TRINTA E UM DIAS - Parte 1 (Bernardo) - 10º dia

Atualizado: Jan 23

Capitulo Parte I BERNARDO

Décimo dia – 6 de maio

“Estou em uma crise”.

“Silenciosa”.

“Ninguém percebe, apenas eu”.

“Tenho uma guerra sem armas em meu peito”.

“Tenho um massacre sem mortes em minha mente”.

Seis de maio, acordo de manhã e a única coisa que eu realmente quero fazer é continuar dormindo até um novo amanhecer, mas tenho dor de cabeça caso durma demais. Até meu corpo contém em si suas próprias regras, que limitam minha existência melancólica para o dia seis de maio.

Levanto e tomo um copo d'água. O tempo lá fora parece calmo, mas não tenho a ousadia de abrir nenhuma janela. Pego uma xícara e dirijo-me à sala, sento e tomo meu café espreitando mil e uma tarefas para o dia de hoje e, ao mesmo tempo, buscando uma desculpa aceitável para postergar mais um pouco, deixar para o próximo minuto, já que não posso postergar até o próximo milênio.

Responsabilidades, não há como fugir delas por muito tempo. Encaro a pilha de livros no braço do sofá, minhas pesquisas, meus trabalhos, minha vida e meus atalhos, ali, todos empilhados um sobre os outros, como se disputassem a prioridade. Suspiro. O sol entra pela janela e clareia a sala. Minha boca está com um gosto ácido. Olho para o chão, abaixo do holocausto de tarefas, encontro meu caderno de autorias, minhas palavras escritas, a única coisa que eu realmente sentia prazer, mas que não era suficiente para o meu viver. Passei a mão no cabelo, despenteado, pensando. Talvez pudesse dissertar por meia hora, escrever no caderno algo, qualquer coisa que tornasse tudo aquilo menos denso, pesado, e depois eu me entregaria aos afazeres do dia, leria as doutrinas e entenderia nas palavras de outros o que deveria encontrar somente nas minhas. Pego o caderno, abro na última página. Leio:

“Estou sentindo-me sozinho... Por falta de mim e de ser somente meu! Porque, sabe, eu sou dos problemas, sou dos compromissos, sou da correria ao meio dia, sem tempo para almoçar, sou do trânsito caótico e motoristas que só sabem xingar, porque eu sou da cidade desde o nascer do sol até sumir sua metade e depois eu sou do sono preparando-me silencioso para o que eles chamam de futuro honroso! Eu não estou reclamando e muito menos me gabando, mas acho que deveriam saber, que até mesmo eu, com toda essa falta de tempo para viver, ando por aí com esse sentimento de não pertencer. Digo, tenho um trabalho, tenho um atalho, tenho os domingos e tenho o infinito, mas não tenho em mim o meu próprio e único abrigo… Achei que deveriam saber, para que não cometam o mesmo erro de ter o mundo e não se ter!”.

Aquele pequeno trecho fora a última coisa que havia escrito. Não lembro-me ao certo o dia, mas lembro de como me sentia, porque ainda me sinto assim. É curioso! Não recordo-me em que parte do caminho abandonei-me, deixei meu eu perdido, escondido e saí vivendo. Não lembro em que curva da vida acabei me perdendo e não quis procurar a saída. Quando foi que comecei a viver sob as regras do mundo, dos outros, sob o viés de olhos diferentes, sob as expectativas de muita gente, mas não as minhas? Não me lembro! Mas eu acho que ser responsável não deveria conter em si a abdicação daquilo que temos como único dentro do coração, ser responsável deveria conter a lealdade de se ser autêntico, porque enquanto eu nego meus ideias para ser como os demais, acabo por me perder cada vez mais.

Levantei. Abandonei o café. Abandonei a escrita. Abandonei a fé e acho que em partes abandonei a vida que continha nos meus sonhos, para seguir a vida que continha a responsabilidade de ser a prova, de quem sabe, no mundo, alcançar uma possibilidade. Peguei os livros. Voltei às regras. Abandonei a crítica, fiquei às cegas, naquelas palavras que já foram escritas por mentes antigas, criativas, mas que não foram condenadas por serem diferentes das massas. Hoje a regra sempre será a igualdade e o destoante é visto com olhos de maldade.

Entenda, eu gosto de minhas “escolhas”, meu curso, minha faculdade, meu rumo. Mas hoje, nesta manhã do dia seis de maio, só queria ter o gosto de viver um pouquinho fora dos prazos que todos colocam sob o meu caminho!

Então eu vou para a faculdade, realizo trabalhos de qualidade, tenho elogios a pronta entrega e alguns olhares de soslaio me condenando, às cegas. Continuo dando o meu melhor e sendo extremamente competente, carregando rente aos braços todos os meus melhores requisitos, entretanto, quando os professores apertam minha mão pelo excelente projeto e os colegas dão graças por estarem no mesmo grupo, sinto um gosto de nada na boca, como se eu fosse um experimento, um método, algo que agrada a todos, que todos admiram, mas que não contém em si nenhuma utilidade aparente. Um experimento que deixa todos atentos, por fazer o máximo e atender às expectativas, mas que não tem nenhuma identidade própria e nenhum propósito a vista!

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


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