TRINTA E UM DIAS - Parte 2 (Alice) - 9º dia



Capitulo Parte II ALICE

Nono dia - Liberdade Assistida

Às vezes você vai andar pelo mundo e não reconhecer nem a metade de seus caminhos, porquanto uma das piores coisas da vida é a incerteza e, infelizmente, ela sempre estará presente, porque não somos um oráculo e não adivinhamos nossos próprios passos, apenas podemos escolher por onde andar.

Não era um dia de entusiasmo, não era um dia de comemorações. Era apenas um dia comum, com o sol do meio dia, aquele sol quentinho da tarde que nos envolve em uma áurea de cansaço, apenas para aqueles que sentem o peso do trabalho ou para aqueles que já perceberam que o ócio pode ser muito mais sufocante e insuportável.

Resolvi andar. Ambrósia advertiu-me que não deveria demorar muito, então escolhi andar sem um rumo definido, porque quando chegasse a hora de voltar, não sentiria saudades do caminho e não lamentaria por onde não pude chegar.

Paro no sinal, pronta para atravessar, e escuto a voz alta e estridente de um rapaz no volante. Ele literalmente falava pelos cotovelos, mas o que realmente chamou minha atenção foi o banco do passageiro, onde repousava um corpo que, com certeza, a mente estava em um outro lugar. O passageiro era um rapaz, rosto pálido, cabelos pretos e olhos vermelhos. O reflexo solar fazia aquele par de olhos parecerem duas grandes e redondas balas de canela. Ele estava pensativo demais, analisando demais. Segui seu olhar e deparei-me com o objeto de sua incessantemente admiração. Do outro lado da rua uma loja comum, mas ele não fitava a loja, fitava os pássaros, lindos pássaros, engaiolados e que estavam cantarolando um som angelical demais para pequenas almas aprisionadas. Os olhos canela do garoto estavam tristes, angustiados, ele olhava aqueles pássaros como quem encara o reflexo no espelho e não gosta nem um pouco daquilo que vê.

Será que ele era capaz de ouvir o cântico dos aprisionados? Era lindo! Capaz de tirar as pessoas do fluxo emoliente das ruas abarrotadas e fazerem-nas parar apenas para apreciarem aquela pequena dádiva!

Mas o cenho do rapaz no banco do passageiro estava vincado, como de um crítico persistente que analisa tudo e pouco sente. O sinal abriu e o carro partiu dali e senti pena. Pena porque ele olhava com tanta tristeza para o mundo, que era incapaz de ver as coisas belas que ele comportava. Fui até os pássaros, cheguei bem perto. Eles estavam cantando para casa, estavam expressando a vontade da liberdade, ou talvez não, talvez estivessem chorando e ninguém nunca saberia, porque as pessoas vêem aquilo que querer e interpretam conforme sentem.

Coloquei minha mão na gaiola e pensei:

Olá, pequeninos, minha liberdade também é condicionada e talvez seja melhor assim ou não. Admito que em vez de lamentarem a prisão cantam de forma tão linda a ponto de tocar meu coração!

De súbito, fui tomada pela vontade e uma iniciativa precipitada:

— Com licença, senhor, quanto custa cada pássaro?

O dono da pequena loja aproximou-se de mim. Era um senhor asiático, baixinho e com cabelos brancos; usava uma camisa de botões amarela e com listras, uma bermuda cinza e sandálias de couro, tinha um chapéu na cabeça, parecendo aqueles chapéus de pescador. Ele estava fumando um cigarro, chegou perto da gaiola e baforou a fumaça nos pequeninos pássaros, que agitaram-se em protesto. E, por fim, respondeu:

— Tem canários que custam vinte, tem filhotes de pardal que são dez reais cada, tem os periquitos que custam quinze… — suspirou — Depende da espécie, mocinha! E para cada um tem uma gaiola diferente também.

— Só os pássaros, por favor… Quero o orçamento de todos os pássaros.

Dei um sorriso tímido e o senhor fez uma cara azeda. Avaliou-me de cima a baixo, provavelmente tentando decidir se eu era uma compradora em potencial ou apenas mais uma curiosa. Então ele disse, em tom pouco amigável:

— Olha… Eu não entrego, também não tenho como emprestar uma gaiola para a senhorita levar as aves, então…

— Não vou levá-las.

— Não pretende comprar?

— Pretendo!

Então ele olhou-me severamente, entendendo o que estava planejando fazer e disse:

— Senhorita! São aves de cativeiro, não sobreviveriam no mundo afora, nasceram e foram criadas dentro destas gaiolas.

— O senhor não acha que o gosto da liberdade vale a perda da vida? Ou talvez uma liberdade bem vivida em pouco tempo pode ser bem melhor que anos acomodados e seguros em uma gaiola, em muros que retém sua liberdade, mas lhe dão o suficiente para viver… Viver com o suficiente não quer dizer o mesmo que viver bem.

— Você é uma daquelas ativistas, né?

Ele tragou o cigarro e deu uma risada de deboche, depois olhou para mim e disse em tom sério:

— Menina, você vai matar os pássaros, sem contar que vai jogar dinheiro fora… Não vou vender se for ver os pobres coitados morrerem…

— A responsabilidade é de quem compra, não é!?

— Sim.

Ele arqueou as sobrancelhas e possivelmente encontrava-se pensativo sobre eu estar apenas enrolando e sem a real intenção de adquirir os pássaros…

As pessoas muitas vezes se ausentam de suas responsabilidades éticas pelo simples medo da consequência, mas se você acredita em algo e tem certeza disso, não fuja! Não deixe para trás uma pequena ação, que pode fazer a diferença, por receio do que você acha que pode acontecer, porque as indecisões são persistentes e as decisões tão escassas. Por este motivo devemos valorizar nossas certezas e ir de encontro ao que pensamos. Não abandone seus ideais por medo dos danos.

Minha liberdade era condicionada, mas eu não queria mudar isso, mesmo podendo ir contra a advertência de Ambrósia sobre o horário, mesmo podendo divagar como um erário, não queria mudar isso. Mas aqueles pássaros, eles não podiam escolher por si próprios, apenas podiam cantar, rezando para que, quem sabe, alguém se compadecesse, se encantasse e lhes desse um pouco de atenção. Talvez eles não quisessem a liberdade, porém era o que eu podia oferecer, podia dar a eles um gosto ínfimo de ser livre e escolher seu destino.

“Porque qualquer tipo de liberdade, mesmo a mais pequena e curta, qualquer momento de escolha própria, de um vento limpo e fora dos regramentos impostos… Ser dono do próprio destino e ter a coragem para vivê-lo é para poucos. Então eu acredito que ser livre, mesmo com o tempo contado já vale”.

Encarei aquele detentor das almas que pretendia libertar. Abri a carteira e retirei o dinheiro. Inclinei a mão com as notas da ambição na direção dele, que não relutou nem por um segundo e as pegou, dizendo:

— Você que sabe, moça, se quer jogar dinheiro fora assim…

— Não estou jogando fora! Estou investindo no que eu acredito.

Ele bufou e deu uma risadinha de escárnio, olhou para os pássaros e disse:

— Vá em frente, pode acreditar, mas eles vão voar rumo à morte.

Não respondi. Peguei a enorme gaiola e a coloquei no chão em frente à loja, algumas pessoas olhavam, curiosas. Pensei:

“Pois é, queridos, vamos dar um espetáculo agora, mostrar para eles que não existe impotência. Para se mudar uma situação basta querer e acreditar. Sintam o gosto da liberdade de serem donos de suas próprias verdades”.

Suspirei fundo, coloquei a mão no fecho da gaiola e os pássaros ficaram quietos, todos parados, olhando atentos se aquele gesto era mesmo real. Bem devagar, abri a porta da prisão. Algumas pessoas olhavam com atenção. Passaram-se alguns segundos e os pássaros, todos amontoados em um canto da gaiola, olhavam com os olhos estatelados. Esperei com complacência e, então, disse bem baixinho para que só eles escutassem:

“Eu sei… Às vezes encarar o que tanto ansiamos pode nos dar um medo tremendo, algumas vezes nosso coração dispara e podemos até querer continuar no conforto da prisão, no conforto daquilo que já conhecemos, mesmo que não nos faça feliz por completo. O medo é normal, mas vocês precisam decidir, precisam acordar e abraçar o que realmente vai fazer-vos felizes, porque sabe, a felicidade não tem hora marcada, ela é uma escolha, mesmo que, às vezes, inesperada”.

Esperei. Em silêncio e sem fazer nenhum movimento brusco. Talvez eles estivessem com medo de ser uma ilusão ou alguma piada da vida. Até que aconteceu! Primeiro um único pássaro agitou suas asas. Algumas pessoas olhavam, estáticas. Esse mesmo pássaro aproximou-se da “porta” aberta, erguiu as asas e hesitou por um momento, mas, de súbito, saiu, rápido, sem olhar para trás. Foi uma coisa de segundos, se tivesse desviado o olhar teria perdido aquele espetáculo e aí… Bom, aí foi aquele negócio, um passo e depois todos os pássaros seguiram o corajoso que desafiou o próprio medo. Olhei todos voarem, saírem rumo à liberdade, meio perdidos e sem um rumo definido, mas mesmo assim, eles tinham escolhido: viver a vida do que apenas existir nela!

Encarei o dono da loja e ele estava com a boca entreaberta e o cigarro quase despencando dela. Ouvi algumas pessoas baterem palmas e senti duas lágrimas descerem face abaixo. Deixei a gaiola vazia ali mesmo e saí andando como aquele pássaro, sem olhar para trás.

“A coragem de apenas um, pode se tornar a liberdade de todos”.

Sorrindo, pensei no garoto olhos de canela e o que ele teria pensado daquilo tudo que havia se passado. Fui embora.

Sobre a Autora:

Uma autora independente que gosta de escrever tanto quanto de respirar, participou de varias antologias e foi uma das dez finalistas no concurso "cuenta me un cuento" de 2020. Também participou da antologia anjos caidos da dar books, onde o livro esta na amazon com o conto intitulado: "o testemunho de Delphin". Foi selecionada para o a antologia Teleportados com o conto: " Por de trás da pálpebras", no entanto não participou na formação do livro. Uma escritora inovadora, aspirante a poeta e muito concentrada em sempre dar o seu melhor, buscando uma oportunidade de provar o valor de suas palavras.


Revisão: Tatiana Iegoroff

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