Resenha de "O Aprendiz de Assassino" (Robin Hobb)

Atualizado: Out 30

“Entre as inúmeras obras de fantasia lançadas atualmente,

os livros de Robin Hobb são como diamantes

num mar de falsos brilhantes.”

(George R. R. Martin)


Pronto, está feita a resenha. O que posso acrescentar a essa fala de ninguém menos do que George Martin, autor de uma das mais celebradas série de livros (e de TV, mas, essa terminou com sabor amargo) dos últimos tempos?

Não creio ser necessário dizer que receei que tamanha lisonja tenha sido um elogio vazio, desses que muitos famosos fazem a troco de algo (ou mesmo de nada), correndo até o risco de prejudicar seus prestígios. Mas, não havia por que não dar o voto de confiança. E, não posso negar, vendo minha esposa, público dos mais difíceis, ler mais entusiasmada a cada capítulo, decidi ler.

Tanta referência e expectativa pode ter prejudicado minha percepção inicial. O primeiro capítulo passou para mim arrastado e lento, e me fez cogitar parar a leitura. Para que ler um livro que não me está agradando, se a fila de leitura está tão comprida? Mas, para minha felicidade, não parei. E valeu a pena ler todo o livro, o que, definitivamente, não teve nada de sacrificante!

O romance, narrado em primeira pessoa, conta a estória cativante de um bastardo do Príncipe Herdeiro. Uma escolha da autora a que tive dificuldades para me acostumar tem a ver com os nomes. Por exemplo, conheça os principais membros da Família Real: Rei Sagaz; Príncipes Cavalaria (Herdeiro do trono), Veracidade e Majestoso; Damas Paciência, Constância, Renda etc. O bastardo passa a ser chamado simplesmente de “Fitz”, expressão de origem francesa que significa literalmente “filho de”. Levado para viver na Corte, Fitz é uma criança discreta em torno de cinco, seis anos (e assim tem que ser, para sua segurança). Mas, um dia, enquanto come restos de um banquete do dia anterior, é encontrado pelo Rei Sagaz, que o faz prestar juramento de fidelidade: torna-se um Homem do Rei, com responsabilidades e privilégios para com ele.

Fitz muda-se do estábulo onde tem morado com o Mestre dos Estábulos (e homem de confiança de seu pai, o Príncipe Cavalaria) para um quarto que ganha dentro da Torre do Cervo, junto a Família Real e membros mais próximos da Corte. Passa a ser treinado para lutar como soldado, escrever como um escriba da corte e, entre outros treinamentos, secretamente, é treinado para se tornar um assassino silencioso e eficiente.

Neste universo próprio, muito bem desenvolvido pela autora, há algumas formas de magia, a maioria não muito bem explicadas. O “Talento”, e a “Manha” são as mais bem exploradas (sim, os nomes… mas, há de se passar por cima disso, pois a leitura vale). E são magias exploradas de maneira sorrateiramente crescente, quase sem explicações. Em resumo, eu diria que a primeira permite uma ponte entre mentes humanas, com potencial que vai de comunicação a certos níveis de controle de outras pessoas, e com um grande desgaste pessoal, enquanto a segunda é uma espécie de ponte natural ente os seres vivos, dando destaque à comunicação inter-mentes com animais. Mais explicações somente virão, segundo já me prometeram, nos próximos livros.

O protagonista, por ser da linhagem Real, possui propensão para o Talento, arte mágica altamente apreciada, mas, somente permitida então à Família Real, com raras exceções. A Manha, por sua vez, se revela como extremamente natural para Fitz, mas, é vista como má, perigosa, e potencialmente perigosa, por “bestializar” seus praticantes.

E, finalmente, uma outra forma de magia, nomeada com base nas primeiras vítimas, a Forja (tá, desse nome eu gostei), e praticada pelos perigosos ilhéus salteadores dos Navios Vermelhos. Os “forjados” perdem sua humanidade, e passam a agir como bestas humanas, dispostas a qualquer coisa para satisfação própria e pessoal. Os ataques dos Navios Vermelhos se tornam uma grande chaga no Reino dos Seis Ducados, provocando conflitos entre os Ducados costeiros, que precisam de soldados e armas para proteção, e os Ducados do interior, que não querem pagar os impostos para custear a proteção de outrem.

O sistema de magia, apesar de elas não serem muito explicada, parece se aproximar mais do que Brandon Sanderson chamaria de Sistema Rígido, pois você não pode tudo e qualquer coisa com ela. E os tipos de magia, bem como a expertise dos praticantes, pode ser dominante para o seu sucesso ou insucesso, assim como as limitações envolvidas não deixam que a estória gire em torno da magia. E, no entanto, ela funciona como uma chave, importante para importantes realizações durante todo o enredo (e seu clímax).

Isto tudo, meus caros, não é sequer metade da estória, e não acho justo contar muito mais. Garanto que não contei nenhum spoiler, que não entreguei nada de relevante.

Não me sinto a pessoa ideal para dar notas, e por isso não o farei. Deixo apenas a recomendação de leitura: se você gosta de estórias fantásticas conduzidas com boa verossimilhança, ou se gosta de estórias ambientadas em contextos medievais, você não pode deixar de ler este livro! Se você gosta de bons arcos de personagem, e de romances bem escritos a ponto de não haver pontas soltas, nem nada de desnecessário, também vale muito a pena conferir! Se você gosta de acompanhar a estória com o mapa, há um suficientemente ilustrativo para que você identifique todas as referências importantes. É uma experiência bem completa, no que se propõe. Diamantes, num mar de falsos brilhantes, certamente.

Ah! O Aprendiz de Assassino é o primeiro livro da Saga do Assassino, e o exemplar que li foi publicado pela editora LeYa. Não era muito confortável a leitura, pois as letras eram miúdas, e o contraste das letras pretas pequeninas sobre o papel branco não ajudava muito. Mas, sei que há edições maiores e mais confortáveis da mesma editora (estou lendo o segundo), e que também foi publicado pelo selo Suma da Companhia das Letras. Desconheço outras edições, se há. Se você conhece, não deixa de dizer nos comentários.

Aliás, esta resenha não é patrocinada por ninguém. Editoras, LeYa e Companhia das Letras, estamos aceitando patrocínio! Patrocina o Literatura Errante! Ou o meu trabalho de realizar resenhas!

E você? Já leu O Aprendiz de Assassino? Gostou? Concorda com minha resenha? Quer se expressar a respeito? Comenta aqui em baixo! Ficarei feliz em debater sobre este livro que tanto me agradou.

Pablo Gomes, outubro de 2020

Sobre o autor:

Pernambucano, ator e escritor. Escreve em versos desde a infância e entrou de cabeça no universo dos contos e romances em 2009. Escreve em diversos gêneros, desafiando-se regularmente. Tem trabalhos em obras realistas, de fantasia, ficção histórica entre outros. Idealizou o Literatura Errante, inicialmente um blog, e tem batalhado para fazer o Literatura Errante acontecer nos novos moldes.

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