Um caso de família

Enquanto coava o café, o telefone tocou.


— Boa noite.


Ao sentir a frieza na voz do delegado, percebeu que assunto era profissional.


— Boa noite.


— Conhece Celina de Assis?


— Tem um tempinho que não vejo a bichinha.


— A encontramos no estacionamento do seu prédio, perto do seu carro. Poderia descer?


— Não prefere subir? Acabei de passar um café?


— Agatha, estou em horário de trabalho.


— Tudo bem, delegado. Estou indo.


Tirou o pijama e vestiu-se casualmente. Desceu até o estacionamento ao encontro de Mello Sá. Saudações não tão intimas quanto as dos outros momentos fora da delegacia.


— Como ela está?


— Infelizmente morta.


— O que? — Exclamou a advogada espantada.


— Desculpe a frieza. Não sei qual era a relação de vocês.


— A ajudei num caso de violência doméstica. Foi expedida uma medida protetiva, o marido não podia se aproximar.


— Se foi esse o caso, ele não respeitou essa determinação.


Os olhos de Agatha permaneceram baixos, os cabelos negros cobrindo parte deles.

Na manhã seguinte, Mello Sá acompanhou Agatha até o IML. O corpo gordo e inerte estava estirado no meio do laboratório. O perito explicava o examinado até o momento.


— Teve uma lesão na parte posterior da cabeça. Pode ter escorregado em algo ou sido empurrada frontalmente. Traumatismo craniano.


Os olhos marejados da advogada fizeram com que o delegado a levasse de volta à delegacia.


— Gostaria que me desse informações sobre o marido dela.


— O nome dele é Nilson Santos, ex-soldado da polícia militar. Eles moravam num puxadinho os fundos da casa da mãe dele na Brasilândia, até a medida protetiva, quando ela voltou para a casa da mãe em Osasco.


— Eles tinham filhos?


— Não. Mas ela tinha uma menina, cerca de 16 anos. Descobriram que estava sendo abusada pelo padrasto e ela a mandou para morar com uma tia que se mudou há pouco tempo pro Espírito Santo.


— E você acha que...


O delegado foi interrompido pelo Investigador que abriu abruptamente a porta de sua sala.


— Delegado, o carro da Agatha…


— Arriégua! Sou tão frequente nessa delegacia que já me chamam pelo nome.


— Desculpe, doutora Agatha, é que seu carro foi alvejado aqui na frente.


— O que? — Mello Sá esbravejou, levantando-se da cadeira.


— Foi muito rápido. Ouvimos tiros e quando saímos já não tinha mais ninguém.


— Você acha que isso foi um aviso pra mim? — Indagou Agatha ao delegado.


— Você acha? Essa noite dormirei na sua casa.


— Novidade. — Ironizou.


— Por segurança.


A noite foi invadida pelo delegado com a arma em punho no meio da sala do apartamento de Agatha. Quase próximo da meia-noite, ela surgiu por trás dele com uma generosa caneca de café.


— Pega logo que está quente.


— Vou precisar. A tocaia vai ser longa.


— E você vai ficar aqui a noite inteira, ou vai me vigiar lá no quarto também?


— Esse é meu posto essa noite.


A conversa foi interrompida por um intenso bater na porta. Mello Sá afastou Agatha e, ao abrir a porta, não pensou duas vezes antes de disparar contra a sombra refletida na parede da frente.


O cachorro da vizinha começou a latir. No chão, apenas a poeira sobre a cerâmica. Fechou a porta e pernoitou com a arma apontada para a fechadura. Nada mais se passou naquela noite

Ao acordar, Agatha se deparou com um delegado intrépido na mesma posição que o deixara à noite, mas com os olhos que imploravam um descanso digno de sua idade. Beijou os lábios de Mello Sá e lhe entregou a tolha que trazia na mão.


— O que é isso?


— Não quero um velho suado na minha cama. Tome um banho e vá descansar.


— Iremos para a delegacia, ficaremos mais seguros lá.


— Tu está se achando muito pra um homem dessa idade, né? Quieta o facho que tu está implorando um cochilo.


— Não precisa falar assim.


— Anda logo.


— E você?


— Tu acha mesmo que eu não sei meter o dedo no biloto dessa pistola? Mais fácil eu te salvar do que tu me salvar com essa canseira. — Riu um pouco.


— Pelo menos promete que não vai sair daqui. E qualquer coisa me chama.


— Vai logo antes que eu arrete e te mande descansar na casa do Chico.


O corpo cansado simplesmente seguiu o protocolo e irrompeu num sono quase que instantâneo.

À tarde, levantou procurando por Agatha, que não se encontrava em canto nenhum do apartamento. Pegou o telefone para ligar e foi surpreendido por uma ligação do investigador.


— Delegado, deixaram um endereço para a gente buscar o corpo da Agatha.


— Que brincadeira é essa?


— A voz parecia de uma adolescente, mas era muito séria.


— Ela desapareceu aqui do apartamento. Insistiu para que eu descansasse e disse que ficaria aqui.


— Então vamos considerar a ligação?


— Pega a viatura e passa aqui. Vamos atrás desse endereço.


Rodaram pela rodovia até um bar afastado do acostamento, quase invisível da pista. A cerca de oitocentos metros, um depósito. Estacionaram a viatura e entraram. Começaram a vasculhar o lugar úmido e cheio de fardos empilhados até encontrarem um corpo.


A adolescente caída, aparentemente grávida, tinha cacos de vidro pelo cabelo.


Nesse momento, um ronco de motor soou, parecendo frear em frente ao local. Segundos depois, Nilson entrou com uma arma em punho apontada para Agatha, que ele puxava pelo braço.


O delegado logo levantou a arma, mas foi atingido na mão. A pistola caiu entre os seios da adolescente caída. Um segundo disparo feito por Nilson esfolou o braço do investigador.


Mello Sá logo se apressou para pegar com a mão boa a arma do investigador e, ao apontá-la para o homem, viu surgir o cano de sua pistola à altura de seu ombro, disparando na direção da cabeça de Agatha.


Era a adolescente outrora caída quem atirava. Ela seguia com os olhos o percurso feito pela bala que acabara de disparar. Aproveitando a distração de Nilson com a movimentação do delegado, a advogada com agilidade deu-lhe um chute na perna que o fez perder o equilíbrio. A jovem, para defender o padrasto, disparava contra Agatha, que como num reflexo, o trouxe para frente de si, invertendo a situação anterior, quando era escudo dele.


Nilson caiu no chão com a bala na nuca. A adolescente, ao ver o que fizera, atirou na própria cabeça.

Dias depois, Mello Sá, com a mão enfaixada, tomava um café com Agatha em seu colo na sala do apartamento.


— Nunca mais confio em você.


— Eu fui levar o carro na funilaria e eles me pegaram se passando por taxistas. Aquela cretina!


— Uma menina tão nova se matando do meu lado… e com minha própria arma!


— Ela tinha um caso com o padrasto. Ia me matar por ter incentivado a mudança dela para o Espírito Santo. A gente acha que está ajudando e quase acaba com uma bala na cabeça. A mãe dela não merecia isso.


— Você acha que ela matou a própria mãe? E eu achando que a minha filha me odiava. — Disse Mello Sá com um ar entristecido.


A noite irrompeu, escurecendo o dia como a terra sobre os corpos enterrados num mesmo lugar. O mausoléu onde a morte uniu uma família separada em vida.


Capixaba natural de Ecoporanga, atualmente residindo em Feira de Santana-BA; estudante de Pedagogia, escreve desde criança. Apaixonado por café, criança, história, arte e cultura brasileira. A Arte de Viver foi sua primeira novela publicada, além da coletânea Contos Oh! Ríveis, de humor, estando presente em coletâneas de contos e poemas do Projeto Apparere e contos disponibilizados na Amazon.


O gênero policial vem sendo seu novo foco na escrita, explorando a temática familiar, um prato cheio para discutir as relações da sociedade e refletir sobre as atitudes passionais.

 
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