TRINTA E UM DIAS - Parte 1 (Bernardo) - 2º dia

Capitulo Parte I BERNARDO

Segundo dia - A menina de cadarços tortos

Vejo aquela figura singular aproximar-se de um dos bancos da praça, carregada com livros que, se empilhados, poderiam ser maiores que ela, e andando de um jeito descabido e singular, como quem pisa com cuidado, anda sobre ovos e busca, como criança, evitar a todo custo as linhas do chão. Ela vestia uma saia até os joelhos, colorida e bem alegre, em tons quentes, como amarelo e vermelho, sua blusa, de alças, era feita de linho, com um tom de amarelo sol queimado, tinha, rente o busto, algumas cordinhas que estavam entrelaçadas e cheias de nós, como fones de ouvidos quando colocados em um bolso, espremidos.

A parte mais interessante sobre ela não eram as roupas alegres e o olhar triste, não eram os óculos de grau enormes e muito menos aquele cabelo em tons ruivos, desbotados. O que realmente chamou minha atenção não foram os livros enormes, a pisada tortinha que evitava, a todo custo, aquelas linhas, mas sim os seus pés calçados com um estranho tênis botinha, vermelho mais vivo do que em suas roupas e cadarços completamente emaranhados, tortos e enlaçados, piores... piores que os nós em sua blusa, muito piores do que sua má postura… Em um pé tão pequenino, um tênis tão limpinho e aqueles cadarços para estragar toda a moldura que minha mente formava.

Ela sentou-se no banco, colocou os livros enormes em seu colo, retirou os óculos e, depois de limpá-los, colocou-os de volta. Ela tinha grandes olheiras roxas que, por um breve momento, foram expostas, e o gesto seguinte pegou-me de surpresa: ela ergueu as pernas, deixou os pés se encostarem ponta a ponta, formando um V de cabeça para baixo e ali, por alguns momentos ínfimos, fitou firmemente aqueles cadarços!

Intrigado com sua postura continuei a olhá-la de soslaio e ela suspirou fundo, foi descendo os pés de forma bem vagarosa e deixou-os tocar o chão como se tocassem também a realidade, ergueu a cabeça e fitou o céu que já estava escurecendo, estrelas brotando-lhes início noite adentro, contudo sem me olhar ela disse:

¾ Já se apaixonou por um livro?

Aquela pergunta era mais que retórica. Ela murmurava bem baixo, como o som de quem fala para dentro, porém o silêncio após aquela fala compeliu minha língua por entre os dentes cerrados e quando dei por mim já havia, em resposta, falado:

— Não! Mas imagino que estes sobre seu colo sejam os seus mais novos amores?

Ela não disse nada, ficou ali parada, quieta, ainda com a cabeça erguida para o céu. Sua pequena mão pousou a palma em cima dos livros, os cinco dedos descendo um por vez até que tocassem em completo aquela capa dura e cheia de palavras, ela balançou os pezinhos para frente e para trás, frente e trás, como uma criança sentada em um balanço. Desisti de aguardar uma resposta e desviei o olhar, perguntando-me se realmente a pergunta fora para minha pessoa.

— As pessoas só se apaixonam por aquilo que não mais podem ter e quando elas percebem que vão perder, tentam loucamente abraçar o mundo, com gestos brandos e quentes…

Aquela resposta não fora para minha pergunta... Ou fora? Não entendia aquela menina e muito menos seu tom de falar, não entendia os livros grossos sem nem sequer um marcador de páginas. Estavam intactos, como se nunca os tivesse aberto, nem sequer para ler-lhes o prefácio! Continuei em silêncio e com medo encará-la! Contudo ela rompeu o silêncio mais uma vez:

— As pessoas também dizem que o tempo ensina tudo, que as coisas acontecem por um propósito e que sempre ensinam algo… Eu queria poder ensinar alguém também, queria poder ensinar da mesma maneira que fui ensinada…

Ela parou por ali, deixando um silvo no ar, como se a continuação da fala fosse iminente, como se estivesse na ponta da língua, mas nada disse e eu também não disse nada, fiquei absorto naquelas palavras e algo me dizia que ela falava mais consigo do que comigo.

Ela levantou com aqueles passos pequenos e foi se afastando lentamente, não olhou para trás e seus dedos apertaram firmemente aqueles livros, como se ela segurasse entre eles um motivo. Fiquei me perguntando: que motivo seria?

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


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