Olho Mágico

Olho da janela do meu apartamento, tentando resgatar do fundo da minha cabeça confusa algo que me ocupe o tempo, mas sou tomada pelas luzes difusas que se apresentam e, de repente, me conta que cada uma delas pode ser uma estória.

A vontade me invade e parto sem pensar para aquela que mais me atrai, não pelo brilho mais intenso ou pelo tamanho do prédio, mas exatamente pelo contrário, porque reluz pouco e por isso mesmo traz o mistério à tona.

Quem será que está por trás daquela janela? Que sonho terá? Que desilusões, que taras ou medos? Estaria só ou acompanhado? E, ao final disso, me encontro em outro entrave, porque finalizei a última palavra com a letra indicativa do sexo masculino? Pode ser uma mulher.

De repente me pego imaginando quais sinais distinguem um do outro, o que me fez pensar que o apartamento seria de um homem e não de uma mulher. O que teria de interessante por dentro do apartamento de um homem e como invadi-lo sem me sentir invadida por outros interesses?

Não haveria por que me preocupar em ser apanhada, pois estou absolutamente protegida pelo anonimato, então, começo a dividir com vocês o que vejo da minha janela.

Um homem sentado de costas e, como a luz está fraca (ainda não descobri a razão), apenas sou capaz de descrever a sombra de alguém, que tem o corpo largado sobre uma cadeira desconfortável que parece expulsá-lo. Ele permanece por tanto tempo na mesma posição, que começo a duvidar da minha capacidade ocular. Pisco algumas vezes, imaginando que pensamentos paralelos podem estar me traindo.

Volto à cena e tudo permanece igual, ele continua sentado e não consigo divisar nada além. Enquanto continuo de olho no meu personagem principal, espreito para me certificar se há mais alguém com ele no set, nada.

Triunfalmente, ele se desloca, talvez cansado de me fazer esperar pela próxima cena. Percebo que levanta com dificuldade, como se carregasse um saco de problemas difíceis de resolver. Em seguida, vira-se e permite-me que veja também seu rosto, contraído com a dor do peso que suporta em seus ombros.

Sem que me prepare devidamente, ele inicia seu relato.

Chamo-me Gabriel, nome de anjo, mas vida de demônio. Nada nessa minha existência foi fácil. Gabriel começa seu relato no mesmo ritmo que tirou seu corpo da cadeira. Eu não tive a sorte de ter um pai e uma mãe convencional, tive muitos dos dois, mas nunca ficaram por muito tempo, ou talvez tenha sido eu a passar muito rápido por eles.

Na minha adolescência, até hoje não sei bem o que representa, vivi só em um quarto nos fundos da casa de praia dos patrões. Era local úmido e mal podia me movimentar dentro dele. Tinha sido um depósito de artigos de pesca do meu patrão e depois adaptado para mim, como ele mesmo dizia: “melhor isso do que a rua”.

O espaço era tão pequeno que ficava mais tempo fora dele e me ocupava de forma que, ao entrar no buraco, fosse definitivamente dormir. Poderia ter destinado toda minha existência a esse esconderijo de mim mesmo, mas fui expulso de lá logo após a morte do meu patrão. A sua mulher dizia que não suportaria a memória daquele lugar, não tive raiva porque sabia muito bem o que queria dizer saudade no vazio.

Sai daquela casa um adulto, um adulto incompleto porque não tinha conhecido nem a infância, nem adolescência. Na verdade, sempre tive que ser adulto, pois aprendera desde cedo como funcionava a vida de uma pessoa adulta. Porém, somente naquele momento, entendi que se referia à idade, quando sua responsabilidade não é compartilhada, porque ela passa a ser sua atribuição e, ainda que, por vezes, olhe para os lados, sobram poucos ombros e braços para te amparar. Ai você chegou à fase adulta.

Quisera eu ter tido a chance de correr para os braços de outro e poder dividir o fardo. Não nunca tive a sorte, sempre fui adulto.

Vaguei pela praia pensando qual o próximo passo, eu sabia que havia, porque até aquele ponto da minha vida tinha sido expulso, inclusive de mim mesmo. Continuei vagando e minhas pernas me renderam, sentei na areia e não conseguia chorar, pensei em correr até esgotar todas as forças e deixar que a maré cheia me levasse.

Adormeci.

Acordei com o movimento dos braços dos homens negros e fortes trazendo seu sustento do mar. Sentei e observei, por um tempo longo, a dança dos peixes se debatendo em seu último suspiro. Pensei em como eu me parecia com eles, como me debatia para me manter vivo e, de alguma forma, aquela visão me deu o fôlego necessário para continuar. Levantei-me com alguma dificuldade, porque a fome começava a mostrar suas garras.

Caminhei até um restaurante próximo e ofereci a minha força de trabalho (pausa para uma gargalhada do Gabriel, alegando que, agora descrevendo, percebeu como as palavras traem; oferecer a força de trabalho para alguém em frangalhos lhe pareceu muito engraçado). Cheguei até um senhor que pensei ser o proprietário do local e lhe disse que precisava trabalhar, explicando-lhe toda situação.

Ele sorriu e me afirmou estar em baixa estação e isso significava nenhum posto de trabalho, mandando que voltasse no início do verão. Pensei comigo, não reconhecia estação diferente de inverno, daqueles bem rigorosos, mas me recordei dos peixes e insisti. Diante da minha determinação (talvez da minha cara de fome) ele me informou que trabalharia como um faz tudo e me pagaria com comida. Claro que aceitei e me libertei das redes que os homens puxavam do mar.

Um faz tudo, para quem tem alguma dúvida, faz tudo. Varria, lavava banheiros e alguns poucos pratos, ajudava a cozinheira com as sacolas das compras. D. Alba era o nome dela que, com o passar dos dias e meses, passou a me tratar com mais atenção, assim como o patrão e, dessa forma, confiava a mim outras tarefas, além das habituais. Até me dava um agrado em dinheiro nos finais de semana.

Todo o dinheiro que ganhava eu guardava, afinal, temia ser expulso e dessa vez não seria apanhado de surpresa pelo rugir do meu interior gritando por alimento.

Logo chegou o verão e reconheci a estação pelos motivos que te conto: aumentou o número de pratos para lavar, mais sacos de lixo para levar para fora da cozinha, as sacolas da feira ficaram mais pesadas e os agrados financeiros aumentaram. Acumulei nessa época de sol intenso a função de ajudante de cozinha, D. Alba não se cansava de dizer ao patrão como eu era ágil cortando os temperos.

Cinco anos se passaram e fui aprimorando as minhas habilidades, ao mesmo tempo em que D. Alba foi ficando mais cansada. Um dia, ela não apareceu e soubemos pela sobrinha que havia passado mal e que o enterro seria no final da tarde. Um pensamento estranho me tomou, porque aquela seria a primeira vez em minha vida que alguém seria expulso em meu lugar. Fiquei com a memória de D. Alba e com seu lugar na cozinha, seu salário, seus ajudantes e clientes. Um dia teria os meus próprios clientes.

Com as coisas tomando um rumo que não sabia ao certo onde me levaria, mas que dava uma certa sensação de paz, pensei em como fotografar o momento para ter controle do meu futuro, já que os que haviam passado fizerem de mim o que bem quiseram. Com as minhas economias e minha confiança restabelecidas, decidi que estudar poderia ser meu salvo conduto.

Comecei e terminei com o orgulho de veterano de guerra e pensava em mais, queria mais porque a sensação de vitória tomava todo o meu corpo e estremecia cada vez que imaginava uma vida possível. Mudei-me para capital, fiz cursos de culinária para aperfeiçoar e aprender novas técnicas. Vocês devem estar pensando, ele finalmente se encontrou! Foi isso mesmo que aconteceu, me encontrei em algo que me fez sofrer por muito tempo, me especializei em matar a fome para dela não morrer.

Depois de um período fazendo bicos, encontrei um lugar onde poderia colocar em prática tudo que havia aprendido nos cursos. Estou lá até hoje. Lá também conheci a minha mulher que era caixa do local, mas lá também perdi minha mulher. Era um domingo, dia em que o local enchia, porém, ainda cedo ficava com poucas pessoas. Foi exatamente entre esse momento e o outro que eles entraram sem que ninguém percebesse e começaram a fazer à limpa. Inadvertidamente, a minha mulher fez um movimento para morte.

Hoje, fui à missa de sétimo dia. Acabei de chegar e sentei nessa cadeira, liguei o abajur porque meus olhos não suportariam a claridade intensa. Estou me sentido cansado, pela cabeça vagueiam tantos pensamentos e uma lembrança, a dos peixes.

Sobre a Autora:

Uma escritora que costumeiramente escreve para si, Hil Patriarcha aposentada, atua como psicanalista, sobrando-lhe algum tempo para brincar com as palavras. Há pouco tempo resolveu começar a guardar esses escritos, e agora começou a publicá-los.

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