Uma manhã na horta (conto pandêmico)

Ninguém é tão estranho quanto nós mesmos.


Ofélia estava do lado de fora da casa desde cedo. Trabalhava num canteiro de hortaliças, no jardim, e não percebera o passar das horas. Já era quase meio dia, e seu estômago já roncava de fome. O sol estava levemente escondido por uma cortina de nuvens desoladoras, mas isso não a impediu de praticar aquele hobby recém-adquirido. Meu deus, quando foi que eu comecei a gostar de jardinagem, ela se perguntava, entre sorrisos incrédulos. Ela podia jurar que mexer no jardim era coisa de Astolfo. Mas ela não tinha certeza disso. Havia, aliás, muitas coisas que ela lembrava vagamente nos últimos dias e não conseguia distinguir se algumas delas eram reais ou apenas névoas de sonhos que vez por outra se recordava. Ela remexia na terra, retirava ervas daninhas e colhia alguns legumes, sem, no entanto estar certa do que realmente fazia, achando graça em tudo aquilo, podia jurar que detestava cuidar do jardim.


Enquanto Ofélia descobria a sua súbita predileção pela jardinagem, Astolfo perambulava dentro de casa, procurando o que fazer. Ele ainda vestia o pijama listrado com o qual fora dormir na noite passada, e não demonstrava intenção de trocá-lo por uma roupa. Algo em sua mente o deixava inquieto. Ele quase poderia jurar que, àquela hora da manhã, deveria estar em algum lugar, mas não conseguia lembrar onde, por mais que se esforçasse. Era uma quarta-feira, será que não deveria estar trabalhando em algum lugar, se perguntava. Por que será que tinha a sensação de que os últimos dias tinham se transformado num longo e tedioso feriado? Aproximou-se da janela que dava para o jardim e viu Ofélia caminhando em direção à casa. Como sua esposa, ele estava morto de fome. Então ele afastou-se da janela e foi para cozinha, investigar o que havia para comer. Não era próprio de Astolfo fuçar a cozinha, mas aquela mudança de hábito passara-lhe despercebida, naquele momento.


Quando Ofélia entrou na casa, pela porta da cozinha, carregava uma bela cesta de junco, contendo legumes e temperos, ao mesmo tempo em que Astolfo estava de frente para o fogão, em vias de começar a fazer uma omelete. Ele interrompeu-se momentaneamente, para lançar à esposa um olhar admirado.


— Desde quando você gosta de jardinagem — ele perguntou, segurando, de forma desajeitada, uma grande caçarola.


— E você, que mal sabe tirar o gelo da cuba, o que tenciona fazer com essa panela? — ela lhe lançou um olhar divertido.


— Não está óbvio? Uma omelete! — ele respondeu, indicando-lhe meia dúzia de ovos sobre o balcão da pia.


— Querido, eu mal posso acreditar que você tenha conseguido chegar à cozinha sem a ajuda do seu GPS, e agora me assusta querendo fazer uma omelete. Você está se sentindo bem?


— E que há de mal nisso?


— Em primeiro lugar, você não vai querer comer todos esses ovos, só aumentarão a sua taxa do seu colesterol, como você mesmo sempre reclama, quando faço ovos mexidos no café da manhã. E, em segundo, não se faz uma omelete usando uma panela funda como esta, além do mais, esta não é antiaderente, não percebe? Sua omelete vai grudar e queimar — ela olhou intrigada para o marido e acrescentou, revirando os olhos: Astolfo, para o seu conhecimento, você detesta cozinhar, deixa que eu mesma faço isso para você.


— Eu estou morrendo de fome...


— E eu também, por isso trouxe alguns legumes — ela enfatizou, ao levantar a cesta e depositá-la sobre a mesa da cozinha. — Você acaba de me dar uma ideia, vou acrescentá-los à omelete. O que acha?


— Para mim, parece ótimo! — ele respondeu, afastando-se do fogão. — Deixe-me ajudá-la, descascando os legumes.


— Nossa, o que deu em você hoje? Ou sou eu quem está delirando? — Ofélia falou, com o seu natural humor irônico. — Sabe, pelo menos, em que gaveta ficam as facas e o descascador?


— Ora, Ofélia, você fala como se eu fosse um completo idiota — queixou-se Astolfo, se perguntado onde estariam as facas. Ele deu sorte, na primeira gaveta que abriu, estavam as facas. E o descascador.


Meio desajeitado, ele se pôs a trabalhar, sob o olhar incrédulo da esposa.


— Corte tudo em pedaços finos e pequenos — instruiu Ofélia, gostando da novidade de dar ordens ao marido. — Depois abra aquele cabernet, para respirar. Enquanto isso, eu vou trocar essas roupas e lavar as mãos.


Enquanto descascava os legumes, Astolfo se perguntava o que realmente estava fazendo na cozinha de sua casa, ele não pertencia àquele lugar. Talvez Ofélia tivesse razão. Aqueles últimos dias estavam realmente estranhos, era como se as coisas estivessem fora do lugar. Ele não deveria estar em casa de pijamas, no meio da semana, Ofélia não deveria estar mexendo em sua horta e nem ele tinha o menor pendor por culinária. Mesmo assim, continuou dedicado àquela tarefa, com afinco, e achou que descascar e cortar legumes poderia ser divertido.


Quando Ofélia voltou à cozinha, ela agora vestia uma saia azul comprida e uma blusa folgada. Seus belos cabelos estavam soltos e pendiam sobre os ombros. Astolfo acabara de cortar as últimas vagens e olhou para a esposa, admirado com a sua beleza.


— Você está linda.


— Obrigada — agradeceu, surpresa. Já havia algum tempo que ele não fazia aquele tipo de elogio.


— O que faço agora? — ele perguntou, orgulhoso de seu trabalho.


— Deixe que eu agora assumo a cozinha daqui em diante, querido — anunciou ela, pegando a caçarola, para refogar os legumes.


— Não, deixe que eu faço isso. Gosto de terminar as coisas que começo. Basta você me falar o que tenho de fazer — insistiu. Ofélia percebeu, incrédula, um tom de genuíno entusiasmo na voz do marido. Ela se perguntou quando foi que ele começara a mudar, sem que ela o percebesse.


— Bem, se é o que você deseja, não vamos discutir por causa disso, querido.


Subitamente, Ofélia teve uma sensação de déjà-vu. Discutir talvez não fosse algo incomum naquela casa. Quando teria sido a última vez que os dois haviam discutido por qualquer coisa, ela tentou se lembrar. O passado parecia algo tão distante e difuso nos últimos dias... Às vezes ela tentava se lembrar de algo que achava ter esquecido e, por mais que se esforçasse, nada vinha à sua mente. Ela olhou para o marido ali, diante dela, aguardando as instruções e achou aquela situação extraordinária.


— Vamos lá. Fazer uma omelete é muito simples, você vai ver. Primeiro, vamos pôr esses legumes...


Prezados leitores, esta história não tem a menor pretensão de ensiná-los a nobre arte de fazer uma omelete. Vamos prosseguir, pulando este trecho culinário.


Ofélia pegou dois pratos de porcelana no aparador, duas taças e colocou-os sobre a mesa, juntamente com os talheres. Tirou do armário um pão rústico, ainda intacto, que assara na noite anterior, e o pôs sobre uma tábua de madeira, juntamente com a serra de cortar pão. A omelete estava pronta para ser servida e tinha uma cara deliciosa; ela acrescentara algumas folhas frescas de manjericão, que lhe emprestaram um aroma delicado. Astolfo pegou a garrafa de vinho sobre o balcão da pia, já aberta, e os dois sentaram-se à mesa.


— Você vai levar toda aquela roupa para a tinturaria? — perguntou Ofélia, enquanto cortava uma fatia do pão. Ela se referia às roupas do marido que ela vira no interior do automóvel aquela manhã, quando fora à garagem pegar a pá de jardinagem e as luvas.


— De que roupas você está falando, minha querida? Não me lembro de roupa alguma para a tinturaria. Não é você que sempre cuida dessas coisas? — Astolfo pareceu intrigado. Pegou a garrafa de vinho e serviu Ofélia e depois a si próprio.


— Sim. Eu estou dizendo que vi seu carro cheio de roupas no banco de trás. Por isso estou te perguntando, vai levá-las para a tinturaria?


Astolfo ficou surpreso com aquela história. Como suas roupas foram parar no carro, se perguntou. E de onde Ofélia tirara a ideia de que ele iria levá-las para a tinturaria? Algo estava estranho naquela casa nos últimos dias, ele constatou intrigado. Era como se fragmentos de alguma história tivessem sido apagados e só restasse uma sensação de déjà-vu. Era isso que aquela situação toda era, uma ilusão que a sua memória lhe causava, uma sensação de que algo fora esquecido, mas ele não conseguia se lembrar exatamente do quê.


— Mas eram todas as minhas roupas ou apenas algumas? — quis saber Astolfo. Ele observava Ofélia cortar uma fatia de pão e pôr em seu prato. Mas ele não comia pão, ela sabia disso.


— Bem, eu não abri seu carro e fui bisbilhotar, se é isto que está insinuando. Mas eu podia jurar que quase todas as suas roupas estavam lá — respondeu Ofélia, beirando impaciência.


— Então eu vou pô-las de volta no armário, se é isto que te incomoda. Francamente, não faço ideia de como elas foram parar lá — declarou Astolfo, num tom decidido.


— Há coisas estranhas acontecendo em nossa casa ultimamente... — comentou Ofélia, com o olhar era perdido.


Astolfo a examinou por um instante e viu foi o rosto de uma bela mulher. Ofélia tinha a pele branca e aveludada. Os olhos eram castanhos, claros, nem muito grandes e nem muito pequenos. O que mais lhe apreciava em sua aparência era a cor de seus cabelos, tinham um tom de ferrugem, quase rosados. Eram lisos e volumosos. Seus lábios eram ligeiramente grossos e avermelhados, como se tivessem sido mordidos. Ele se perguntou quando fora a última vez que os beijara e chegou à conclusão de que não se recordava. Num gesto afetuoso, ele estendeu sua mão e acariciou a de Ofélia, gentilmente, antes de segurá-la com um aperto breve e firme, que fez com que o coração dela disparasse.


— Não creio que haja nada de errado com a nossa casa. Não há nenhuma assombração por aqui. — Ele hesitou. Quis dizer que havia algo diferente com eles, mas isso seria ir longe demais, ele nunca foi o tipo de homem de conversar sobre essas coisas.


— A casa está bem — falou Ofélia. — O que eu quis dizer foi que há algo de estranho com a gente. Você não percebe?


Astolfo percebera. Ele sabia sobre o que ela estava falando. Há dias ele também vinha notando transformações no comportamento da esposa, mas ele jamais admitiria para si, que o mesmo estava ocorrendo com ele próprio. Estas mudanças o deixavam num estado de ânimo confuso e desconfiado da própria sanidade. Estaria perdendo o juízo, se perguntava. Ele esforçava-se para buscar no fundo de sua memória uma explicação para tudo aquilo, ele sabia que deveria haver alguma, em algum lugar. Tal esforço era como tentar se lembrar de uma palavra que achava que existia, podia senti-la na ponta da língua, mas não se completava. Esta sua dificuldade em se lembrar das coisas era algo que o aterrorizava, não tinha nem trinta e cinco anos de idade e já começava a ficar esquecido. Como isso poderia estar lhe acontecendo tão cedo, se perguntou angustiado. Astolfo olhava para a sua esposa, sentada à mesa, ao seu lado, ela era mais jovem que ele e agia de modo estranho ultimamente, era como se alguns de seus hábitos tivessem mudado de uma hora para outra, coisas pequenas, mas significantes. Por exemplo, seu lugar à mesa era à sua frente, e não ao seu lado.


Depois de comerem, Astolfo levantou-se e recolheu os pratos e foi lavá-los logo em seguida. Ofélia lançou-lhe um olhar surpreso e não se conteve em fazer uma observação:


— O que deu em você? — alfinetou, admirada, com um sorriso no canto da boca.


— Não é minha vez de lavar os pratos? — ele perguntou, indeciso.


— Nunca houve a sua vez, para falar a verdade — ela fulminou. — Mas se está com tanta disposição assim, basta despejar os restos no triturador e pôr os pratos e talheres na máquina de lavar; mais tarde eu mesma ponho a máquina para funcionar. — E percebendo o olhar de dúvida do marido, acrescentou, divertida: — A máquina de lavar é essa coisa aí em baixo do balcão.


Ofélia estava desconfiada do marido, será que ele estava bem da cabeça? Ele vinha agindo tão estranhamente. Nenhuma de suas amigas acreditaria se lhe contassem que, voluntariamente, ele se ofereceu para lavar os pratos e, ainda por cima, fizera o almoço!


— Agora eu vou me deitar um pouco; essa história de ficar em casa o dia todo está me fazendo cultivar hábitos ruins — Astolfo anunciou, com um pingo de satisfação, pensando no sofá da biblioteca.


— Estou vendo, nunca o vi dormindo durante o dia — comentou Ofélia, se perguntando o que ela faria no resto da tarde, até a hora de preparar o jantar. Repentinamente, ela foi tomada por uma súbita alegria, foi como se finalmente tivesse encontrado algo perdido que tanto procurava, embora ela não tivesse certeza do que fosse. Havia, sim, algo com o que ela costumava se ocupar todas as tardes. Ela escrevia para uma revista feminina e alguns sites de internet, mas isso parecia que foi há tanto tempo... Quando foi que ela começara a esquecer de coisas tão importantes para ela, perguntou-se, intrigada. Astolfo parecia que seguia pelo mesmo caminho, ele não parecia ser a mesma pessoa ultimamente. Agora, a grande pergunta era: onde foi que ela guardara o seu notebook. Ela, então, começou a sua procura pelo lugar mais óbvio onde poderia encontrá-lo. Astolfo já dormia um sono solto quando ela adentrou na biblioteca, ele dormia como um anjo, ela pensou consigo mesma, ao lhe lançar um olhar afetuoso. Procurando fazer o menos barulho possível, ela deu início à procura de seu notebook.


Não foi difícil encontrá-lo, estava sobre a escrivaninha, coberto por um belo lenço de seda florido. Ofélia pegou o notebook, cuidadosamente, com as duas mãos, e, na ponta dos pés, levou-o para a mesa da sala de jantar. Seu contato físico com o computador pareceu ter o efeito de reavivar a sua memória naquilo que ela mais gostava de fazer, que era escrever. Chegando à sala de jantar, ela o pôs sobre a mesa. Abriu-o e pressionou o botão para ligá-lo, e quando a tela iluminou-se, a imagem de uma praia paradisíaca, em algum lugar da Oceania, apareceu. Ela lembrou-se daquela foto, ela mesma a tirara, com a sua câmera fotográfica, era uma foto tão bonita que ela a usava como tema da tela de seu computador.


Ela e Astolfo fizeram aquela viagem um ano depois de casados, com a intenção de que fosse a sua segunda lua mel. A verdade era que as coisas não iam muito bem no casamento, apesar de eles estarem casados há tão pouco tempo. Os dois concordaram que talvez uma longa e espetacular viagem talvez ajudasse a acertar as coisas entre eles. O passeio foi uma sugestão de Ofélia, que teve a ideia depois de ler um artigo, na mesma revista feminina para a qual escrevia, sobre a crise no primeiro ano de um casamento – considerada, pela autora, como algo muito provável de acontecer – e como superá-la. Uma viagem espetacular era uma das terapias sugeridas. Por que não tentá-la, ela se perguntou.


Ofélia achou bastante prematuro quando Astolfo pedira para que se casasse com ele, afinal, eles só namoravam há apenas dois meses e meio. Mas esta parecia ser uma marca da personalidade dele, ele agia muito por impulso e quase sempre estava certo. Astolfo era muito seguro de si e sabia o que queria. Estas foram qualidades nele que a seduziram e fizeram com que se apaixonasse por ele; ele era muito bonito também, além disso. Ela lembrava que estava com duas amigas no Pandemia, um misto de restaurante e bar de clientela majoritariamente jovem, com música ao vivo e pista de dança, quando ele aproximou-se da mesa em que estavam, de forma decidida e engraçada, e convidou-a para dançar, apesar de que a música de Frank Sinatra, cantada por um rapaz cuja pronúncia inglesa era horrível, mas que era compensada por sua voz linda e afinada, não era exatamente o tipo de música para dançar. Ao final, Astolfo demonstrou que dançava muito mal, mas sua atitude confiante e desejo de agradar, encantaram Ofélia; e foi assim que o namoro começou.


Para sua desilusão, depois do casamento, viver sob o mesmo teto que Astolfo foi se tornando uma fonte de frustração e desapontamento, à medida que o tempo passava e o casal se conhecia melhor. Ela continuava amá-lo, apesar das dificuldades, e podia jurar que ele sentia o mesmo por ela. Ofélia descobriu que o seu adorável marido nem sempre era uma pessoa de fácil convivência e de difícil cooperação em tarefas domésticas. Ele era um homem bom e agradável, e honesto com ela. Mas isso não bastava. Para Ofélia, casamento era também uma associação, e Astolfo parecia não entender isso. Cada um deveria fazer a sua parte e se ajudar mutuamente, ou, pelo menos, reconhecer o trabalho do outro.


Ofélia, então, assumira integralmente, o papel de dona-de-casa, mantinha-a asseada e confortável, e cozinhava razoavelmente bem, mas Astolfo parecia não perceber isso e nem manifestava gratidão pelo seu trabalho – ela era o tipo de pessoa que precisava de reconhecimento pelos seus esforços, talvez ficasse um pouco insegura quando não os recebia. Só o que parecia importar para ele era a horta, que vieram com a casa, quando eles a compraram. Até então, Astolfo jamais se interessara por jardinagem ou qualquer outra coisa que envolvesse trabalhos domésticos, mas a horta o encantara de uma forma inexplicável que, quando ele não estava em sua firma de advocacia, só era encontrado do lado de fora da casa, curvado sobre os canteiros de hortaliças, como se ele fosse um pequeno agricultor, dedicado à sua próxima colheita. Aquela horta competia com ela pela atenção do marido, ela quase sentia um ciúme irracional pela coisa, e também considerava que a jardinagem era mais apropriada a homens velhos aposentados, o que não era o caso de seu jovem e trabalhador marido. Talvez ela cobrasse demais dele, ela julgava, e este era sempre o motivo das pequenas brigas domésticas entre eles. Agora ela se lembrava, as recordações começavam a povoar novamente a sua mente, como peças de um quebra-cabeça que se encaixavam lentamente: a última discussão que tiveram.


Ela aguardara o dia todo para que ele lhe desse os parabéns pela data de seu aniversário e a levasse para jantar – não fazia questão de presente, apesar de que este fosse bem-vindo –, como fizera no ano anterior. Mas o dia passou, e ele não deu uma palavra. Magoada, Ofélia se queixou e a discussão teve início. Palavras ásperas foram trocadas, cobranças foram feitas e acusações ditas. Astolfo declarou que ia embora, pegou suas roupas e as amontoou dentro do automóvel. Ofélia ficou confusa e não compreendia como tinham chegado àquele ponto, a emoção a exaurira e ela caiu no sono. Depois de pôr as roupas no carro, Astolfo sentia-se cansado e, depois que se sentou-se no sofá da biblioteca, pegou no sono imediatamente.


Na manhã seguinte, Ofélia acordou e estranhou que Astolfo não estivesse ao seu lado, na cama. Ela sentia a cabeça pesar como um saco de areia e vontade de ficar deitada mais tempo, mas mesmo assim foi procurar o marido, ela quase podia jurar que o vira no quarto na noite passada. Encontrou Astolfo dormindo no sofá. Ela o acordou gentilmente e perguntou se ele se sentia bem. Ele também se queixou da cabeça, levantou-se e subiu para a cama. Foi como se a noite passada tivesse sido riscada da memória do casal, foi como se não houvera briga alguma e nem ele pegara suas coisas para ir embora. Aquele incidente foi apenas o início daquela semana estranha na qual as pessoas tinham de ficar trancadas em suas casas, para se protegerem de uma epidemia que assolava o mundo, de uma forma muito peculiar.

Astolfo acordou de seu cochilo depois do almoço e levantou-se do sofá sentindo-se revigorado. Foi procurar pela esposa e a encontrou na sala de jantar, sentada à mesa, em frente ao computador.


— O que está fazendo aí, querida? — ele perguntou, curioso.


— Acho que vou escrever um pouco antes do jantar, você se importa?


— De jeito nenhum — ele respondeu, a caminho da cozinha. — Vou fazer um chá para nós. Ainda tem daquele bolo delicioso que você fez?


Ofélia ficou um pouco chocada com aquela disposição do marido, mas procurou não demonstrar ou fazer qualquer comentário irônico, para não estragar momento. Sua ironia quase sempre iniciava uma discussão, e ela prometera a si mesma se policiar de agora em diante.


— Ainda tem, sim. Está na estante ao lado do fogão, na primeira porta.


Ela observou Astolfo desaparecer na porta da cozinha e deu um suspiro de satisfação. Sentindo-se recuperada daqueles dias incoerentes, então ela começou a escrever a primeira linha de um conto: Estranhas coisas aconteceram durante aqueles dias em que um estranho vírus roubava a memória das pessoas...


Cristiano Teixeira nasceu em Fortaleza e cresceu em Salvador. Filho de artista plástico, foi criado convivendo com pintores, poetas e escritores, daí a inclinação para escrever. Fez letras na UFBA. Escreveu Demasiado Pouco Amor, A Morte de uma Sugar Baby e O Gato Preto e Outras História de Arrepiar, além muitos contos e de centenas de crônicas e histórias para o seu blog Cartas do Meu Moinho. Quando não está escrevendo, lê bastante. Faz revisões de textos literários e acadêmicos.

 
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