TRINTA E UM DIAS - Parte 2 (Alice) - 5º dia



Capitulo Parte II ALICE

Quinto dia - Uma caixa no meio do caminho

Andei vacilando, confesso. Ser a pessoa mais positiva no meu universo só acontece porque sou a única pessoa existente nele próprio, mas tem dias que eu me afogo, minha garganta aperta e eu penso: "Quem sou eu? Além do nome Alice, além do sobrenome, além da família, da faculdade, além das notas e das fugas pelas ruas da cidade. Se me despissem desde o nome até a roupa do corpo, quem encontrariam?".

Tenho medo das respostas para essas indagações, porque eu não estou em uma busca insaciável para exercer meu lugar no mundo, porque o mundo, para mim, é como as poltronas do cinema, que preciso checar mil vezes no meu ingresso qual é o meu assento. Meu lugar já está catalogado, esperando-me alcançá-lo. No meu mundo, espero passivamente as coisas me alcançarem, as setas indicarem por onde devo seguir e sei que é errado, mas será que é tão errado assim estar perdido? A maioria das pessoas está. Alguns fingem bem em uma profissão ou mesmo em um curso de ensino superior, no entanto, nem todos têm essa sorte, essa frieza para seguir no escuro, tateando em busca da cadeira. Alguns ainda esperam que ela esteja escrita no passe da própria vida.

Estava andando, como sempre. Precisava de um livro para a aula de sexta feira e, mesmo sabendo que não folhearia além da primeira página, sentia-me segura ao comprá-lo, porque assim pelo menos tinha o respaldo do meu pequeno esforço. Sim, Alice se esforça. Ontem mesmo foi comprar um livro para uma aula da faculdade que ela escolheu baseada nas perspectivas sociais de sua família, pensando que talvez fosse isso, que ela queria seguir uma estrada que já fora trilhada na esperança de pisar em cima das pegadas.

Fui seguindo indicações de lugares prováveis para encontrar o tal livro e então, ao meu lado, passou uma garota com olheiras roxas e um ar de vitória ao carregar uma caixa repleta de livros. Livros bem gastos e puídos. Meu olhar fitou ela até a perder de vista e como o perímetro pode ser condicionado ao movimento, virei-me para encarar as costas dela: cabelos ruivos alaranjados, vestido de amarrar no pescoço e botas que pareciam quentes demais. Fui impelida a segui-la, fiquei curiosa sobre a caixa, os livros e talvez as botas. Como eu disse, acho mais fácil ir seguindo um rastro. Ela tinha livros e quem sabe poderia indicar-me o caminho para uma boa livraria onde pudesse comprar o meu consolo para a vida:

— Ei, você!

Ela continuou andando, mas sei que ela me ouviu, seus ombros se encolheram com a minha voz, talvez ela fosse do gênero introspectiva e, se o fosse mesmo, estaria apenas se escondendo dentro da caixa, das páginas, não me dei por vencida e gritei de novo:

— Olá… Menina da caixa com livros!

Ela parou, encolheu os ombros de novo então virou-se devagar sorrindo de forma bem tímida. Quando me encarou, tentou fingir um ar casual, daquele tipo de ar que se faz quando se encontra alguém que acha ser conhecido, mas não se lembra e o desconhece. Sorri de volta e diz:

— São muitos livros!

Admito que fiquei com uma ponta de sagacidade ao puxar uma conversa casual, aproveitando-me de sua timidez e de seu ar desconhecido.

— São mesmo… Não me orgulho de dizer que vou lê-los em uma semana no máximo.

Ela disse com um meio sorriso e um tom súbito e firme, como se esperasse uma crítica:

— Acho incrível, ler tudo isso. Estou procurando um livro para autoconsolo.

— Livros são ótimos consoladores de almas perdidas.

Aquela resposta pegou-me desprevenida. Entendi, pelo tom da sua voz, que ela não havia se referido a mim ao falar sobre "almas perdidas" e entendi, também, que ela não havia entendido minha definição de consolo. Dei uma risada e disse:

— Digo consolo porque é um livro para uma aula da faculdade, vou comprar só para folhear e materializar meu "esforço" de alguma forma.

Fiz aspas com as mãos quando disse "esforço" e ela encarou aquele gesto com um vinco na testa. Ficou quieta, analisando a minha pessoa. Fiquei desconfortável porque entre analisar e ser analisada eu sempre ficava na primeira opção. Ela respondeu:

— Tem sorte… Fazer uma faculdade. Algumas pessoas ainda estão atrasadas nesse quesito, você tem coragem, pena que está fazendo pouco caso disso.

— Como assim?

— Você fala como se estar em busca da sua vocação e do seu futuro não fosse muita coisa, algumas pessoas desejam imensamente ter a oportunidade de seguir um rumo, fazer alguma coisa.

— Essas pessoas ao menos sabem o que querem fazer, não é? No meu caso, estou apenas tateando no escuro dos meus atos, fazendo algo para não perder o tempo, seguindo as regras sociais de nascer, estudar, trabalhar e morrer…

Dei uma risada e fiquei encarando-a, certeza que ela estava me julgando: "A estranha que a parou no meio da calçada, atrapalhando o tráfego das outras pessoas ou talvez ela não se importasse com isso, talvez estivesse intrigada sobre meu gênio conformado em seguir um caminho previamente delineado".

— Saber o que quer fazer e fazer algo que não se quer, ou pelo menos ainda não sabe se o quer… São duas coisas diferentes, mas que terminam no mesmo fim: a busca por algo. Essa coisa, por vezes, pode ser conhecida ou talvez não, a verdade é que a vida espera atitudes e você já está andando e ainda não percebeu.

— Perder meu tempo seguindo outras pessoas e fazendo o que outros fazem, não é lá uma questão louvável —

¾ retruquei. Ela sorriu e respondeu:

— O tempo só existe para aqueles que contam! Seguir outras pessoas já é um caminho, mas quem admitiu que não é o mais louvável foi você mesma, essa consciência só pode ser adquirida por meio da experiência.

Fiquei boquiaberta, senti como se estivesse trocando palavras com uma filosofia ou uma poeta. Agora acreditava que aquela caixa de livros não passaria de uma semana nas mãos dela. Ela virou e seguiu em frente, três passos. Então parou e ainda de costas disse:

— Seu livro, talvez o encontre no mancebo de livros usados da Lívia, fica perto da praça no centro. Ela fecha às seis.

Então a garota da caixa com livros afastou-se e ficou cada vez mais distante, peguei meu celular e olhei as horas: 17:45. Segui rumo ao caminho que ela havia indicado para o mancebo de livros usados.

"No fim, ela estava certa… Mesmo que não seja louvável seguir uma estrada já trilhada, saber disso era um trunfo que só a experiência trazia. Viver é estar em constante escolha, aprendizado e crítica sobre o que foi vivenciado e, às vezes, mesmo que ache que não serviu para nada, esse breve achismo já serve de justificativa para a própria serventia".

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


Revisão: Tatiana Iegoroff

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