TRINTA E UM DIAS - Parte 1 (Bernardo) - 7º dia

Capitulo Parte I BERNARDO

Sétimo dia

Andando a caminho do metrô, deparei-me com a seguinte frase pichada em um muro: “As pessoas são tóxicas, não seja como elas!”. Aquela frase era um pedido de socorro, alguém profanou aquele muro branco com tinta preta que escorreu até secar, naquela frase, naquele desespero, naquele clamor por algo, ou por alguém que seja de fato verdadeiro.

Você seria capaz de gritar seus medos e pedir com os olhos brilhantes como a inocência de uma criança? Pedindo de forma branda, seria capaz de dizer ao mundo o que machuca ou te sufoca? Seria capaz de pedir por algo, um complemento, uma forma de transcender? Você seria capaz de, verdadeiramente e com todo o seu ser, dizer?

Seja lá quem foi que profanou o muro branco com a tinta preta que escorreu até secar, que formou a frase, que gritou para o mundo sobre algumas coisas que não devem continuar… Odeio analogias com plantas e tudo que é vivo e estático, mas confesso, imaginei as pessoas, após ler aquela frase, pensei nos seres humanos como os inseticidas de sua própria espécie, como se alguns de nós fôssemos plantas indesejadas. Contudo é ao contrário, não eram as ervas daninhas as arrancadas, eram as rosas, sutis botões, era tudo quanto fosse bom e as ervas daninhas, à medida que a singularidade morria, que a delicadeza era massacrada, que os sentimentos eram ignorados, que os julgamentos eram sustentados e que a intolerância se enraizava, as ervas daninhas é que eram cultivadas!

Parabéns, poeta dos muros, você é o meu mais repleto orgulho, porque eu, apesar de louvar-te jamais admitiria com tamanha exatidão e de forma tão explícita a maior doença da nação… Sabe o por quê? Porque sou um sintoma, ando nessas ruas, respiro desse ar poluído, ouço a sonoridade do mundo rente aos meus ouvidos, mas estou me matando aos poucos, intoxicando-me lentamente com a minha própria existência, eu sou a pessoa tóxica que foge a essência, porque antes que comece a contaminar o mundo, acabarei por sucumbir por dentro, vítima do meu próprio veneno! Deveria ter vergonha de admitir e tentar mudar? Talvez.

A diferença é sempre essa: todo mundo, o tempo todo, a todo momento, vai achar que sabe o que é melhor para você, o que você sente. Eles vão achar que têm o remédio ou vão catalogar doenças da mente, mas eu ainda acho que tudo que sou, como sou está casuisticamente ligado á intoxicação humana premente, sou um sintoma, apenas, talvez não seja o único, talvez tenha muita gente e infelizmente, ninguém consegue perceber nada além daquilo que os olhos vêem ou que o corpo sente…

Poeta dos muros, tu foste condescendente com todos os mortais, entretanto, sinto muito dizer: se percebeu a doença é porque ela já está em você! Apenas loucos conseguem distinguir outros loucos e apenas os doentes pedem, imploram por uma cura, nos muros brancos de uma cidade completamente suja… Eu sinto muito pelo ar nada esperançoso, mas era meu sétimo dia, no mês de agosto!

Cheguei no metrô e um homem tocava violão, uma melodia lenta em contradição com a voz em entonação empolgada. Eu ainda pensava no muro. Retirei os fones do ouvido para ouvir melhor aquele pequeno espetáculo avulso, o homem sorriu para mim e eu encarei a capa de seu instrumento que estava com algumas moedinhas e uma rosa, uma rosa murcha, mas que estava ali como se contivesse em si uma oferenda…

Abaixei a cabeça e dei um sorriso: “Oh, céus!”. Como aquilo era deprimente… As pessoas passavam por ali como se não tivessem olhos e nem ouvidos, andavam rapidamente, apenas olhavam para frente e aquele músico abandonado ainda cantava entusiasmado para aquela gente. Vasculhei minha mochila a procura de algo, não havia dinheiro, não havia nada de valor, apenas meio pacote de bolacha o que era muito pouco. Agachei rente àquele porta oferendas em forma de capa de violão e deixei o meio pacote de bolacha. Peguei meu caderno, arranquei uma folha e escrevi:

“O mundo precisa de uma cura e sua vontade de cantar é uma delas”.

O músico me olhava sorrindo, sem parar nem sequer um momento, sorri de volta, coloquei o papel e fui embora. Aquilo era tudo que poderia oferecer por hora.

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


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