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O diário de Brendon O’Reilly

Diário de bordo do RV Evellyn, imediato Satoru Tamashi 15 de abril: Estávamos retornando à Cidade de Metal, pela costa da Planície de Oighear. A correnteza e as condições climáticas eram favoráveis para nossa tripulação, como foi apontado por Wilma, nossa navegadora. Segundo seus cálculos, a chegada estava programada para dentro de quinze dias, mas um curioso avistamento fez com que nos atrasássemos. Eu e Wilma, estávamos conversando na proa como de costume, quando ouvimos o vento gelado carregando um som parecido com o grito de um homem. Apontei meu binóculo para um pequeno iceberg, que flutuava ao longe, e me espantei quando vi alguém de pé em cima do gelo.

Contatei nosso capitão, que veio olhar por si mesmo a estranha aparição. Quando boa parte da tripulação estava envolvida no assunto, confabulamos se o resgataríamos ou não. Mesmo com desaprovação da maioria, o capitão Vagner ordenou que dois marujos fossem até o iceberg em um bote salva-vidas. O resgate do homem foi complicado, pois o mesmo se encontrava em um estado de loucura nunca visto por nenhum de nós. Quando os rapazes tentaram traze-lo para o navio, quase tiveram o bote virado, pois o homem fez menção de pular na água e retornar para onde estava. Foi preciso mais duas pessoas para conte-lo.

Já na embarcação, observei-o de perto. Estava magro e pálido, seu corpo tremia dentro das vestes rasgadas e as mãos agitadas mantinham perto de si um caderno encharcado. Tentamos uma conversa amigável, mas ele recuava a cada investida, balbuciava palavras desconexas e sempre escondia o tal caderno entre os braços, como se sentisse pavor com a possibilidade de alguém roubar-lhe o item. Já sem muita paciência, o capitão pediu para que o escoltássemos até uma cabine desocupada. Com cautela e sem tocá-lo, conseguimos fazer com que nos seguisse.

Deixamos que entrasse na cabine e estabelecemos um rodízio para observa-lo, uma vez que seu comportamento perturbado poderia ser perigoso. No meu turno, assisti, através da janela circular acima da porta, a inquietação do novo passageiro. Ele andava de um lado para o outro, gritava, ria e chorava, sempre com o caderno junto a si. Mais tarde, trouxe-lhe uma refeição que ele recusou, voltando em seguida para seus hábitos estereotipados. Trocamos o turno e quando era minha vez, novamente trouxe comida e água. Ele pareceu mais calmo e permitiu que eu entrasse na cabine. Me observou desconfiado quando deixei a bandeja em cima de uma mesa e esperou que eu saísse, para só então começar a se alimentar.

20 de abril: Esse ritual se repetiu nos cinco dias consecutivos, até que ele relaxou o suficiente para ser atendido pela equipe médica. Quando perguntamos seu nome ele se referiu a si mesmo como Brendon Oighear. Sua voz era grave e contrariava sua aparência delicada. Ele não disse mais nada desde então, apenas passa os dias escrevendo em seu caderno, pois só isso o mantém calmo.

24 de abril: Sua mania virou motivo de fofoca da proa até a popa. Todos queriam descobrir o que tanto ele documentava e porque não permitia que ninguém lesse. Confesso que também estava curioso, mas matinha minha descrição. Aproveitarei que os enfermeiros deram a ele um calmante à noite, para roubar seu querido caderno.

Me esgueirei pela cabine do tripulante misterioso. A luz fraca da lua entrava pela janela, iluminando o local o suficiente para eu realizar a ação gatuna. Brendon dormia de barriga para cima com os braços cruzados sobre o caderno. Ele se remexeu e se acomodou em outra posição, dessa vez de lado. O aperto de seus antebraços contra o caderno se afrouxou, me permitindo puxa-lo sem que percebesse. Logo depois já estava em meu próprio aposento, sentado à mesa e preparado para ler o conteúdo do que descobri ser um diário pessoal, propriedade de Brendon O’Reilly, não Brendon Oighear. Diário pessoal de Brendon O’Reilly Página 6 15 de abril: O motor do avião pegou fogo, me fazendo perder altitude. A fumaça fedorenta prejudicou minha visão, mas, com a mínima percepção sensorial que possuía, iniciei uma manobra de pouso forçado. Se não fosse a temperatura quente do vapor, tenho certeza que o vento gélido da Planície de Oighear teria limitado meus movimentos. Há males que vem para o bem, afinal de contas. Aproximei o avião do solo e me preparei para o impacto. Minha cabeça chacoalhou quando o veículo deslizou sobre o gelo e, aos poucos, perdeu velocidade. Com um reflexo instintivo, me livrei do cinto de segurança e saltei do assento, rolando pela superfície gelada. O Neill N-7 andou mais alguns metros antes de ficar estático, as chamas aumentaram e ele se incendiou numa explosão que tingiu de laranja o branco-azulado do gelo. Foi a última fonte de calor que senti, dali para frente apenas o frio seria meu companheiro.

Por sorte, salvei minha mochila com alguns suprimentos, mas, para evitar ansiedade, não calculei quanto tempo os teria disponível, sabia apenas que não durariam muito. Deixei esses pensamentos de escanteio, tirando do bolso o item mais valioso da minha louca aventura. Era um mapa desenhado pelos anciões da cidade de Fredelig, minha terra natal. Essa preciosidade abriria os caminhos para aquilo que busco há tempos. Algo que para muitos parecia inacessível, porém eu sabia que poderia encontra-lo se determinado – e sortudo – eu fosse. No fim do dia, anotei em meu diário minha desventura aérea.

16 de abril: Observei que as nuvens no céu indicavam a chegada de uma tempestade, e o vento forte apenas confirmou isso. Precisei me abrigar e, após minutos de procura, encontrei uma caverna grande o suficiente para caber todo meu corpo. Neste momento estou aguardando a fúria da natureza se findar, para que eu possa seguir minha jornada e, para vencer o ócio, recapitularei os acontecimentos que me levaram até este ponto.

Eras antes do meu nascimento a Terra passou por perrengues inimagináveis. Segundo os documentos que roubei do templo de Fredelig, o mundo foi assolado por uma praga que veio do oceano. Não encontrei informações minuciosas sobre a doença, ou qual seu local específico de origem, apenas tenho noção que ceifara um terço da população mundial. Como se isso não fosse suficiente, anos depois catástrofes naturais destruíram grandes cidades e reformularam a geografia terrestre, e mais um terço da humanidade sucumbiu.

Passou-se um tempo de paz, onde as pessoas sobreviventes tiveram a oportunidade de recomeçar suas vidas. Novos líderes mundiais assumiram o comando das nações remanescentes, a ciência teve uma evolução considerável, assim como as relações políticas e artes em geral. Descobriu-se a cura para a enfermidade que outrora era fatal, e o homem respeitou com veemência a natureza, de tal forma que esta adormeceu, respeitando-o igualmente. Foram tempos excepcionais para vivenciar, lamento não ter nascido nessa época. Porém, como nada dura para sempre em um mundo regido pelo caos, os recursos naturais que o ser humano detinha esgotaram-se, graças a sua ganância e teimosia. As relações entre as Novas Nações se estreitaram e a disputa por poder foi o estopim para a eclosão da maior guerra que o mundo já viu. Foi nesse mundo ríspido que nasci.

Por trinta anos vivi escondido, acuado atrás das muralhas de Fredelig e há cinco meses tomei ciência dos relatos dos antigos exploradores, que ousaram visitar a Planície. Os documentos que estudei durante esse período, traziam relatos curiosos sobre fenômenos incomuns nesta região. Aparelhos como bússolas não funcionam, pontos luminosos podem ser avistados cruzando o horizonte e sons parecidos com máquinas industriais são ouvidos abruptamente. No entanto, nenhum deles encontrou de fato a origem dessas peculiaridades. Tudo que me resta no momento, é aguardar o fim da tempestade para que eu possa retomar a busca.

Página 7 17 de abril: A nevasca continuou durante a noite e só encontrou seu término na manhã do dia seguinte. Saí do abrigo e me pus de volta na trilha desenhada no mapa. O antigo documento indicava a localização do Templo de Oighear, uma construção de caráter religioso erguida em prol da adoração do Senhor das Nevascas, uma divindade cultuada pelos últimos povos que habitaram a Planície. Segundo os mitos, aqueles que orassem para Oighear em seu templo, seriam agraciados com um poder singular. Porém, como aquele continente encontrava-se isolado há tempos, deduzi que teria o dobro de dificuldade para encontrar o local.

A expedição se estendeu mais do que deveria, e as condições climáticas enfadam-me o corpo. Não demorará muito para minha mente começar a pregar peças sobre minha sanidade. O trajeto do mapa parece não estar completo, pois, o destino final está localizado num campo vasto, sem quaisquer vestígios de construções. O desespero tomou conta de mim quando percebi que fui imprudente na minha ânsia em desvendar os mistérios desse mundo – junto ao meu sonho intocável em mudar o curso da história – mas um som de passos interrompeu a lamentação.

O barulho do vento – como um uivo em meus ouvidos – era predominante, porém jurei ter escutado um som de fundo muito parecido com passos pesados. Me concentrei para escutar melhor e me certificar que minha mente não estava à beira da insanidade. Nos minutos seguintes, a marcha recomeçou tão ligeira quanto antes.

Contei quatro passos, com seis segundos de duração entre eles. Dois minutos de silêncio e novamente, a mesma quantidade de passadas com o mesmo tempo. Esse processo se repetiu três vezes e na última identifiquei que o som estava mais audível, mas não sabia de que lado vinha.

Quando o barulho retornou, o número de passos aumentou para seis e o intervalo entre eles reduziu para três. O tempo da sequência diminuiu para um minuto e essa oscilação intensificava-se cada vez mais. Notei que o causador daquele som estava andando mais rápido e estava próximo o suficiente para que eu descobrisse sua localização. Virei o rosto na direção certa e minhas pernas ficaram bambas com a terrível visão. O dono do movimento corria em minha direção.

Mas aquilo não era humano.

A criatura tinha em média três metros de altura. Seu corpo sustentava-se sobre duas pernas grossas com patas de apenas dois dedos, dos quais saiam garras tão afiadas que marcavam o gelo abaixo. Do dorso volumoso e corcunda estendiam-se quatro braços, apendiculares e musculosos, cujo comprimento terminava numa estrutura cartilaginosa em formato de foice. Ela não possuía pescoço, logo nada marcava o início da cabeça. Nesta não haviam olhos, conduto auditivo e cavidade nasal, porém tudo isso era compensado por uma boca monstruosa, repleta de dentes semelhantes aos de um tubarão. Ao redor dela, um excesso de pele, formando uma membrana que esticava e retraía em constância.

Sua pele brilhava aos raios fracos do sol. Era lisa, cinzenta e de aspecto úmido como a de um batráquio. Por um momento pensei que aquela aparição possuía comportamento anfíbio, no entanto sua longa cauda ondulante e um par de asas - longas, com membranas rosas, partindo da região dorso-cranial – confundiram minha mente. O ser emitiu um grito agudo, que me remeteu a um choro de criança, misturado ao canto de um albatroz.

Saí do transe que até então estava preso e posso afirmar que minhas pernas se moveram sem controle, para uma direção qualquer que me levasse para longe daquele monstro. Todavia a coisa era veloz e parecia muito interessada em me alcançar. Olhei sobre o ombro esquerdo, enxergando com o canto dos olhos aquela boca com hálito pútrido cada vez mais próxima. Joguei o corpo para o lado oposto, caindo no chão.

O monstro passou em linha reta e fechou a mandíbula com força sobrenatural. Quando percebeu que havia errado o alvo, fixou as garras no gelo e redirecionou a cabeça para mim. Dobrou os joelhos – se é que os possuía – e atacou novamente. O solo escorregadio não permitiu que eu tivesse um tempo de reação para levantar, por isso, desatei a rolar, escapando do avanço sedento do predador. Nesse meio tempo – em que observei a criatura de baixo para cima – notei que seu ventre não tinha as mesmas características do restante do corpo. A pele da barriga era fina, quase transparente. Essa região em formato elíptico, emitia um brilho azul-esverdeado que era tanto esquisito, quanto atraente.

Dessa vez ele cravou a boca no chão, ficando preso. Aproveitei a chance para fugir, embora não houvesse um local seguro que me protegesse da aberração. Contudo, o pensamento não diminuiu meu instinto de sobrevivência. Aquilo se desprendeu e abriu as asas, com um som de cigarra amplificado à décima potência e voou a poucos metros do solo com velocidade fenomenal. Continuei no mesmo ritmo, apesar do grito furioso da criatura e a ensurdecedora vibração de suas asas.

Distraído por esses temíveis fatores, não me dei conta quando corri para uma área onde o gelo era mais fino e quebradiço. Meu pé afundou no que parecia a superfície congelada de um lago, mas sem a contraparte líquida embaixo. Fiquei preso até a coxa e não consegui me libertar. O monstro aproximou-se do chão para um voo rasante e abriu a boca o máximo que pôde. Ao me remexer, o gelo ao meu redor rachou, iluminando minha mente com uma louca ideia.

Comecei a golpear o gelo com socos, enquanto a coisa continuava se aproximando. Poucas rachaduras apareciam com o bater dos meus punhos. A criatura estava a menos de um metro. Movido pelo desespero ergui as mãos para o céu e fechei-as, cravando as unhas nas palmas, então soquei o gelo com toda a força que os meus músculos proporcionavam. Ao olhar para a direita, me deparei com a região frontal do ser, larga devido a membrana e assombrosa por conta da boca faminta.

O gelo quebrou e eu caí.

Não para um lago glacial, mas um espaço vazio abaixo da Planície. Após o impacto – e o susto – urrei vitorioso, porém não me dei ao luxo de comemorar por muito tempo. O local era escuro e a luz que vinha do buraco que abri não ajudava muito. Tirei da mochila um lampião a base de óleo, que me permitiu iluminar o espaço onde me encontrava. Era uma caverna formada por rochas e não por gelo.

Fiquei confuso, mas depois de tanta estranheza relevei. Matutei como sairia dali sem ter que enfrentar a morte predatória na superfície, nem a inanição no subterrâneo. Iluminei com cuidado todo o perímetro até me dar conta de uma fresta larga o suficiente para uma pessoa passar. Apaguei o lampião, mergulhando novamente nas trevas, e me esgueirei entre as paredes esculpidas naturalmente.

Página 10 20 de abril: Estou sem forças! Há dias me encontro preso no verdadeiro Templo. Tudo é muito diferente do que está escrito nos documentos. Não existe construção com pilastras enormes, muito menos altares para exaltação. Há uma sala principal, com aproximadamente 20 metros de largura, 15 de comprimento e 4 de altura, construída com um material próximo do granito.

Essa ala possui quatro entradas – ou saídas, dependendo do ponto de vista - com formatos diferentes. Uma, por onde cheguei, é retangular e através de um corredor em forma de funil, conecta a fenda ao salão principal. A segunda tem a parte superior arqueada, dando-lhe a aparência de uma abóbada. A terceira possui o topo triangular e a quarta está bloqueada por rochas de tal modo, que perdeu sua conformação original.

Escolhi entrar na terceira e desde então minha visão é limitada a paredes com desenhos em alto relevo e textos numa língua desconhecida. Descobri que as portas levam a corredores interligados como um labirinto, me impedindo de achar novamente o saguão. Além disso eu não estou sozinho. Há dois dias ouvi o grito grotesco do único ser vivo dessa planície além de mim. O barulho que anunciou sua chegada, reverberou pelos corredores e ainda o faz, ora distante, ora próximo.

O combustível do lampião está próximo do fim, tive que economiza-lo mesmo que as trevas desse local me sufoquem de desespero. Uso-o apenas para escrever. Por sorte – ou infortúnio – estudei os conteúdos gravados nas paredes e anotei tudo no diário que carrego comigo. Não sei se sairei vivo da Planície, mas caso algum sucessor chegue até esse ponto, com certeza ele terá cuidados diferentes dos que eu tive. Escuto passos pesados e o arrastar de algo se roçando nas paredes, preparado para me abocanhar e rasgar minha carne como uma raposa faz com a lebre. Apagarei o lampião e fecharei os olhos, pois a sensação de ausência em minha mente é reconfortante – além de dar a impressão de que não estou fisicamente aqui. Um passo em falso e minha expedição chegará ao fim.

Página 13 22 de abril: Enxerguei uma luz azul no fim do corredor, sendo essa minha única vantagem sobre a aberração. Me arrastei no chão feito serpente, para evitar barulho, virando em uma esquina, embora não soubesse para qual direção ela levaria. Quando dobrei o ângulo reto que o chão faz com a parede, não enxerguei mais a luz ciana e não escutei nada além da minha respiração. Aguardei um pouco e reacendi o lampião, está na hora de continuar meu relato com as informações obtidas. As gravuras contavam a história de um período em que a Terra passou por um processo de ruptura. Entendi que o planeta passa por fenômenos parecidos de ocasionalmente, sem um intervalo exato. Naquela época, havia um grupo de pessoas conhecido como Auxiliadores, que sempre aparecem em grupos de doze pessoas. Contudo, uma figura em particular se destaca. Não consigo identificar a figura como homem ou mulher, por isso chamarei de décimo terceiro. Essa personagem aparece à frente do grupo, logo deduzo que deveria ser o líder. Ele é visto guiando os outros por vilarejos com moradias simples e superpopulações. Os escritos sugerem que essas sociedades sofriam com a escassez de recursos, secas prolongadas, enchentes, tempestades e afins. Os Auxiliadores possuíam o papel de oferecer suporte a quem necessitava, sempre obtendo sucesso. Me questionei como um povo tão antigo tinha acesso a ciência e tecnologia. Em uma parede que encontrei dias atrás, havia o desenho de uma figura humanoide – provavelmente décimo terceiro – cujas mãos seguravam uma esfera. Ao redor dessa figura encontravam-se seis orbes, cada um em posse de personagens bastante peculiares, as quais não consegui compreender.

Preciso me aventurar por mais corredores para desmiuçar esse painel e tudo será melhor dissertado posteriormente, pois meu inimigo voltou a incomodar-me com seus gritos lamuriosos. Não nego que esse jogo de caça e predador me tira do marasmo. Se não fosse eu o ser frágil, com certeza estaria me divertindo. Aposto que o monstro se delicia a cada segundo.

Página 15 23 de abril: Ele me deixou em paz mais uma vez e finalmente posso continuar a escrever. Me sinto fraco, pois minha comida acabou no dia anterior e estou usufruindo da água com parcimônia. Está na hora de registrar em uma língua conhecida o verdadeiro passado do mundo. Como supracitado, a Terra entrou em um momento de colapso há milhares de anos, o motivo disso não foi relatado. O povo daquela época – mais precisamente os Auxiliadores – entraram em contato com forças sobre-humanas e uniram-se a estas. Ao que tudo indica, os seres humanos nunca estiveram sozinhos no universo. Haviam outros planetas preenchidos com vida tão inteligente quanto a terrestre, quiçá superior. Pode parecer espantoso, mas está comprovado que os humanos possuíam relações com pelo menos seis espécies extraterrestres, cada uma com um representante.

A primeira que tive ciência foi Thalassinó Neró, imperatriz dos peixes-geléia, habitantes de Anfitrite. Este planeta era composto quase inteiramente pelo que as escrituras se referem como oceano cósmico. As gravuras descrevem seres humanoides, com longos braços e várias pernas. Eram grandes pesquisadores e estudiosos de caráter pacífico e diplomático.

A próxima espécie era originada de Vlieënde, um mundo com nove satélites naturais. Liderados pela matriarca Maanvoël – cuja ilustração me lembrou uma enorme coruja – viviam em construções dentro de árvores. Nestas cresciam ramificações com folhas que guardavam informações, formando bibliotecas vivas. Eles prezavam muito pela transmissão do conhecimento, o que os tornava exímios educadores.

No mural paralelo, encontrei informações sobre mais duas espécies. O terceiro planeta, Grot'rth, é um vasto deserto composto por um solo maleável. Seus habitantes são criaturas horrendas que só de imaginar ficar cara a cara com eles, sinto meu estômago revirar. Apenas consigo descreve-los como corpos amorfos de onde saiam estruturas serpenteantes. Seu líder, Gwatwar, liderava um exército incrivelmente poderoso, pois os grot'anos eram providos de força descomunal e alta resistência.

Contrariando suas características, o mural dividia espaço com a representação de uma espécie serena e pacífica. Os habitantes de Lette Stier eram formados por poeira estelar tal qual seu planeta, mas com a peculiaridade de serem dotados de inteligência. Sua guia, Stersduk, era uma grande astrônoma com a habilidade de converter seres e objetos em poeira cósmica e realizar seu transporte por várias galáxias através de caminhos de luz. Não há outros relatos desse povo e sua descrição física se restringem às escrituras.

O quinto mundo chamava-se Vaalakain, o qual era repleto de magma, metais fundidos e gases. Seus habitantes possuíam entre quatro e seis braços, eram corpulentos e muito próximos dos gigantes no imaginário popular. O rei desse planeta, Ladame Kee Taakat, nasceu com 8 braços e por isso era venerado como realeza – quanto mais braços, mais respeitado era o indivíduo. Um de seus feitos mais notórios foi a destruição de um asteroide que ameaçava a vida no planeta.

A última Estrela possuía uma parede inteira para si e suas gravuras faziam menção a uma raça nacionalista e orgulhosa. Oppresitär, era regida por Fügneser, o planeta era muito desenvolvido tecnologicamente, tanto que as figuras expressam meios de transporte voadores – em formato oval - e armamentos parecidos com armas de fogo, porém maiores, de onde saíam algo que reconheci como feixes luminosos.

Os oppresitarianos são sempre retratados atacando e subjugando outros povos, dentre eles os humanos. Não entendi o motivo por trás de tanta demonização, mas não cabe a mim opinar sobre nada, apesar de uma parte do mural apresentar um deles – deduzi ser Fügneser – combatendo um único terráqueo descrito da forma já relatada.

Curiosamente não achei nenhum desenho ou escrito sobre o monstro que me persegue. 24 de abril: Estou correndo e escrevendo ao mesmo tempo. A criatura me encontrou e não posso mais me esconder ao pé das paredes do Templo. Ele está próximo de mim, mas não morrerei sem antes esclarecer a história por completo. Os seis planetas e a Terra formavam uma confederação interplanetária de ajuda mútua, as Sete Estrelas. Contudo, essa liga chegou ao fim, quando o representante humano liderou seu grupo em busca de um poder superior ao de qualquer espécie desenvolvida, causando uma guerra entre os mundos. Desde os primórdios, o ser humano divaga em busca de resposta para o inexplicável, como a vida pós morte e a origem do mundo. Pelo visto essa última foi elucidada, porém isso vai além do nosso pequenino planeta, abarca todo o universo e as vidas que nele habitam.

Essa força criadora não possuía forma, ou representação, mas foi encontrada pelo grupo que ficou conhecido como Rebeldes. Eles mesclaram parte do seu poder com habilidades alienígenas, criando assim atribuições denominadas essências.

O monstro está quase sobre mim! Posso sentir seu bafo quente em minha nuca! Preciso escrever mais uma palavra! A energia cósmica que deu asas à criação se chama...

Página 25 Definir datas da minha expedição não será mais necessário depois do que me ocorreu. Na minha fuga desesperadora acabei encontrando o caminho para o saguão principal, saindo da porta em formato de abóbada. Nesse momento o monstro empurrou meu corpo me fazendo cair no meio da sala. Ele não conseguiu frear sua corrida e esbarrou no canto oposto à porta por onde saímos. Ambos nos reerguemos e nos encaramos. Começamos a andar em sentido horário, sem menção de ataque, apenas suspense – algo que ele gostava de exercer sobre mim. Aos poucos fui me afastando do centro até encostar na parede áspera. Já havia aceitado meu fatídico destino quando aquilo saltou até mim, abocanhando não só meu braço como também parte da parede, ficando-nos na parede.

A raiva invadiu meu corpo e decidi que não partiria sem antes proporcionar algum grau de dor aquele ser. Com a mão livre apanhei uma lasca de pedra que se desprendeu com o impacto e atingi em cheio a barriga transparente dele, de onde emanava a luz azul. Para meu espanto ele se desprendeu e recuou alguns passos. O monstro se contorcia em dor, mas isso – e muito menos meu braço mutilado – não impediu que eu o golpeasse inúmeras vezes com a lasca de pedra. Enquanto o machucava num frenesi vingativo, aquilo gritava não como o demônio que parecia, mas como um ser humano.

Foi então que vi o que ele escondia dentro do abdômen. Aquela luz anil provinha de nuvens com aspecto rígido, como se o vapor condensado tivesse sofrido um processo de ressublimação instantâneo. As nuvens começaram a se mover, me deixando hipnotizado junto ao som distante do rufar de tambores. Minha mão moveu-se involuntariamente para toca-las, com absurda necessidade e, quando meu antebraço estava inserido pela metade na cavidade abdominal daquela coisa, ela urrou e esparramou-se, sem vida.

Puxei o braço e com ele uma substância etérea em enorme quantidade emanou ao meu redor. Parecia com a água em todas os seus três estados, era fria, porém em temperatura suportável. O saguão se encheu de luz e daquela substância incomum, que parecia dançar ao meu bel prazer. Desatei a gargalhar enquanto aquilo rodeava meu braço, meu torso e minhas pernas. Minhas narinas arderam quando a coisa entrou pelo meu nariz. Era como respirar o ar mais puro.

Eu me sentia poderoso, cheio de energia e, o melhor de tudo, me sentia realizado. Eu acabara de adquirir uma essência.

Seria o monstro a manifestação de tal poder? Ou seria ele uma pessoa comum que não suportou tamanha força e se converteu em uma aberração? Talvez eu nunca obtivesse as respostas, mas isso era o de menos. Passei pela porta retangular e fiz o caminho inverso em direção à fenda. Quando estava novamente na caverna, abaixo do gelo quebradiço, dei um salto que fora, impulsionado por aquele poder recém obtido.

Cheguei à superfície renascido. O frio bailava ao meu comando, blocos glaciais remodelavam-se como eu bem quisesse. Neve e gelo eram agora meus servos e nada poderia subjugar essa potência frígida. Afirmo por todos os seres viventes no universo que deste dia em diante Brendon O’Reilly está morto e que a Planície de Oighear pertence a um novo Deus. Diário de Bordo do RV Evellyn, imediato Satoru Tamashi 25 de Abril: Havia mais para ler, porém me recusei. Apesar de sua escrita detalhada e sedutora, Brendon claramente sofria de algum transtorno mental ainda não relatado, e as condições inóspitas da Planície, apenas contribuíram para as ilusões que sua mente criou. Seria humanamente impossível sobreviver por mais de cinco dias em um local com temperaturas abaixo de zero, sem um abrigo digno. E como ele foi capaz de contar os dias no suposto Templo sem se orientar pela luz solar?

Esses e a maioria dos termos – com destaque para a palavra “MEGIRO”, escrita inúmeras vezes de forma furiosa – não faziam sentido, uma vez que não pertenciam a nenhum dialeto conhecido. São como frutos de uma imaginação perturbada. Anotei algumas coisas em meu próprio caderno antes de devolver o diário ao dono original. Preciso fazer isso hoje antes que ele dê fé do sumiço. Quando chegarmos ao nosso destino o entregaremos às autoridades locais, que melhor tomarão as providencias.

02 de Maio: Passou-se uma semana e nós criamos um apreço mútuo e Brendon não mais apresentou comportamentos agressivos. Contudo, preciso relatar um episódio que me ocorreu na noite anterior. Eu e mais três membros da tripulação estávamos no convés, bebendo e jogando conversa fora. Brendon estava conosco embora se resumisse a escrever em seu diário. Já era madrugada e o cansaço nos obrigou a retornamos para o interior da embarcação. Sugeri o mesmo ao escritor silencioso que, a contragosto, seguiu meu conselho, deixando para trás um copo de chá que não vi ele beber, apenas segurar. Assim que o homem entrou recolhi o copo, mas tamanho foi meu espanto quando notei que o líquido dentro dele não apenas esfriou, como congelou! Isso era fisicamente impossível naquela temperatura! Segui Brendon pelo corredor do Evellyn. Chamei seu nome e ele cessou o passo. Ainda de costas virou lentamente o rosto que, pela primeira vez, expressou um sorriso irônico. E em seus olhos pude ver, mesmo que discretamente, um fraco brilho azul.

 
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