TRINTA E UM DIAS - Parte 1 (Bernardo) - 12º dia



Capitulo Parte I BERNARDO

Décimo segundo dia - Tem dias que até os sonâmbulos acordam!

Hoje eu busquei lá no fundo as palavras de um poeta. Não lembro seu nome, mas sei que, como todo poeta, escrever era sua meta! Procurei uma frase que ele disse em um momento qualquer, em uma entrevista sem importância: “Escritores nascem feitos!”. Essa foi a frase que ficou-me como herança. No entanto, mesmo em meio à turbulência das palavras, eu ainda me questiono: será que elas são tão boas assim? O que as palavras têm para com a minha pessoa? Se tenho uma afinidade com elas pergunto-me em quanto tempo irei perdê-las, porque eu sou um especialista em perdas, nada fica e tudo se vai!

Gosto de rabiscar em cadernos diversos palavras que não tenho a coragem de dizer para o mundo ou para mim mesmo, gosto de fazer rimas e tornar tudo aquilo tão musical, pois assim eu posso fugir um pouco do caos do mundo. Em algum momento da sua vida você vai olhar para trás e vai se perguntar no que você é realmente bom, qual é a sua grande ou ínfima contribuição. Nem sempre teremos as respostas ou, às vezes, as teremos mas não nelas confiaremos. Por que temos essa mania de mitigar as nossas próprias qualidades, de colocar a sorte todas as nossas verdades e de terminar sem acreditar em tudo do que somos capazes.

Eu tenho uma amiga de infância, o nome dela é Juliana. Ela sempre foi uma boa amiga, embora eu fosse um péssimo… E tenho vergonha de admitir isso! Entretanto, hoje, enquanto estava sentado no sofá da sala, encarando a parede, tomando um café, não esperando nada de mim e nem de ninguém, recebi uma ligação:

“Juliana”.

O telefone toca uma, duas, três vezes. Olho a tela e me preparo, porque eu sei, sempre fui de deixar a porta aberta, o divã preparado e os conselhos bem organizados, porque eu era um mau amigo e tudo que eles podiam esperar de mim não eram festas, visitas, momentos, músicas e nem nada que envolva minha aparição social, porque tudo que eles podiam realmente esperar de mim era ser bem aconselhados! Irônico não é mesmo? Ficar distante, sozinho, olhando de longe todos se divertindo, esperando que, em algum momento, a festa torne-se chata, a presença pesada e o espírito confuso, então abre-se a cena do meu ato e os conselhos eram o meu melhor espetáculo!

— Alô?

— Oi, Bernardo, preciso conversar.

— O que aconteceu, Ju?

— Vamos falar sobre dependências?

Ela sempre foi assim, ligada em analogias e, em momentos de crise, gostava de explicar tudo de forma poética, relacionando cada momento em uma comparação com algo completamente fora do contexto, mas que de algum modo ela conseguia achar uma conexão. Então começamos a falar sobre dependências para, no fim, desembocar em algum acontecimento relativo à vida pessoal dela:

— Bernardo, por que você é assim?

— Assim como?

— Você não se cansa de escrever o tempo todo, mesmo que ninguém ligue ou leia, mesmo que seja uma coisa pequena e que não vai agregar nada para você?

— Por qual motivo acha isso?

— Eu vejo! Seus livros nas plataformas digitais sem nem um mero acesso além dos seus, vejo como você fica apático com isso e, ao mesmo tempo, vejo como a sua vida depende disso.

— Acha que sou um dependente da escrita?

— Acho que você gosta de se agarrar a um sonho de criança, umas palavras bonitas. Era legal quando os professores elogiavam sua escrita, mas agora você tem 21 anos e uma vida, que independente da sua vontade, precisa ser vivida e projetada.

— Não é dependência, talvez seja esperança, fazer algo de que se gosta e ir com tudo, acreditar que se algo depende somente de você, pode acontecer.

— Você acha que vale a pena arriscar tudo pela sua felicidade, ir com tudo e acabar deixando outras coisas, coisas mais importantes tipo a faculdade, acabar deixando isso em segundo plano?

— Não, mas eu acho que se não tentar hoje, não tentar escrever quando as ideias aparecem, não enfrentar a primeira publicação e também não saborear a derrota… Mesmo que lá na frente tenha um futuro brilhante, a única coisa que você tinha um prazer e fazia sem pensar em mais nada, aquela única coisa que você abandonou no meio da estrada… Pode te assombrar para sempre.

— Eu não acho certo, ser dependente de um sonho, coisa que você pode deixar para depois e, mesmo assim, preferir viver se subjugando a meras expectativas… Às vezes você pode achar que está sendo feliz, porém é apenas a vítima de um grande ilusão!

— O que quer dizer com isso, Ju? Você também escreve?

Eu sabia que não, sabia que os motivos que a levaram aquela ligação não eram nada relacionados com o meu ofício, todavia ela precisava da realidade e, para enfrentá-la, como sempre… Ela criou um belo enredo. Porque algumas pessoas precisam de artifícios, pontes lógicas, um rodeio sem precedentes para, enfim, encarar a coisa em si. Ela continuou:

— Não! Só queria entender, porque se entrega para leitores fictícios, pessoas que talvez nunca possam retribuir esse ato.

— Porque eu não busco retribuição. Na verdade, estaria mentindo se dissesse que não importa se ninguém me ler. Entretanto, importa sim! Posso não buscar a retribuição, mas tenho um tremendo medo de passar despercebido, ser esquecido, mesmo depois de ter tentado tanto e enfrentado tudo…

— Então você busca algo, algo recíproco, mesmo que seja uma leitura ou escrita, você quer reciprocidade. Ninguém mais faz nada por pura vontade de ser altruísta…

— Não é bem assim! Contudo, ouso dizer que, nas relações humanas, buscar um mínimo de recíproca é como demonstrar amor-próprio, como valorizar o ato e também a vontade de realizá-lo. Até mesmos os altruístas são motivados pela vontade e, querendo ou não, uma vontade sempre requer recíproca.

— Entendi.

Silêncio. Ela não estava bem e agora era o momento de desarmar todos aqueles argumentos e conduzi-la para a trilha das falas diretas. “Chega, Juliana, hora parar com os rodeios análogos e dizer o que causa seus abalos”. Indaguei:

— Acha possível não valorizar a recíproca e, mesmo assim, conter amor-próprio?

— Bernardo, às vezes, o amor pelo outro é o suficiente!

— Sim… Eu acredito nisso, mas amar alguém mais do que a si mesmo, isso não é considerado uma forma de amor e sim de apego…

Ela começou a chorar. Senti, naquele momento, que havia atingido o ponto cego, agora deveria esperar pela reação. Algumas pessoas precisam de muitas palavras antes de realmente dizerem “aquelas palavras”. Ouvi um ou dois soluços até que ela começou a falar:

— É o Diego... Eu fiz tudo por nós, pelo nosso relacionamento e ele me disse muitas coisas cruéis, disse que eu estou estragando a vida dele e que eu deveria ser mais grata por ele estar comigo e chorar menos.

Apenas continuei em silêncio e deixei ela falar, ela precisava falar:

— Ele estava estranho comigo e eu perguntei o porquê, então ele disse que um colega do trabalho dele tinha dito que eu havia ficado com ele e isso foi antes do nosso relacionamento começar, mas eu só beijei ele em uma festa e ele disse para o Diego, que foi mais que isso… Ele veio me falar que é muito constrangedor ter de ficar ouvindo essas coisas de um amigo, que eu não deveria ter feito aquilo! Eu falei mais de três vezes que foi só um beijo e ele veio dizer que os amigos dele que ouviram a conversa agora estão falando um monte de coisas sobre mim e que é difícil pra ele e muito chato também ficar ouvindo tudo isso, ele ainda falou que, por um erro meu, a imagem dele também ficaria manchada!

— Então eu pedi sabe, pedi que ele me defendesse ou pelo menos não acreditasse em tudo que ouvisse ou que as pessoas falassem e foi aí que… Aí que ele gritou comigo! Perguntou aos berros se eu queria que ele brigasse ou saísse na porrada com os amigos do peito, ele disse que eu era uma completa egoísta...


Neste ponto, a voz dela já estava como um grito que não foi abafado, sentia como se, naquela ligação, à medida que ela falava, senti como se houvesse uma mão em sua garganta, um punho forte apertando-a, e o ar dela já sumindo, a voz ficando rouca. Senti, naquele momento, como se o abuso de um relacionamento, como se aquele abuso que estava sendo relatado, mesmo com a atitude tomada por ela de falar tudo aquilo, fosse uma dolorosa luta contra a mão que supria suas palavras e, ao mesmo tempo, agarrava seus sentimentos! Minha mão se fechou em punho, ela sempre foi tão viva e encantada com o amor que era difícil acreditar que agora ela tinha se tornado uma vítima… Talvez depois disso ficassem algumas cicatrizes e eu achei que tudo estava tão errado, um tremendo pecado marcar um coração que um dia amou e também já foi, ou talvez não, amado!

Do outro lado da linha ela deu uns gritos abafados, como se estivessem sendo suprimidos pela palma de sua mão e por Deus. Ela chorava tanto que eu achei, por um momento, que tinha acabado de falar, mas ela continuou. Deu um suspiro forte e fungou pelo nariz trancado de tanto chorar:

— Sabe, Bernardo… Acho que eu sou uma dependente, uma completa dependente desse amor de adolescente! Eu amei ele por tanto tempo, nunca pedi nada em troca, apenas que ele estivesse ao meu lado… achava que era um amor de verdade porque eu nunca pedia nada em troca, achava que sozinha poderia criar uma recíproca própria… Então depois disso aconteceram mais coisas e eu não reclamei mais, continuei em silêncio, porque eu tinha medo de falar, tinha medo de falar e ele me culpar por tudo e ir embora.

Então ela parou. Senti que essa era a minha deixa e perguntei:

— Ele fez mais alguma coisa?

Silêncio...

Há uma coisa engraçada sobre as pessoas: elas preferem perder tudo de si e apostar a favor, do que se prevenirem dando um passo para trás. Elas romantizam sobre arriscar-se e entregar tudo de você no processo do amar, mas não te ensinam o quando pode doer caso você acabe doando tudo e ficando sem nada para receber!

Ela estava chorando e, de algum modo, queria dizer algo bonito, algo que pudesse apaziguar as dores em seu peito, queria recorrer aos clichês.

“Se você ama, lute por esse amor com mais força e gana”.

“Só se esforce mais um pouco que o produto do esforço é a felicidade que cabe no bolso”.

Uma pena que ninguém nunca parou para pensar que uma felicidade que cabe em um bolso é pequena demais para uma vida... O romance é um trem desgovernado de frases prontas e piegas, de ilusões que podem conduzir o apaixonado a uma grande queda.

Então, lá vou eu e, me perdoem os romancistas da atualidade, perdoem os músicos com sua sagacidade, mas eu não vou enaltecer um amor eivado de vícios, porque ela é uma mulher que merece muito mais que isto!

— Escuta, Ju! No fundo eu sei que é difícil, aceitar que o amor investido não vai render lucros, mas isso não pode, em hipótese nenhuma, te levar à falência, porque é isso que vai acontecer se continuar insistindo, vai caminhar para a falência emocional!

Ela parou de chorar, acho que isso era um bom começo, então continuei:

— Não precisa se forçar, porque o término tem seu tempo para se executar, mas queria dizer antes de tudo que: a culpa não é sua, na verdade não tem culpado nessa relação de causalidade, porque não se pode forçar a recíproca e também não se pode suprimir uma despedida... Você e ele tiveram uma história, que não foi assim tão conto de fadas, você vai sair dessa com a certeza de que esgotou todas as suas fichas, não havia mais tentativas, vai sair vitoriosa por ter tentado tudo e por não denegrir o sentimento como ele o fez! Vai sair dessa relação de forma madura, com o coração meio assim machucado, mas vai sair melhor do que ele, que precisou diminuir sua dignidade na ausência do amor... Ele ainda vai evoluir e aprender que não é assim que se encerra uma história, mas você, você vai sair com todo reconhecimento do seu próprio potencial e nunca mais vai deixar nenhum homem fazer-te sentir assim tão mal.

Ela me interrompeu:

— Mas eu amo ele, Be! Eu amo ele demais...

— Você pode amar ele o quanto quiser, mas não pode, em hipótese nenhuma, deixar o seu amor, porque se deixar o seu amor, ai sim tudo será uma grande mentira... Você vai mentir para si mesma e usar a desculpa que o ama, mas, na verdade, infelizmente, o que você ama não existe mais nessa atual realidade!

— Você me acha dependente?

— A dependência é consequência natural do tempo. Todos nós somos dependentes sedentos. Por exemplo, dependemos do ar para respirar, dependemos da água para hidratar e da comida para alimentar... A verdade sobre a dependência é que ela é boa quando nos traz a essencialidade, quando agrega à nossa vida um benefício, você só pode depender do inevitável, então Ju, depender do amor não é algo saudável, porque você com certeza vai viver sem o Diego, mas pode não viver caso continue nessa situação, caso você acabe por confundir a realidade com imaginação, caso você espere demais e termine sem tempo para ação.

Ouvi ela suspirar fundo do outro lado da linha, então disse:

— Entendi... Obrigada por não mentir!

Desligou.

É verdade, não menti, mas sabia que era isso que ela queria, queria uma ponte de palavras condescendentes que a levariam direto para o relacionamento, para tentativas e tentativas que só tirariam cada vez mais de sua vida, não sei se ela vai seguir meus conselhos não sei se ela vai ver através do reflexo de casal perfeito que ela mesma pintou no próprio espelho, porque no fim... Apenas quem vive sabe realmente cada mero e pequeno detalhe do que sente e é claro que eu não saberia. Queria muito poder escolher por ela, queria poder evitar todo aquele sufoco e sofrimento.

“Mas a verdade é que não existe essa de escolher por alguém, não há como salvar aquele que se afoga se ele não se esforçar para ao menos agarrar a boia...”.

Espero que você consiga perceber, que não é essencial a presença de um outro ser humano para o seu viver, afinal, se fosse assim, nasceríamos ao pares e os amores de verdade não machucariam e nem criariam hematomas no corpo, na vida... Permita-se sentir os sintomas de uma boa e devida despedida.

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


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