Teor Alcoólico 40%


Estava bêbada. Muito bêbada. Daquelas vezes em que a quantidade de vodka no corpo é quase proporcional à quantidade de sangue, ao menos, era o que pensava. Bêbada o suficiente para beijá-lo, para retirar cada peça de roupa. Bêbada o suficiente para ser dele. Ele. As luzes da balada piscavam em uma velocidade incomum, a música era um zumbido conhecido e o rosto dele nunca foi tão nítido. Pensou o que aconteceria se o beijasse agora, se a sua língua encontrasse a dele, se entrelaçassem e se misturassem em saliva, álcool e desejo. Do outro lado, os olhos dele encontraram os dela. Ele sabia, ela sabia. Eles simplesmente sabiam. Se ele pudesse entender o que olhos dela diziam. O quanto eles gritavam, suspiravam, gemiam. Talvez a beijasse primeiro, talvez passasse a ponta dos dedos pela sua nuca e parasse a mão em sua cintura, então, a pressionaria para perto, mais perto, nunca seria perto o suficiente. Ela colocaria a mão pequena em seu peito, faria pequenos círculos embaixo da camiseta e desceria: o nível da mão e da sanidade.

Ele sorriu para ela, do outro lado da balada. Ela sorriu de volta. O primeiro passo pareceu pesado demais, o segundo leve demais e o terceiro perto demais. “Oi?”, “Oi! Paula.” “Thiago”. Ele era de libra, ela de escorpião. Gostavam de pop, mas, às vezes, ouviam rock. Aquela era a primeira balada dele e a primeira vez dela naquela balada. Eles tinham muito em comum, eram vegetarianos, queriam dois filhos, preferiam gatos a que cachorros e suas mães se chamavam Ana. E os olhos dele, e os olhos dela. Sabiam-se. Sentaram no sofá mais perto, lado a lado, era melhor pra falar, pra ouvir. “Estou aqui porque minha amiga está indo embora, despedida dela. Europa, tão rica, acredita?”, ele riu pro drink de vinte e cinco reais na mão dela e acenou com a cabeça em sinal que sim, acreditava demais. “Eu tô aqui, porque acabei de chegar. São Paulo, sabe? Tem essa vibe boa, essa cultura toda, aí vim com uns amigos”, ela riu, porque só quem acabou de chegar em São Paulo poderia dizer da v-i-b-e b-o-a dessa cidade ruim. “Aqui não é lugar de gente, volta pra casa”, ela quis dizer, mas não disse. Vodka demais, barulho demais, tesão demais pra falar. Colocou a mão na perna dele – simplesmente, porque não sabia o que fazer com a ela. Ele posou a dele em cima e ficou parado, olhando as mãos, os nós dos dedos, as unhas. Se ela pudesse ver a vontade crescendo dentro dele, ganhando forma, ganhando força. Ela queria, ele queria. Ele queria. Ele queria ela?

Eram os olhos dele, ela não conseguia ver nada depois dos olhos dele. Ela viu tudo, e tinha olhos quase que transparentes, mas os dele... Eram olhos de sereia, cantando um canto que só ela poderia ouvir. Fechou os olhos e imaginou uma sala escura. Apenas o toque das mãos dele no corpo dela, primeiro nas costas, depois na cintura e, então, iria descendo até onde quisesse. E ela seria dele e ele dela. Ele sabia e ela sabia.

No que pareceu menos do que uma eternidade, ele tirou a mão dela da perna. Estava perto demais. Sorriu desajeitado e, pela primeira vez na noite, olhou para dentro dos olhos dela. Diretamente. Desviou o olhar e, então, viu um cara dançando perto deles. Era bonito, o cabelo caindo em cachos no rosto. O observou dançar e levantou “então tá, tchau, bom te conhecer, Carla”. “Paula”, ela sussurrou e observou enquanto o corpo dele ia indo em direção a outro corpo, as pernas dançando, o sorriso, as mãos puxando o cara para perto dele. As línguas se encontrando. Tinham sido os olhos dele, mas havia vodka demais.

Sobre a Autora:

Escritora e Mediadora Cultural, Maia Ferreira escreve contos e crônicas.



Revisão: Pamela Augusto

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