Uvas à Meia-Noite




Enfim chegara a véspera de Ano Novo. No mais usual, seria um dia em que o mundo coloria-se de branco e prata; tudo ficaria encoberto de glitter, serpentinas e átomos de confete, entre desejos entrecortados de júbilo e felicitações tanto entre vizinhos, parentes e amigos quanto entre estranhos, subiam rumo ao céu enluarado desejos íntimos de renovação e mudança.


O Ernesto detestava o réveillon justamente por isso – tudo ficava ainda mais plastificado, falso e barulhento, logo mais infernal, do que no Natal. Homem de atitude muito séria, vivia constantemente emburrado e taciturno, com a grande planície da testa alva sempre franzida e os ombros desproporcionalmente largos retesados como arcos. Raras – raras não, raríssimas – eram as vezes que brevemente permitia-se despojar do onipresente manto casmurro que sempre carregava e permitia-se abrir um sorriso, mesmo que a contragosto. Quando isto se dava fora da intimidade de casa e a ação era pega em cheio pelo olhar público, as pessoas olhavam-no e depois entreolhavam-se em choque, sussurrando que este deveria ser um sósia, e que o verdadeiro rabugento devia agora estar apodrecendo em alguma vala escondida entre as folhagens de uma vereda qualquer, sendo petiscado pelos bichos e contemplando com olhos vítreos a enorme Lua cheia, amarela qual dente de velho; ou deveria estar em algum cativeiro, acorrentado firmemente a uma grossa viga de madeira, a boca franzina selada com silver tape, com apenas umas duas bacias daquelas favorecidas pelos cachorros para servir-lhe, respectivamente, de cozinha e sanitário.


Era quase um espectro de tão pálido; muito alto, de fisionomia esguia e tez muito séria, com grandes olhos acastanhados que não aparentavam refletir a luz que neles batia, e que os empregados da loja diziam, entre sussurros, serem incapazes de transmitir amor. Vez ou outra, quando estava muito estressado ou imerso em pensamentos, possuía o hábito de, com o polegar e o indicador direitos, afagar o farto bigode que lhe adornava o lábio superior. Era proprietário de uma bem-sucedida loja de materiais de construção, localizada num sobrado amarelo de uma imponência montada na Rua São João Batista, facilmente identificável pelas enormes letras garrafais e rubras diademadas na fronte do edifício. Liderava os funcionários com mão de ferro, mantendo-os na rédea curta e não era raro adentrar o estabelecimento e deparar-se com o estimado dono firmemente assertivando seus funcionários de sua própria autoridade, enquanto exigia deles seu máximo desempenho.


Prezava muito pela ordem e homogeneidade, estando constantemente a checar o modo como os produtos estavam dispostos na prateleira. Não permitia, ou sequer tolerava a noção de ao menos colocar enfeites respectivos às festividades respectivas a determinados períodos do ano, como faziam muitas lojas aqui e acolá, sendo tão banais e frugais que poderiam ser encontradas até mesmo com um mero olhar de relance para a pequena boutique no lado oposto da rua. Julgava que eram coisas baixas, blasé e lugar-comum, badulaques desnecessários que sinalizavam celebrações passageiras, e que de nada serviriam a não ser para consumir tempo, dinheiro e enodoar sua virginal loja, e isso para o Ernesto era inaceitável. Logo, repudiava as sugestões feitas pelos funcionários de ao menos espalhar um certo júbilo de fim de ano pela loja ao pedirem-lhe para comprar algumas cartolinas e outros materiais facilmente adquiridos a um preço módico para que fossem preparadas estrelinhas, algumas fitas prateadas e possivelmente alguma mensagem caridosa, mesmo que sendo clichê, atiçaria o consumidor a sair de sua indecisão consumerista e entrar na loja. Eles logo descobriam que falar com a própria parede talvez rendesse resultados mais satisfatórios.


Mas, na verdade, Ernesto só insistia em sua preferência por deixar sua loja nua e despida de todas as árvores, estrelas, presépios, pisca-piscas e posteriormente semblantes de prata, dourado e branco era porque ele fazia com a sua loja o que não podia fazer em casa. A casa dele – Um imóvel planejado dos pés à cabeça, branco, com murada alta, seu próprio castelo – não era domínio seu; não era sua coroa, sua jurisdição, onde jazia seu trono e nele reinava. Na verdade, a única real possuidora de todos os confins da moradia era sua esposa, Celeste, mulher forte e talvez mais determinada que o marido, mas que também era seu calcanhar de Aquiles e sua antítese. Para cada gota de fel que corria em lugar de sangue nas veias de Ernesto, Celeste tinha um mar de jucundidade. Era alegre, sociável e sorridente; sorria três vezes mais por cada sorriso que o marido recusava-se a dar. Possuía um desmedido apreço pela vida e irradiava alacridade, o que, claro, seria mais do que o suficiente para transformar sua vida conjugal num inferno.


Pois ora, vejam só: poderia a água límpida ser misturada com o óleo rançoso e ainda assim amá-lo? Poderia uma árvore se apaixonar pela lâmina do machado, cuja única função na vida é quebrar-lhe as pernas e depois desmembrá-la? Ou um passarinho afeiçoar-se pelo verme que se instala em suas entranhas com o propósito único de sugar-lhe a força vital? No caso de Ernesto e Celeste, aparentemente, a resposta era um sonoro “sim”.


Celeste, ao contrário dos outros que entravam em contato com o marido, não deixava-se intimidar por seus modos um tanto brutos e claramente misantropos, retendo toda a sua personalidade original ao longo dos quinze anos em que esteve casada. Não mais possuindo emprego após a empresa do marido deslanchar, passava maior parte do tempo em casa, atendendo às necessidades domésticas e aos filhos, Virgílio e Larissa. Tinha imensurável carinho pelos dois e muitas vezes perdia o sono ao ponderar, até tarde da noite, as possíveis consequências de crescerem tendo pais com personalidades tão antagônicas.


Chegavam as festas de fim de ano, porém, e Celeste logo despreocupava-se com questionamentos sobre o futuro, substituindo de bom grado o espaço vazio deixado ao afugentar suas preocupações para fora de sua mente, escorraçando-as a tapa como uma empregada faz a um gato vadio, com outras preocupações, umas mais alegres e agradáveis desta vez, tais como colocar as decorações, organizar as ceias e confraternizações e, claro, manter suas simpatias para o Ano-Novo preparadas e a postos.


Celeste era mulher supersticiosa, e apesar do estilo de vida relativamente suntuoso que o sucesso do marido permitia-lhe desfrutar, com todas as suas roupas, sapatos, carros, e empregados, ela nunca se esquecia das lições aprendidas sob o chicote do sol quente e da pobreza da infância, quando vivia com a avó numa casa de barro e varas esguias que serviam-lhe de vãos ligeiramente inclinada na direção do nascente. Antes do luxo era tudo mato, grande e alto, verde e amarelo, sem uma brisa para acariciar-lhe os cabelos, mas sim linguetas de fogo que, invisíveis, desciam do sol como forma ou de extrema zombaria ou de castigo. Naquelas noites quentes, invariavelmente passadas ao lado da velha na única sala grande o suficiente para abrigar as duas ao mesmo tempo, balançavam-se nas redes olhando para o teto e vislumbrando uma resga de céu negro e pontilhado de estrelas por uma intersecção entre as telhas de palha. Era tudo penumbra e silêncio, exceto no Réveillon.


Adorava o réveillon porque trazia-lhe memórias alegres que dinheiro nenhum podia comprar. Ainda podia ver-se menina, de olhos enormes e luzidios, testemunhando boquiaberta o esplendor cheio de esmero dos fogos de artifício da cidade ao longe explodindo como bombas inofensivas, tentando rasgar a abóbada celeste com suas explosões multicoloridas. Não muito longe da porteira onde se alçava para testemunhar com maior nitidez o espetáculo de luzes, sua avó acendia uma vela para a imagem da Virgem, murmurava uma oração ininteligível e depois aproximava-se com pote emprestado da vizinha na mão:


- Vem, Celeste, vem. Hora de comer as uvas. – sussurrava a idosa, com seus fios prateados brilhando à luz da vela.


Celeste desempoleirava-se da porteira, que para ela era seu lugar na primeira fileira para o show de luzes e para a cantoria alegre e jubilosa que advinha da cidade lá ao longe, do outro lado do rio, e corria para junto da avó. Esta não desperdiçava um segundo sequer; enchia-lhe as mãos miúdas de uvas verdes e gordas, enquanto ela mesma fazia um esforço hercúleo para manter a perna direita, já debilitada pela idade, levantada no ar como se fosse novamente moleca a brincar de amarelinha com as colegas de infância.


– Pra que servem mesmo essas uvas, vó? – indagava a menina à velha.


– É simpatia, pra trazer bênçãos. - explicava-lhe a avó, benevolente - Coisa dos nossos antepassados. A cada badalada das doze horas do ano-novo, se coloca uma uva na boca, levanta a perna direita e faz um pedido. A gente pede só benção pro ano que vai vir.


Obediente, Celeste mastigava a uva azeda na boca, fazendo caras e bocas pelo caminho.


- Mas é só isso? – perguntou de boca cheia.


- Não se esquece das sementes. – avisou a avó, exemplificando ao cuspir as sementes miúdas e negras no plástico abaixo – A gente salva as sementes pra atrair dinheiro ao longo do ano.


Confusa e ao mesmo tempo fascinada, Celeste tomava renovado prazer ao balancear o ato quase circense de engolir as uvas azedas e agridoces, movimentá-las pela extensão do palato para separar com a língua o corpo carnudo da semente dura e, por fim, cuspi-las virtualmente incólumes no prato em suas mãos – tudo isso numa perna só. Era um rito bizarro, um tanto ilógico até, mas possuía em sua natureza um quê de frescor de juventude eterna, um certo joie de vivre que reunia em sua execução um pouco de misticismo secular com brincadeira de criança. Bastava apenas olhar para a avó de 70 anos naquela pose estranha, comendo uvas verdes enquanto dava pulinhos, e concluia que aquele era um preço pequeno demais a pagar pela obtenção de muito necessitadas bênçãos para ela e a avó.


O tempo, porém, continuou sua marcha de conquistador, e Celeste cresceu, perdeu a avó, foi para a cidade, conheceu um homem lá e, no mesmo tempo em que um redemoinho forma-se, chuta alguns badulaques aqui e acolá pela rua e depois dissipa-se novamente no ar, estava longe do inconstante e opressivo marrom-avermelhado das paredes derretidas da casa da infância, casada e esperando o primeiro filho, Virgílio. Um ano e meio depois, a loja de materiais de construção de Ernesto finalmente vingou, e mudou-se para sua casa de classe média-alta, mas ao contrário do marido, não a via como um investimento, mais uma fonte de despesas; mas sim como seu forte, sua fortaleza e castelo, uma recompensa por não ter-se esquecido de quem realmente era, e ter permanecido fiel às suas origens.


Pois bem, passou-se a véspera de Natal, em que tinha organizado um régio jantar para toda a família, mesmo que ela não fosse tão grande assim para começo de conversa. Chegaram os sogros, vindos da capital federal, às sete e meia, e após horas de idílio na sala de estar, passaram todos para a sala onde seria servido o jantar precisamente às dez em ponto. Foi por ela planejado, e também em partes preparado, o suntuoso repasto, com direito a pratos cheios de arroz à grega, salpicão, farofa de cuscuz e é claro, as insubstituíveis carnes brancas e vermelhas, monarquiadas pelo imponente peru, cuja olência era avassaladora a ponto de revirar olhos.


Tudo parecia estar correndo maravilhosamente bem, até que a misantropia de Ernesto finalmente mostrou toda sua extensão ao pedir que o pai, seu Olegário, um homem brutalmente honesto, de espírito jovial e vozeirão de juiz, calasse a “maldita boca por apenas um segundo que fosse.” Ernesto sempre fora afastado dos pais e, já que não havia maneira concebível de convencer Celeste a não fazer uma ceia nem no Natal, nem no Ano-Novo, ele sempre procurava maneiras diferentes de manter os pais distantes no estado natal, preferindo passar aquele infortúnio de noite com a esposa e os filhos apenas. O motivo, que ele só revelara a Celeste uma única vez, nos primeiros anos de matrimônio, era que ele simplesmente era incapaz de aturar a atitude controladora e personalidades extrovertidas demais dos pais, que tinha mudado de estado e feito fortuna por conta própria justamente para não depender deles para nada e que considerava estar do lado deles “tortura”. Celeste, crescida órfã de mãe e pai e tendo perdido a avó muitas luas atrás, simpatizava com os sogros e arranjara uma maneira de trazê-los de seu solo natal para participar das celebrações daquele ano.


Após alguns minutos marcados por um silêncio incômodo, a movimentação de pratos entre mãos famintas recomeçou, e logo o ar encheu-se novamente do suave tilintar de talheres. Por volta de meia-noite e meia, os sogros se despediram e foram de volta para o hotel onde estavam hospedados, e de lá voltariam para casa. Ernesto dormiu sonoramente aquela noite, mas Celeste mal conseguiu olhar diretamente nos olhos do marido.




O derradeiro dia do ano chegara, mas o dia despontou cinza e nublado, e assim ficou, teimosamente, por grande parte do dia. O ano-novo caíra numa quinta-feira , e logo o dia ficou cinza, carrancudo e indiferente, com mais cara de quinta-feira do que de Réveillon. O ar estava estagnado, e pairava pesadamente sobre tudo e todos que tocava.


Ainda havia um certo grau de movimentação nas ruas naquele dia estático, e Celeste, no volante do carro, balanceava em sua mente diversas preocupações e outro ato circense, como aquele que executara tantos e tantos anos atrás.


Que é que eu faço com esse Ernesto, meu Deus?, pensava ela, com um certo toque de aflição na alma. Não se dá bem com nada na vida – mal dá um sorriso, não acha graça em nada, muitas vezes é um velhaco, um sovina... Mas também provê por mim e pelos meus filhos quase sem reclamar nada. Se eu pudesse melhorar esse humor dele só por hoje, por essa noite apenas ...


E de súbito voltou seu pensamento para as uvas. Verdes, imaturas, rechonchudas e indecifráveis. Junto a pular num pé só, eram capazes de fazer uma senhora idosa sorrir. Era mágica, talvez fosse mágica. Aquela coisa ininteligível, beirando o inexplicável, uma sensação inalterável, pura e simples como um elemento químico. Os pneus fizeram uma curva sonora rumo ao supermercado.



Enfim chegou a noite, colorida de branco e filetes de prata, e ao contrário do dia, a noite deixava blatante a data – era inconfundivelmente 31 de dezembro. As ruas estavam um tanto quanto vazias, mas o estrilar dos carros de som e o cantarolar romântico e jubiloso de vozes humanas estavam certamente ali. As nuvens haviam se dissipado; o céu estava límpido, parecia um reflexo de si mesmo numa plácida poça d’água. As estrelas faziam séquito à gorda Lua, dourada e vestida em sua melhor roupa de festa.


Faltavam agora meros cinco minutos para a virada, e o mundo inteiro parecia estar mais pesado, como se sofresse com a grande retenção em massa de bilhões de pessoas em antecipação conjunta. Haviam ceiado às dez, e agora todos aguardavam ansiosamente os fogos subirem aos céus com seus sibilos, fosse na praia de Copacabana ou na Times Square. Virgílio e Larissa, trajados de um branco ósseo, assistiam ao show televisionado ao vivo de Nova York.


Da cozinha, Celeste entreviu o marido dando passos morosos pela varanda, e como um gato, observar pensativamente a Lua por cima do muro. Consultou rapidamente o relógio – três minutos – e pegou as uvas geladas de seu confinamento na geladeira.


Pegou o marido de surpresa enquanto ponderava consigo mesmo, e este retraiu o ombro irritadamente quando Celeste o tocou ali.


- Ô, meu amor. Faz isso não.


- Isso eu é quem digo. – retorquiu ele, inflamado, e olhou para os minúsculos potes de plástico que ela carregava na mão. – Vai pra onde com isso aí?


- Lugar nenhum. É que faltam só faltam dois minutos agora.


- Não respondeu a minha pergunta.


Celeste ruminou rapidamente consigo mesma se deveria mesmo prosseguir com aquele plano. Checou o relógio. Cinquenta e seis segundos.


- Quando eu era criança, minha avó me ensinou que a gente devia comer uvas verdes na hora da virada, enquanto fica em uma só perna enquanto faz um pedido. É simpatia tiro e queda de funcionar.


Ernesto limitou-se apenas a soltar um risinho que pareceu uma troça sem palavras.

- É, já ouvi falar dessas simpatias, mandingas, desejos, macumbas... Tudo bobagem. Única coisa que traz dinheiro pra dentro de casa é trabalho duro, Celeste, não é essas asneiras que tua avó te contava.


Celeste ficou ali, inerte, por uma breve sequência de segundos que pareceu dilatar-se por toda uma eternidade. Seu coração, sempre tão alegre e cheio de júbilo e esperança, verdadeira encarnação dos pilares do dia de Ano-Novo, pareceu deixar perfurar-se por uma agulha negra, cheia de fluido rançoso e negro como a noite acima dela. Não aprendia nunca, o arrogante miserável!


Naquele instante, os ponteiros de todos os relógios bem-acertados realizaram um movimento gentil e gracioso no sentido horário, gentilmente alavancando o ponteiro maior sobre o menor, e fechando mais um ano enquanto abria as portas para outro. Por todo o mundo, um grito uníssono pareceu percorrer todos os cantos da Terra em questão de segundos; um único desejo em diferentes línguas, gritado a plenos pulmões por pessoas banhadas pela noite novaiorquina ou no calor carioca.


Os fogos instalados próximo à casa de Ernesto e Celeste demoraram alguns segundos para o fogo consumir efetivamente o pavio, mas um grito vindo de dentro de casa trouxe o anúncio da virada pontualmente para o casal.


- Feliz Ano Novo. – disse Ernesto secamente para a mulher.


- Feliz Ano Novo. – respondeu-lhe Celeste, enfiando uma uva azeda na boca logo em seguida. Celeste ergueu o pote com uvas em direção ao marido.


- Já te disse que não acredito nessas coisas retrógradas.


- Então que diferença faz se você fizer ou não? – disse-lhe, enquanto pulava habilidosamente num pé só e, fechando os olhos como num êxtase, cuspia fora as sementes, negras e incólumes.


Ernesto olhou aquela demonstração cega de fé com certo desdém. Amava a mulher, e amava-a muito, apesar de achar que ela mimava muito os filhos e dava muitas despesas. O brilho multicor dos fogos explodindo ruidosamente no céu dava à esposa feições de menina. Deu de ombros, pensando consigo: “Porquê não?”. Entendeu uma mão e pegou uma uva gorda, quase perfeitamente esférica e carnuda, e levou-a à boca.


Fechou também os olhos e preguiçosamente começou a pular num pé só, resolvendo entrar de vez naquela grande parvoíce. Tateou com a língua toda a superfície da uva: era grande demais para ser uma uva normal, demasiadamente pesada e disforme, era quase como engolir uma bolinha de gude. O cérebro deu ordens para a mandíbula estraçalhar a uva corpulenta, mas estas ordens não vieram a ser cumpridas. Uma explosão particularmente forte no céu esfumaçado deu-lhe tamanho susto que, num movimento plenamente involuntário, engoliu a uva inteira ao invés de a esmigalhar entredentes. A uva, invasora robusta e cerveada, desceu por um tobogã cor-de-carne e ficou alojada no meio do caminho. O ar esvaiu-se por completo quase instantaneamente dos pulmões do empresário, e Ernesto, esbugalhando os olhos, caiu por terra na grama molhada.


Celeste mordiscou e então cuspiu sua última dupla de sementes cor de ébano, quando viu o marido a debater-se como peixe recém-fisgado no chão acarpetado de grama, e soltou um grito alto e estridente de desespero. Ignorante de vários assuntos, um deles sendo como realizar apropriadamente a manobra de Heimlich, não teve outra opção senão olhar os olhos muito abertos do marido olhando em direção a um ponto qualquer da parede, enquanto grunhia sons ininteligíveis que disfarçavam um apelo por socorro. O mundo inteiro, com seu júbilo pelo ano renovado, parecia estar sentado na garganta de Ernesto. Enquanto olhava a mulher estrilar apavorada e correr de um lado para o outro no gramado, sentiu como se uma leve cortina negra muito fina fosse lentamente colocada sobre ele. Ironicamente, não pensou nada ao encarar a escuridão em frente aos seus olhos, mas somente ouviu o estalar arrancado dos fogos alumiando o céu acima.


Uns vizinhos do lado, que não mantinham nenhum contato com a família do recém-falecido empresário além de uns míseros “Ois" e alguns “Como vai", mas movidos tanto pelo álcool quanto pelo sentimento de boa-vontade, resolveram adentrar a casa para desejar a taciturna família um feliz ano-novo. Em vez disso, depararam-se com o mais estranho e macabro espetáculo: o casal de filhos observava estático enquanto a mulher do empresário Ernesto, dono de uma bem-sucedida loja de materiais de construção na rua São João Batista, lançada sobre o corpo inerte e morto do marido, os olhos vertendo copiosas lágrimas cintilantes enquanto soluçava, entre gritos inteligíveis e ininteligíveis:


- Foi só na hora da raiva!... Era brincadeira!... Não foi isso que eu pedi!... Não foi... isso que eu pedi!









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