TRINTA E UM DIAS - Parte 2 (Alice) - 8º dia

Atualizado: há 12 horas



Capitulo Parte II ALICE

Oitavo dia - Laços?

Hoje eu maravilhosamente fui comunicada que teríamos um jantar em família. Coisa que não acontecia nem em séculos e séculos de tradição familiar! Estava tão entusiasmada. Precisava contar a todos os meus pensamentos exuberantes, todas as minhas vontades constantes e os meus desejos em sonhos perpetrados. Tinha algumas expectativas, confesso. Afinal, um jantar familiar deve ser algo celebrado. A presença é constantemente requerida, só pessoas presentes são notadas e são ouvidas. Eu não posso simplesmente deixar de lado e tratar com pouco caso tamanha ocasião!

Permanecia andando de um lado para o outro e questionando Ambrósia sobre o menu, perguntava que horas papai chegaria e se mamãe já havia pegado o avião.

— Menina, menina, a expectativa deve ser inimiga, não pode tratá-la como velha amiga, pois ela pode te apunhalar…

Os conselhos Ambrósia eram notáveis. Ela sempre tinha razão em tudo que falava, sempre tinha aquele olhar condescendente. Olhava-me de longe, ininterruptamente zelando por mim, contente. Queria poder retribuir tudo a ela, queria poder não ficar tão contente com tudo aquilo, mas o jantar em família era completamente diferente e além das minhas expectativas, fora algo anunciado de supetão, eu não esperava tamanha ocasião. Peguei um bolinho da mesa de jantar e saí correndo enquanto olhava pelo ombro e falava:

— Ambrósia, não se preocupe. Eu sei que jantar em família deve ser comum para outras pessoas, contudo, enquanto tenho tempo, posso dedicar-me a apreciá-lo alegremente. Você mesma me ensinou que a vida deve ser vivida, sempre esperando um acontecimento repentino e, ao mesmo tempo, saboreando todos aqueles minutos contínuos.

O tempo é singular e ele varia de pessoa para pessoa. Quisera eu dizer que o tempo é universal e contempla todos os seres do mundo, mas a verdade é que, para mim, o tempo é algo soturno. Porque um acontecimento tão mero e fugaz como jantar de família, para mim, parece a maior das maiores maravilhas. Porque, no meu tempo, não existe família, pratos e comidas. Sempre fora eu e Ambrósia, nós duas contra a vida!

Estava coberta de planos para faculdade, planejava escrever, queria também ser botânica e cuidar das plantas, queria ser botânica e, ao mesmo tempo, eu queria ser escritora. Aspirava ser veterinária para cuidar dos animais do mundo e médica para cuidar dos corações das pessoas. Queria contar aos meus pais, aqueles de sangue, como eu amo ler e como as palavras, para mim, tem som lexical, como eu gosto das rimas e do jeito musical, como eu preciso enfrentar cada página como se fosse um grande desafio e como eu gosto de percorrer o mundo linhas a fio.

Fui para o meu quarto e contei os segundos, ansiosa. Meu abrigo seria a casa cheia, pessoas para conversar comigo. Minha vida sempre esteve fora dos trilhos e eu acho que gostaria de uma vez ou outra ter alguém para me apontar o caminho!

Algumas horas depois, no jantar:

Sentia-me enclausurada, sempre fora dona das palavras, mas agora minhas falas não continham mais os verbos necessários e todo o meu aparato de diálogo dissolveu-se diante de mim ao ver entrando, pela porta, aqueles dois estranhos, meus pais, completos estranhos entre si e entre mim.

Mesa posta, Ambrósia ao lado, sorridente, como se quisesse realmente mostrar-lhes os dentes. Silêncio. Havia alguns tios, primos. Mesa lotada era pouca coisa para descrever o número de pessoas… Porque ali ninguém falava, absolutamente nada. Fui ao banheiro e tomei fôlego, lavei o rosto e voltei com passos determinados a quebrar aquele silêncio e torná-lo de uma vez por todas acabado. Sentei à mesa e apoiei levemente minhas mãos sob as pernas, aquele era meu feitiço, um modo de criar coragem, chamá-la. As mãos sob o colo eram como se fossem as minhas espadas.

— Hum… Senti falta de todos vocês!

Silêncio. Ambrósia olhou-me como quem chora e tentou ajudar-me, ela não continha espadas, mas era um excelente escudo! Então disse:

— Alice estava muito animada com este jantar, não é mesmo, querida!? Acho que ouvi você ensaiar um ou dois discursos…

¾ — Exatamente! — Explodi e todos me olharam. Aquela era a deixa perfeita, poderia agora atrair atenções e falar:

— Estava pensando sobre o meu futuro, papai e mamãe, e família em geral, estava pensando em escrever um livro ou dois, depois de me formar, é claro… Tenho dúvidas quanto ao meu curso, posso ser médica, botânica ou veterinária, mas queria saber o que vocês acham.

— Faça qualquer coisa, Alice.

Foi a voz de mamãe, dizendo com tom delicado, mas sem desviar os olhos do celular por nenhum momento, assim como o papai que logo em seguida emendou:

— Você é nossa menina e pode fazer qualquer coisa…

Ambos estavam checando as ações empresariais e isto me deu uma nova abordagem.

— Se eu for assumir a empresa, é ótimo ter um diploma ou dois… —

¾ disse. Queria que eles soubessem que estava aberta a sugestões, da melhor qualificação que se encaixasse para o meu título futuro. Fiquei observando e ninguém comentou mais nada. Aquele bendito silêncio ainda reinava e, com certeza, deveria estar rindo da minha cara. Após a longa pausa, meu pai cerrou os lábios e falou em baixo tom:

— Não será necessário assumir a empresa, está livre para o que quiser.

— Ma- mas papai…

— Seu pai está certo, querida, estamos focados em deixar alguém para gerir os negócios e você poderá fazer o que tiver vontade.

— Eu não sou capaz? Porque se acham que não sou eu posso me esforçar...

— Alice, minha filha, estamos dizendo tudo o que adolescentes na sua idade iriam querer, você tem a liberdade de escolher o que quer ser…

No decorrer do jantar aquelas foram as últimas palavras de minha mãe e as anteriores, sobre não ser necessária para a empresa, foram as de meu pai. Eu poderia ter esbravejando e questionado porque eles nem ao menos se esforçam em demonstrar preocupação comigo. Queria que eles pudessem saber como eu necessitava daquela aprovação, como queria que eles se importassem de forma a interferirem nos meus planos. Na verdade, eu queria ser notada pela minha família, queria ao menos ter uma briga e levantar da mesa, como aquelas típicas cenas de brigas entre pais e filhos. Então poderia escutar minha mãe chamando-me por sob os meus ombros e bater a porta quando saísse. No entanto, acho que mesmo que se me ausentasse daquele jantar, eles não seriam capazes de perceber minha revolta.

“A liberdade nem sempre é algo bom e louvável, às vezes ela é uma desculpa mal contada para não dizer que ninguém se importa com nada”.

Meu coração acelerou o resto da noite a cada pequeno movimento que meus pais faziam, esperando alguma interação, contudo acabou sendo apenas aquilo e, confesso, terminei com o meu espírito aventureiro partido. Depois que todos foram embora, Ambrósia foi até meu quarto e deixou-me chorar em seu colo.

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


Revisão: Tatiana Iegoroff

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