TRINTA E UM DIAS - Parte 1 (Bernardo) - 3º dia

Capitulo Parte I BERNARDO

Terceiro dia

Minha cabeça torce contra mim. Minha capacidade é evidente, minha vontade é complacente, mas minha mente… Ela às vezes se revela, fica a esmo de minhas tentativas é uma briga louca e interna, são ansiedades e crises de pânico nada serenas e mesmo assim, na verdade, com tudo isso, ainda estou aqui, jogando um xadrez, apostando peças de risco, contra meu próprio estado psíquico!

Não sei porque voltei até lá, até aquela praça. Tenho essa mania incessante de me sentir seguro no passado, nos atos que já foram apresentados e eu continuo a procura de respostas futuras, em lugares que já estive e a redundância é tão grande! Estava confuso, buscando o meu próprio fuso, meu encaixe, meu futuro, queria o sucesso e, ao mesmo tempo, não lutava contra o fracasso… então apenas fui, fui para aquela praça, com as palavras da menina na cabeça, sobre como os humanos são valorosos com aquilo que sabem que vão perder, o arrependimento tem mais poder que o próprio desejo. Não sabia que iria encontrá-la e, na verdade, eu não planejara nada, apenas voltei para aquele lugar que não continua nenhuma surpresa: era o que eu imaginava!

A surpresa é algo intrigante, porque ela só acontece se a escolhermos, todo acontecimento e todo ato gera uma reviravolta, então nada é surpresa, são apenas as coisas que fazemos que, de algum jeito, voltam para nós, mas gostamos de fingir que foi surpresa, que foi inusitado e que não era algo de fato esperado. Contudo, a verdade mais segura do mundo é que todos nós, estamos, sempre, à espera de algo.

Desculpem-me as emoções conturbadas e as minhas irônicas piadas, gosto de caçoar de mim mesmo, pois assim não flagro risos a esmo, eu os faço e, por volta, os espero. Sentei naquele banco velho, eram quatro ou seis da tarde. Estava com um gosto amargo na boca, balançava a perna em um tique de ansiedade, meu coração e minha cabeça estavam guerreando pelo meu corpo, sua única cidade natal… Alguns que olham-me, de longe, pensam o quanto aquele meu estado é normal, tenho vontade de gritar como um louco, ser taxado até de doido, mas, por favor, não me olhem como se eu fosse normal, como se todo esse caos fosse normal, porque eu acredito que não aguentariam passar vinte e um anos neste tipo de normalidade!

Vejo aquela menina se aproximando, não, não era ela, era uma garota que se aproximava, não tinha roupas em cores quentes, porém ainda usava os mesmos tênis: ALL Stars vermelhos tomate, entretanto algo estava errado porque a cena já havia se apresentado, mas como em um jogo dos sete erros podia perfeitamente apontar todos as percepções ausentes… Ela andava devagar, sem saltitar ou pisar tortinho, suas mãos não seguravam livros maiores que o mundo e seus olhos, seus olhos estavam escondidos por detrás de um óculos escuro, por Deus! Quem usa óculos escuros as quatro ou seis da tarde? O sol já está se despedindo, as sombras negras crescendo e tomando conta de tudo, a escuridão não precisa desse cômico escudo que ela usava; Ainda assim, cometi um erro ao olhar em suas mãos, ansiando pelos objetos grandes e empilhados. Não pude enxergar a fina varinha em sua mão magrinha e esquerda. Pois é, se alguém nesse parque é bom de INFERÊNCIAS, FALEM PARA QUE EU PERCEBA!

Contudo ela continuou seus passos miúdos, até encontrar o mesmo banco da outra vez e sentar-se do mesmo modo, inclinando a cabeça igual ao outro dia. A única diferença era que ela nada via e, como no passado, ela falou aos ventos, não sendo direta ao perguntar:

— Você está aí?

Aquele dia. Aquele parque. Aquele passado errado. Aquela segurança. Aquela menina cheia de esperança. Tudo mentira de maneira nada comedida. Impeli a voz garganta seca afora e disse:

— Está falando comigo?

Sabem bem a diferença? Da primeira vez apenas respondi, voz altiva, não me contive, disse sem saber o endereço da fala, mas agora, naquele estado, eu perguntei em tom brando, com cuidado, porque o defeito que era visível fez-me cometer este grande e irreparável pecado. Ela deu um sorriso, triste sorriso, disse tentando manter o tom firme:

— Está surpreso?

— Odeio essa palavra.

Eu não odiava, mas desgostava daquela falha na minha definição de surpresa, por que qual foi a minha escolha que levou àquela cegueira?

— Eu te disse, lembra, disse que o valor dispõe a perda, a humanidade… Eu não era uma exceção!

Ao ouvir ela dizer isso e querendo mudar de assunto, trocar o rumo da conversa, eu disse:

— Surpresas não existem, elas são consequências de atos esquecidos…

— Concordo com você! Isto (ela levantou a bengala) não é uma surpresa para mim e nem para você, afinal você escolheu voltar ao mesmo parque, sentar no mesmo banco e olhar na mesma direção.

— Perdeu seus amores?

— Tentei abraçar todos eles, mas o tempo não deixou e meus braços eram curtos demais.

— Porque não tinha nenhum marcador de páginas?

— Eu te disse… Entramos em desespero quando percebemos que a perda é iminente, tentamos amar tudo quanto é coisa que se vai e acabamos sem conseguir amar efetivamente uma única em detrimento das outras…

— O desespero sacrifica a qualidade do ato de amar, pela quantidade de coisas a serem amadas

— Exatamente.

Ela disse a última palavra e suspirou profundamente. Aquilo era verdade: quantas vezes ficou tão atordoado, buscando o máximo, que se esqueceu que o singular pode ser melhor apreciado? Ela, pelo visto, não havia terminado nenhum daqueles livros, não havia sequer chegado ao meio das enormes páginas. Interrompendo meu pensamento ela disse:

— A ganância obscurece o amor, o valor só vem com a premeditada dor da perda e eu não terminei nenhuma daquelas histórias, não passei do prólogo para dizer a verdade… Meu desespero era ler o maior número de livros, tantos quanto pudesse, que me esqueci que os livros, em si, carregam histórias e agora que não posso mais enxergar, não tenho nenhuma história guardada para contar!

Tive a impressão de que lágrimas escorreram pela bochecha dela e senti vontade de abraçá-la, mas não detinha esse direito. Há algum tempo, sozinho no parque, preocupava-me com minha desordem emocional, como queria que as pessoas sentissem a intensidade das minhas dores, como queria propagar o entendimento do que é ser ansioso, depressivo, incontrolável e acabei por me esquecer que antes de buscar o entendimento das massas, deveria me auto entender, porque aquela garota estava correta e eu só passei a valorizar o autocontrole, a independência mental e a psique saudável depois que, em algum momento, a perdi… Céus! Estava tão focado no lamentável estado mental do presente, que esqueci-me completamente de como um dia, no passado, ontem, anteontem, em meio às crises eu acordei no hoje, confuso, mas melhor que ontem, não percebi a sutil mudança evolutiva da minha própria e significativa vida!

Bufei e ela ouviu, então deu um meio sorriso e foi lentamente se levantando, ficou em pé e antes de dar o primeiro passo eu perguntei:

— O que tirou sua visão?

— Não devia me preocupar com o que a tirou e sim em como vou enxergar por outros meios…

— Você já sabia, aquele dia dos livros?

— Eu tentei abraçar o mundo, não é!?

Ela foi se afastando devagar e com cuidado para não tropeçar, voltei a atenção aos seus pés e percebi que aqueles cadarços tortos agora estavam perfeitamente alinhados, dei uma risada. Ela queria deixar uma lição para alguém e nem percebeu que professou para um estranho no parque o valor das coisas presentes, o entendimento das passadas e a construção das futuras…

Menina dos cadarços tortos, você ensinou, não sei se foi da forma tal qual fora ensinada, mas ensinou como quem não quer nada. Fiquei olhando ela se afastar, sabendo que depois daquele dia nós dois nunca mais iríamos nos encontrar, porque cada pessoa fica o tempo certo para te ensinar algo.!

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


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