TRINTA E UM DIAS - Parte 1 (Bernardo) - 14º dia

Atualizado: Fev 14

Capitulo Parte I BERNARDO

Décimo quarto dia

O corpo e a mente são as coisas mais fugazes do universo. Quisera eu dizer que são totalmente controláveis e que são fáceis de lidar, mas a verdade mais pura é que somos universos, singulares universos que uma hora ou outra enfrentam seus big bangs, se transformam a partir da derrota e vêem no próprio holocausto a melhor forma de se recriar. E seja pelo fogo, pelo gelo, seja pela ausência ou pela indiferença, seja por si próprio ou simplesmente por um outro alguém, nós sempre vamos explodir de forma intensa, beirar a loucura, achar que estamos fadados à morte e ao fracasso e, no dia seguinte a tudo isso, iremos acordar, levantar e perceber que criamos certas imunidades, porquanto, no fim das contas, aquele ontem insuportável passou, você não morreu, você acordou no dia seguinte e sobreviveu.

Todos os seres humanos são dotados de medo. Alguns medos são até mesmo limitadores de sonhos. Nós temos essa incessante vontade de nos provar perante o mundo e às pessoas, porque brigamos constantemente pelo lugar que pertencemos ou pelo que queremos pertencer, entretanto a questão principal sempre é: você merece o que tanto quer?

Já andou descalço sob o asfalto quente? Sentiu seus pés queimando e ardendo, encolheu os dedos, tentou andar sobre os calcanhares, ainda assim sentia aquela sensação de ardência horrível? Só que você continuou, mesmo machucando, ardendo e queimando, você continua a andar porque tem um destino, um lugar para chegar e eu sei, às vezes você para em uma sombra geladinha e descansa, sua mente inventa mil e um benefícios sobre ficar onde está e então você quase se convence de que é melhor mesmo, permanecer ali, não prosseguir... Mas a verdade é que somos programados para ceder às nossas emoções e, às vezes, a ambição vale um pé queimado, uma dor de percurso. Às vezes um sonho vale o sacrifício.

Como saber? Posso correr e queimar meus pés, criar bolhas e, no final, não ser tudo aquilo, talvez almeje o pote de ouro no fim da luta, porém termine apenas com alguns hematomas da disputa e o que quero dizer é que não tem garantia, nunca há uma garantia viva de que realmente o prêmio vá valer o esforço e de que a dor vai ser recompensada e é aí que se encontra a diferença: aqueles que realmente têm a coragem não vão se abalar pela incerteza da recompensa, eles irão com tudo o que tem, olharão as cicatrizes e se lembrarão delas como a gratificação por não desistir, por correr atrás do que o seu coração quer e, principalmente, por transcender os próprios limites no percurso, porque algumas gratificações não são passíveis de vista e sim de sentimentos.

Hoje encaminhei-me para a biblioteca da cidade, sentei-me rente uma mesa e tentei, com todos os meus esforços inúteis, escrever uma página. Queria passar algo, qualquer coisa, queria provar que posso escrever e ser bom nisso. Infelizmente, nada saiu, escrevi um monte de baboseiras e rimas vazias de mim e, naquele momento, senti que o que eu mais queria, era aquilo que não me pertencia, pois desejava o controle das palavras, das emoções, queria passar algum sentimento mesmo estando com o peito vazio e cansado. Então percebi que não adianta, não importa o verso ser bonito se as emoções são falsas, não basta a escrita ser regrada se a vida é criminosa, não dá para encher as linhas com sentimentos inexistentes, porque a mágica da escrita é poder encher palavras, é poder colocar nelas a emoção que trava em cada história que foi contada, mas se você não tem nada... A mentira te esvazia ainda mais!

Então eu surtei, perdi meu controle, relembrei fatos antigos, deixei vir à tona tudo que havia reprimido e foi aí que senti, de forma devagar e tortuosa, meu mundo ir rumo ao abismo. Às vezes ceder é um ato de coragem, chorar e espernear demonstra a sua valentia, pois nem todos no mundo aguentam um abalo sísmico emocional, porque é fácil se esconder, é fácil sorrir e dizer que está tudo bem, mais fácil ainda é aconselhar os outros para esquecer de si mesmo...

Eu tinha motivos para quebrar? Ah, o erro do mundo é achar que todas as pessoas precisam de um motivo forte para sentir. Nós podemos apenas sentar em um banco no meio da praça mais linda, com crianças brincando ao nosso redor e vendedores de sorvete naqueles caminhões com música, podemos apenas estar neste cenário perfeito e, ainda assim, chorar, pelo simples motivo de que “não existem regras para sentir, somos humanos, somos bem capazes de desaguar mares de emoções sem justificar a nossa maré alta, porque no fim, a força natural da vida é a intensidade e ela precisa ser sentida”.

Foi então que decidi admitir, sem palavras brandas e sem mentir,

que estava à beira do meu limite, porque se tivesse chegado nele estaria gritando e chorando em posição fetal no chão daquela biblioteca, mas não… Estava apenas sentado, quieto, engolindo o choro preso na garganta e reprimindo cada vontade de gritar. Havia pessoas ali, pessoas de verdade, rindo e brincando, conversando, estava no meio daquilo tudo, estava ruindo, estava com o emocional em entulhos, estava preocupado, com medo, aflito com as mãos em gelo, meu olhar já era de alguém que desistiu de tudo e ainda assim tentava, mesmo assim e com tudo isso… Com todo esse holocausto emocional, ninguém percebeu, ninguém me olhou, ninguém me viu, estava entre eles, mas era invisível para eles.

Peguei meu caderno novamente, um lápis e comecei a escrever, tentei colocar para fora tudo aquilo, tentei amenizar aquele sufoco no meu peito, tentei segurar com braços frágeis e cansados o meu próprio mundo, tentei não desmoronar, tentei ficar firme.

Deus, por favor, me ajuda a controlar! Eu não posso ceder, não quero perder para uma cabeça ferrada e um coração massacrado… Eu consigo! Consigo ignorar tudo isso, prometo nunca mais reclamar, prometo nunca mais remir minhas dores, prometo nunca mais … Prometo nunca… Prometo… Prome… Pro-

Queria que a piedade me atingisse na boca do estômago, queria receber um soco na cara, mesmo que fosse um soco de piedade,

porque em alguns dias eu vejo o inferno, não, não é aquele inferno mitológico que as religiões retratam, alguns dias eu sou o meu próprio inferno e ninguém vê isso, ninguém entende, porque esse tipo de situação só consegue compreender quem sente e esse sentir nunca é igual aos demais. Somos individualmente fadados a sentir, talvez a mesma coisa de modos diferentes, como uma estatística falha que varia de pessoa para pessoa, no entanto estava determinado a não me render e aguentar aquela torrente da forma mais digna possível.

“Você pode desistir, pode jogar a toalha e rolar no chão, pode acabar com seu próprio mundo ou pode sentar e ficar assistindo ele ruir, pode também ser esmagado por ele… Você pode sucumbir de inúmeras formas diferentes, mas para lutar, para lutar só resta uma única opção: RESISTIR!”.

Flagrei os olhos de uma menina me fitando. Ela estava entre as prateleiras de livros, segurando alguns exemplares embaixo do braço esquerdo, não consegui ver direito seu rosto, no entanto a impressão de que a conhecia me invadiu. Parecia que ela queria se aproximar, parecia que ela estava vendo além de mim... Meu celular vibra, vejo a mensagem de uma amiga dizendo que precisa conversar, ótimo, peguei meus escombros, os coloquei de lado, suavizei meu rosto, levantei e fui embora, deixando a menina com um vinco na testa, talvez ela se pergunte o que fez minha mudança repentina e aqui vai minha resposta:

“Sentir é um estado passageiro, sofrer é um aprendizado corriqueiro, você se quebra e se reconstrói, você sente a queda para saber o quanto dói e então levanta e busca a todo custo evitar que aquilo aconteça com quem você ama. Será que é uma forma de fuga? Talvez! Mas quem disse que fugir é errado? Para mim o maior pecado é prolongar um estado que só te deixa para baixo. Estava no olho do furacão, sabia a imensidão do estrago e agora... Agora chegou a hora de abandoná-lo.”

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


11 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
 
  • Facebook
  • Instagram
  • YouTube
  • Tumblr

©2020, Literatura Errante®, por Instituto dos Artistas Errantes.