TRINTA E UM DIAS - Parte 2 (Alice) - 10º dia



Capitulo Parte II ALICE

Décimo dia - Mundo individual

"Se renovar pode ser difícil, enfrentar os próprios medos é mais difícil ainda”. Algumas pessoas mergulham na aceitação de seu estado atual e outras permanecem nele por medo de enfrentar o novo. Acho que estagnar é uma forma bem lenta e dolorosa de martírio, no entanto o que eu poderia dizer sobre isso, não é mesmo?

Fico andando pelo mundo, buscando seguir rastros que foram deixados. Talvez parte de mim seja refém do medo, de apostar algumas fichas em meu potencial e de me entregar aos sonhos, àqueles desejos especiais e únicos que movem desde artistas a escritores e pintores, pessoas que são guiadas por sua intensidade e deixam o mundo mais rico com ela. Entretanto, ainda estou aqui, aceitando passivamente que me digam qual caminho seguir e isso me faz pensar... E se chegar um momento onde não haja mais ninguém? Se chegar uma hora onde ficarei tão só que poderei contar apenas com meus pensamentos? Se isso acontecer, será que seria o céu ou o inferno? Talvez seja o vazio, porque não cultivei nada único, porque esperei passivamente que as coisas chegassem até mim e nunca aprendi a verdadeiramente procurar por elas e, por causa disso, não conheci a dor da perda, o desejo incessante de se provar, correr atrás de um sonho até se desgastar, a vontade latente de realizar algo único, algo que lhe deixe feliz e contente. Nessas horas eu penso que se for isso… Se o vazio de atos não vividos for o meu abismo, cada abstinência, cada complacência, cada vez que sigo as costas de um outro alguém, cada vez que ignoro meus anseios, minhas vocações, minhas paixões, talvez deixe meu abismo maior, talvez acabe por não enxergar o fundo disso tudo, o propósito escondido por trás de uma vida que foi baseada em expectativas alheias. Talvez quando estiver no fim da estrada, com meus oitenta anos, idosa e cansada, talvez olhe para trás e não veja nada de mim, nada para mim e então minha vida seria apenas o reflexo de outras vidas, não seria única, não seria minha.

Às vezes eu sei que pareço confusa, porque é raro parar e assistir seu mundo e ver traços de tudo nele, menos os seus, e é assim que me sinto depois que leio um livro, vejo um filme, olho pessoas na rua de mãos dadas, vejo acadêmicos deixando a faculdade com um brilho nos olhos. Eles expelem a autoconquista e a sobriedade de se saber ao menos a metade do que se deseja para a vida, e então eu olho para os meus passos e vejo que estou pisando descalça em marcas de um sapato qualquer. Não tem meu rastro, não tem poeira em meus pés, não tenho muita coisa que me lembre o porquê estou aqui".

A psicóloga me encarava com um vinco na testa como se estivesse diante de um livro complexo e interessante, como se ela quisesse saber o final, mas precisasse que o próprio livro a contasse:

— Alice, você exige muito de si. Vocação, desejo e sonhos não são a mesma coisa e, às vezes, você precisa mesmo seguir alguns caminhos já trilhados para entender se eles são feitos para você ou não.

"Algumas pessoas não entendem, e eu não as culpo, porque no fundo sei que somente o autor das palavras conhece a essência inata do texto".

— Talvez que o me falte, doutora, seja a individualidade e a coragem para assumir minhas vontades!

— Quais são suas vontades?

— Eu não sei… Porque andei a minha vida toda no escuro, segurando as mãos de um alguém que desconheço e agora que a luz fica próxima, lá na frente, apenas diminuo a largura de meus passos para que o fim não chegue tão rápido.

— E quem seria essa pessoa, Alice?

— A questão é essa… Eu desconheço a mão que me guia, talvez seja a minha própria. Acho que a pessoa a frente de mim e que me guia nesse escuro sou eu! Eu todas as vezes que segui o caminho mais fácil, que procurei agradar pessoas e esqueci que precisava agradar a mim também… Então agora essa Alice que viveu expectativas alheias não tem nada único, ela está tornando-se uma completa estranha e eu tenho medo disso, medo de deixá-la, porém mais medo ainda de continuar com ela.

Ela me olhou em silêncio, provavelmente avaliando a gravidade do caso e talvez nem fosse assim tão grave, porque aquele meu problema era a minha falta de identidade e apenas isso… Mas será que tem como se recriar novamente? Podemos assumir um novo objetivo a todo momento, mas imagino que, no seu íntimo, quem você é e quem deseja ser, isso nunca se perde, adormece, você joga em um canto qualquer dentro de si mesmo, no entanto essa sua realidade e quem você é dentro dela, isso nunca te abandona.

A psicóloga fez o clichê de anotar algumas coisas na caderneta de psicologia dela, depois inclinou a caneta para mim e disse:

— Essa pessoa que está sendo levada pela mão no caminho escuro e a pessoa que a leva… Não existem duas nesta história, apenas você, unicamente quem você é e quem deseja ser e isso são duas coisas que caminham juntas porque o presente apresenta o seu eu atual e projeta o seu eu futuro, então não tenha medo, pois o medo pode mitigar os sonhos.

— Mas… ESSA NÃO SOU EU! Essa que caminha na frente foi criada com escolhas que buscavam agradar alguém, ela não escolheu por ela, ela apenas seguiu as regras.

— Ainda assim, ela é você, Alice! Não condene o passado e muito menos os erros, porque até mesmo eles formaram essa necessidade de identidade que você contém e se hoje você não aceita mais a sua situação atual, isso é graças à experiência que teve, porque toda vivência é uma forma de aprendizado e toda experiência é uma possibilidade de se recriar e mudar a própria essência.

— É ruim não ter sonhos próprios.

— Mais ruim ainda é não ter a consciência de que não sonha por si mesmo, porque algumas pessoas encontram-se tão absortas em agradar outras, em acatar aos princípios da sociedade e em se tornarem parte da coletividade que nem ao menos percebem que não vivem por elas, não encontram na sua individualidade uma possibilidade de ser única, Alice! Você está acordando de um longo tempo em dormência e deveria ser grata por isso, porque a verdadeira força motriz da sua existência começa agora, com seus objetivos, seus sonhos e seus próprios e únicos princípios.

E então você percebe, nas palavras de um outro alguém, que deveria começar a ser grato por quem você é e parar de criticar quem você foi; você percebe que tudo aquilo que passou compreendeu sua transformação e que tudo que recrimina agora foi o que te possibilitou acordar. Então você para de sentir medo e de querer sempre ter algo para ser enquadrado em um padrão aceitável, você começa a se aceitar e compreende que cada um tem seu próprio tempo, seja para crescer, viver ou sonhar.

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


Revisão: Tatiana Iegoroff

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