O pioneirismo feminista de Nísia Floresta no Brasil do século XIX


Nísia Floresta, pioneira na luta pela educação das mulheres

O trabalho de Nísia Floresta como escritora, educadora e precursora do feminismo no Brasil foi importante para contribuir na emancipação das mulheres e para mostrar que havia um ambiente de opressão e uma necessária defesa daqueles que sofriam com as indiferenças. Durante o século XIX a forte sociedade patriarcal ainda era predominante e impunha as suas vontades. As mulheres ficavam restritas ao espaço privado e não tinham oportunidade de mostrar suas reais capacidades. Transpor estas barreiras era tornar tais mulheres protagonistas e, ao mesmo tempo, modificar um processo desafiador ao contexto conservador. As obras literárias de Nísia, as pesquisas científicas de Constância Duarte, foram significativas para relevar como esta brasileira lutou pelos direitos que lhe eram devidos. Esta personagem quase desconhecida no Brasil é apresentada pelas reflexões e análises que sua trajetória protagonizou. Entre artigos em jornais, livros e outras eminentes mulheres, objetivou desmascarar a dupla sociedade da época, que se escondia entre dois mundos, o masculino e o feminino. Esta busca constante pela liberdade feminina nos proporciona um perfil adequado do papel da mulher no Brasil do século XIX, vivendo de acordo com os padrões estabelecidos.

Nascida em 12 de outubro de 1810, Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, em Papari, no Rio Grande do Norte, município que agora leva seu nome. Aos sete anos, ingressou no Convento das Carmelitas, onde recebeu aulas de trabalhos manuais e canto. Diferente das outras alunas, entretanto, ela também se sentia atraída pelos livros da biblioteca, paixão que sempre foi incentivada pelo pai liberalista. Quando completou treze anos, a menina foi obrigada a casar-se com um rico proprietário de terras, conforme as normas sociais da época, rompendo a relação poucos meses depois do matrimônio, fugiu de volta para casa. Em 1931, no entanto, ela finalmente descobriu aquele que parecia ser seu papel no mundo. Motivada por seu amor pela literatura, a jovem assumiu o nome Nísia e passou a escrever para o jornal O Espelho das Brasileiras, editado em Recife. Em seus textos, a escritora falava sobre as condições de vida das mulheres, além de defender a educação feminina em ambas as esferas: moral e cívica. No total, o jornal para o qual ela escreveu teve trinta edições e todas contaram com Nísia como redatora.

Seu primeiro livro, Direitos das mulheres e injustiça dos homens, foi escrito aos 22 anos, o qual, atualmente, discute-se sobre a teoria de que a obra era baseada em A Vindication of the Rights of Woman, de Mary Wollstonecraft, onde ainda existe a ideia de que Nísia teria traduzido literalmente o livro La femme n'est pas inferieure a l'homme, publicado em 1750. Entretanto, independente da “inspiração”, a obra da brasileira foi considerada um ícone da literatura da época. Nísia escreveu, até seu falecimento em 1885, outras quatorze obras, prestigiadas mundialmente na contemporaneidade, defendendo os direitos das mulheres, dos indígenas e dos povos escravizados. Participou também, ativamente, das campanhas abolicionista e republicana. Movida por essas ideias, aos 28 anos, ela abriu uma escola para meninas, o Colégio Augusto, onde as jovens passaram a aprender gramática, escrita e leitura do português, francês e italiano, ciências naturais e sociais, matemática, música e dança. O ano era 1838 e no Brasil reinava D. Pedro II, época em que o ditado popular “o melhor livro é a almofada e o bastidor” estava em alta e representava a realidade imposta a muitas mulheres. Tais "insubordinações" renderam a Nísia não somente críticas pedagógicas, mas também ataques à sua vida pessoal, à moda machista. Artigos nos jornais tentaram depreciá-la como promíscua nas relações com homens e com suas alunas.

Defensora da emancipação feminina, chegou a publicar um livro sobre o tema em 1853, Opúsculo Humanitário, que explica que sem uma “educação esclarecida”, “mais facilmente os homens se submetem ao absolutismo de seus governantes”. À frente de seu tempo, Nísia Floresta defendeu o direito à educação científica para meninas, fundando a base de gerações de mulheres que hoje estão em escolas e universidades, aprendendo e ensinando. Mesmo tendo migrado para a Europa, onde morou por quase duas décadas, Nísia continuou escrevendo e publicando livros de literatura e de resistência política, sempre demonstrando o orgulho de sua origem – ressaltada no próprio nome que se deu – e nunca abandonando o compromisso de se somar às lutas pela libertação dos setores oprimidos que formam a maioria social do povo brasileiro. E, assim, podemos compreender esta mulher, em toda a sua dimensão histórica e sua contribuição para uma sociedade mais igualitária e humana, percebendo seu empenho e dedicação em causas que nela encontraram uma voz.


Referências Bibliográficas

BARBOSA, Paulo. Nísia Floresta: uma mulher à frente de seu tempo: almanaque histórico. 21ª edição. Brasília: Mercado Cultural, 2006. 64 p.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. 1ª ed. Natal: UFRN, 1995.

MALVA, Paula. Nísia Floresta, a primeira autora e feminista do Brasil. AH: Aventuras na História. Publicado em 10 Jan 2021. Disponível em: <https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/nisia-floresta-primeira-autora-e-educadora-feminista-do-brasil.phtml> Acesso em 05 Abr 2021.

TELESFORO, João. Nísia Floresta: A feminista brasileira que você não encontrará nos livros de história. Portal Geledés, Setembro, 2015. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/nisia-floresta-a-feminista-brasileira-que-voce-nao-encontrara-nos-livros-de-historia-2/ > Acesso em: 05 Abr. de 2021.

Sobre a Autora:

Aline Amorim é Recifense, aquariana, mãe e feminista. Graduada em Gastronomia, Pós-graduanda em História Social e Contemporânea, Pesquisadora da temática Relações de Gênero e o Mundo do Trabalho; Alimentação e Feminismo. Amante das Letras, é colunista da Literatura Errante trazendo a temática Mulheres e Literatura sob uma perspectiva Feminista.


Revisão: Maria Carolina Rodrigues


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