pode ver o lugar onde dormia, a paisagem da sua janela, quebrou o espelho no qual fingia se ver, se deitou lembrando de tudo o que tinha visto e disse que nunca mais desejaria isso. Chorou. Foi ver seus pais e deitou com eles, abraçou os dois. Desistiu de não se aceitar ficou arrependida do que fez e, daquele dia em diante, ela mudou.

Fez isso porque percebeu o quanto tudo pode ser impossível de ser visto, pode ser cruel, pode ser mentira demais, pode ser verdade demais, pode não existir, pode ser uma ilusão, pode ser Fata Morgana.

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