Philosophus Tavernisticus De Hamlet à Disney



Nunca tive imersões ou epifanias literárias que mudassem minha vida.

Na música também nunca tive essas coisas que os artistas falam em entrevistas.

Sabe quando o cantor sertanejo diz para o repórter que quando ele não sentir mais aquele frio na barriga ele para de tocar?

Nunca senti frio na barriga, nem nada. Eu subia no palco, tocava e no final ia embora. Isso algumas vezes até me incomodava. Mas quando analiso minha carreira como músico, eu percebo que eu estava ali levado pelo vento do destino. Um amigo no Conservatório me ofereceu sua vaga em uma banda, aceitei, conheci algumas pessoas e fui mergulhando nesse universo.

Na literatura foi a mesma coisa, fui deixando a vida me levar.

Então, como eu possuía uma formação na área musical, quis também, buscar uma formação na Literatura. E é engraçado que apesar de ser um leitor voraz, graduado em Letras, pós-graduado em Linguagem e Literatura, eu sinto que nunca vou ter noção mínima do que é literatura. Como a produção artística humana é imensa. Isso até me assusta. Tem momentos que sinto que são livros demais, histórias demais, canções demais, filmes demais, séries demais. Ou não? Discutiremos isso outra hora...

Estou lendo Hamlet essa semana. Eu já sabia das semelhanças entre Hamlet e O Rei Leão. Sim! Aquele filme da Disney. Há uma análise disso no livro “A Jornada do Escritor” de Christopher Vogler. Recomendo: leia. Como já disse antes em algum texto: escrevemos sobre ruínas. E a cultura pop se alimenta muito disso. Desses padrões, desses enredos parecidos e tal. Mas esse não é o problema de hoje.

Hoje eu quero falar dessas interpretações que as pessoas têm de livros. “O Senhor dos Anéis”, por exemplo. Livros e mais livros falando sobre a mensagem de otimismo, amizade, o conceito de Eucatástrofe, criado por Tolkien. Para mim era um livro de delivery, prestação de serviço e tal. “O Hobbit” mais ainda, tem até contrato de prestação de serviços.

Calma! Brincadeira. Não estou menosprezando os livros que mais gosto. Estou relendo “O Senhor dos Anéis”, só parei para ler Hamlet e dar uma distraída. E fiquei pensando em todas as milhares de versões que existem. Desde Mickey com um crânio em suas mãos (Disney de novo) até comédias, novelas, com a frase repetida à exaustão, o livro que Leandro Karnal escreveu: O que aprendi com Hamlet (Bom também, recomendo), etc.

O motivo das piadas sobre os livros de Tolkien é que cada um tem uma visão diferente da obra literária. Há mensagens claras e óbvias e também há camadas que só em duas ou três lidas o leitor percebe. Tenho feito esse exercício: Ler, reler, voltar aos livros e procurar algum detalhe que deixei passar.

Vou rever o que disse lá no início: Acho que acabei de ter a tal epifania literária.

Eu estou relendo as obras mais batidas que tenho aqui na estante: O Senhor dos Anéis e Hamlet. E isso me fez lembrar: “os leitores recordistas”.

Calma! Explico. Essa categoria existe, não sei se é reconhecida como esporte, mas é praticada por muita gente.

Acho que hoje há uma ideia de ler um livro por semana, dois, três, como se fosse uma competição. Não dá tempo de a história maturar, respirar. Entrar em nossa mente, virar uma lembrança tão forte que nos confunde.

Eu me lembro, quando criança, de livros que me marcaram e era como se eu fosse testemunha de todas aquelas coisas.

Minha filha um dia assistindo um filme comigo, disse: Gostaria de viver uma aventura como essa. Acho que era Tomb Raider. Ela terminou a frase, já emendei: E quem disse que não acabamos de viver a aventura? Logo, logo vou começar a jogar RPG com ela. Aí ela vai entender mesmo o que quero dizer.

Viajar deitado no sofá. Sentir a neve caindo no rosto em pleno verão. Navegar em águas tortuosas ou em um mar cristalino. Será que dá tempo de degustar todos os pratos literários ou vivemos em um fastfood de livros? Em uma Olimpíada? A quantidade vai vencer a qualidade?

Pensem nisso, semana que vem vou retomar essa reflexão.

Até mais.

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