Verbalização do Medo

Dentro dessas paredes verdes do meu quarto, me pego a refletir sobre tudo o que anda ocorrendo. Medo? Não vou mentir, estou apavorado com tudo isso. Se abro o jornal, há mortes pelo vírus; se vou conversar com os vizinhos, falam sobre o vírus e, no meio disso, vou absorvendo tudo, como se nós todos fôssemos parte de único ser e sou o coração, que retrai o sentimento pra si. Acendo um cigarro pra acalmar e, nessa brincadeira, já se foram alguns maços, mas nada desse medo sair do meu corpo. Será que logo terei uma nova crise de pânico? Vai saber, né? Pelo jeito que essa carruagem da loucura vai me guiando, não vai demorar muito.

Eu não sei mais há quantos dias estou aqui dentro, quantos contos de Bukowski já li, quantos cigarros já fumei, quantas vezes tentei gritar, eu realmente não sei. É como se o vírus não estivesse matando só pessoas, mas matando o tempo e minha sanidade. Isso só alimenta mais o meu medo.

Mas aqui estou, sentado em frente da minha mesinha, tomando meu cafezinho, escrevendo com um tinteiro e caneta pena, trancado no meu refúgio. Mas, e aqueles que estão lá fora, que não tem casas, álcool em gel, ou nenhuma dessas merdas que eu mesmo falei, estão com medo? Claro que sim! Quem não estaria? Será que é hipocrisia da minha parte ficar choramingando por está preso no conforto do lar, enquanto há tantos sem um? Não consigo responder a essa realidade, não sei se sou ou não, mas sei que tenho medo por eles também, que estão lá fora, desprotegidos, esquecidos e jogados à sorte.

A agonia de acender outro cigarro aflora o meu sistema vicioso, eu tento segurar mais um pouco, mas o medo obriga meu sistema muscular a ir buscar e quanto mais eu luto pra não ir, mais coisas aparecem pra me dar medo. O presidente vomita em nossos ouvidos “que isso não passa de uma gripe boba, que é besteira alguns morrerem, pois tudo é pelo bem da economia do país”, isso me dá medo. Medo por saber que alguém que deveria proteger seu povo, independente da classe, está mais preocupado em dar lucro ao patrão, do que com a vida de um aposentado. Isso me deixa apavorado! E se um desses aposentados fosse minha avó, minha mãe ou outra pessoa da minha família, não vou ter medo? Logico que vai ter que perder as pessoas que você mais ama na vida, por causa de um presidente que não se importa em criar um genocídio se ele for dar lucro aos patrões. Só de pensar nisso, o suor recobre meu corpo, minhas mãos começam a tremer e outra vez recorro ao cigarro pra aliviar do medo.

Não sei mais que horas são, quantos dias isso ainda vai durar, quantas mortes eu ainda vou ter que ler até essa coisa toda acabar. Se vou ser uma das vítimas, também não sei. Mas uma coisa eu sei: que tenho medo! Então, meus caros amigos, meus queridos leitores e escritores que andam nessa injusta estrada, tenham cuidado! Pense no próximo, faça tudo que tiver ao seu alcance e fique em casa, pois eu também tenho medo de que algo aconteça com você. Fiquem na paz!


Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor. Escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.

 
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