Zé Coquinho

Zé Coquinho, era como todos o conheciam. O motivo? Seu enorme crânio, com cabelos crespos e ralos, o tornava digno da comparação. Sua calvície em tão tenra idade era genética, por isso não podiam culpá-lo, mas esculachavam o coitado do moleque por ter a cabeça protuberante, e ele odiava isso. Assim como não era sua culpa por nascer desta forma tão trágica, tampouco era culpa dos outros. Ele sabia disso, mas mesmo assim... Ah, como ele odiava a todos.

Queria seguir a carreira de cientista e tinha um lindo futuro pela frente, pois, apesar de ser pobre e feio, era inteligente. Genial, diriam alguns valentões da escola pública, que humilhavam-no pelas duas razões ― a aparência e a genialidade.

Seu nome verdadeiro era Douglas Dimitri e, no início do seu primeiro ano do ensino médio, foi alvo de chacota, até mesmo do Diretor, embora este tenha sem querer dito o que disse durante uma visita às salas de aula. No dia em questão, enquanto se apresentava para a turma de 63 alunos (tendo que gritar para ser ouvido), o Diretor Francisco Vasconcelos pediu silêncio a todos, pois estavam rindo de alguma coisa que aparentemente era conhecida só por eles. Logo que todos se calaram, D. Francisco disse: “Vocês, adolescentes, acham que têm o mundo todo em suas mãos, não é? Se acham o centro do universo! Os reis da cocada preta!”. Foi aí que todos desabaram das carteiras de tanto rir, pois o motivo da graça era justamente o Zé Coquinho. O Diretor não conseguiu segurar uma pequena risada, que escapou como um peido entre os lábios apertados, mas Douglas Dimitri viu aquilo e se enfureceu. Foi a primeira vez que ele chorou (de verdade) em toda a sua vida e, por conta do nervosismo, mijou e cagou nas calças. O que se seguiu foram risadas espalhafatosas e de perder o folego, com direito a bater de mãos em tudo quanto é lugar, inclusive no ar, como se a sala inteira estivesse se sufocando, menos ele. Todos saíram da sala, pois o cheiro era insuportável.

Daquele dia em diante, meus amigos, Zé Meningite... digo, Zé Coquinho, nunca mais foi o mesmo. Alguma coisa começou a corroê-lo por dentro, algo que ele desconhecia até então. Convenhamos, tudo o que lhe acontecera até aquele momento foi fichinha. Sua mãe, de fato, o desprezava, e o pai se embebedava todo final de semana, pois não aguentava olhar para a cara de olhos esbugalhados e separados do filho. Contava para os amigos do bar (era mais um desabafo regado a lágrimas do que uma conversa normal) sobre o quanto temia encontrar o filho andando pela casa, no escuro, de madrugada. Mas, voltando ao assunto, aquilo que começou a corroê-lo... Todos já experimentaram isso e continuarão a experimentar enquanto a humanidade existir. Rancor. Até aí, nenhuma novidade, algumas pessoas reagem bem e outras mal. Alguns usam isso como um combustível para o sucesso, e outros o transformam em ódio destilado. Mas, Zé Coquinho era esperto, como diria aquela música: “Malandro é malandro e mané é mané”.

Começou a planejar sua vingança assim que chegou em casa, depois da humilhação. A mãe, como não se importava muito, cumpriu o seu papel e ligou para a escola. Fez uma ou outra reclamação com o Diretor (em parte para se convencer de que era uma boa mãe), desligou o telefone e abraçou o filho relutantemente.

Zé Coquinho comprou exatamente 63 cocos, tirou todos os cabelinhos da casca, deixando-a o mais lisa possível. Fez chocolate e pintou cada um deles, esperou secar e abriu os cocos. Colocou as duas metades unidas num embrulho que não era lá muita coisa (papel alumínio por baixo e jornal por cima), mas esperava que convencesse os que o humilharam. Ele colocou até um brindezinho, só pra deixar a coisa mais divertida. Queria que pensassem se tratar de ovos de páscoa de chocolate preto por fora e branco por dentro, mas, assim que os mordessem, CRACK! Toma-lhe, dente! Não era do Coquinho que eles gostavam? Pois coquinho eles teriam!

Em primeiro lugar, ele teve que comprar uma máscara de coelho. Nada muito caro, só o suficiente para cobrir o seu rosto... e a sua cabeça. Em segundo lugar, teria que levar os cocos de cinco em cindo dentro da mochila, para que o tamanho não levantasse tanta suspeita. Deveria parecer que lá dentro havia apenas materiais de aula. Em terceiro lugar, teria que convencer o Diretor a cooperar com ele. Talvez, na pior das circunstâncias, tivesse que pedir para que sua identidade não fosse revelada e ele já tinha até uma história para isso: diria que em sua religião era essencial que o crente praticasse o ato da caridade todo dia do mês e, agora que era Páscoa, não havia melhor época. Foi a mesma tática que utilizou com os funcionários da secretaria.

Tudo deu certo.

Eles o levaram até a sala do Diretor, que gostou muito do ato de “bondade”.

Zé Coquinho foi fazendo esse caminho por 6 vezes e, quando chegou na última, já estava exausto e suando feito um porco. Precisou tirar a máscara por um instante para respirar melhor, então colocou-a de novo. Ele e o Diretor haviam combinado de entregar todos os “ovos de páscoa” em cestinhas de vime, mas Coquinho sabia que não poderia ficar lá, se quisesse se livrar da bronca do Diretor e do castigo da mãe. Portanto, roubou o cartão de crédito do pai e comprou uma passagem para fora de Estouro Vermelho, um dia antes da sua artimanha. Nunca fora à praia e sempre desejou ir. Ele escolheu um lugar que lhe parecera ideal desde que o viu numa matéria na tv: São Pedro da Aldeia. Vira fotos e mais fotos e sempre sonhara em ir. Pois, desta vez, iria e ninguém o impediria de fazer isso.

Ia pensando nisso enquanto entregava todos os cocos pintados para o Diretor, que não suspeitou de nada. A desculpa que Zé Coquinho inventou para não ter que continuar ali, era de que seu pai o estava esperando para irem à outra cidade realizar o ato à outras pessoas. Havia só mais uma coisa a se pensar, mas Zé Coquinho, humpf! Que carinha malandro, ele!

Ele precisava ter a confirmação de que todos de fato quebraram os dentes, ou pelo menos cuspiram no chão ao sentirem a textura áspera do coco e o sabor nada achocolatado dentro. Pedira para que o Diretor filmasse a reação dos alunos e a sua própria, depois enviasse para o e-mail em questão: ovosdepascoaoficial@hotmail.com. Ele criou o e-mail por conta própria.

E correu tudo perfeitamente! Ele não podia ter esperado por algo melhor. Zé Coquinho convencera o Diretor a distribuir os “ovos de Páscoa” na hora do intervalo, o que deu tempo dele voltar para casa, arrumar as malas com tudo o que precisava para viver uma vida adulta (obviamente com o cartão de crédito do pai e da mãe que tanto o “amavam”) e embarcar no que seria a jornada mais épica da sua vida. Claro que ele teve que imprimir um papel ao melhor nível de profissionalismo que conseguisse e inventar que era uma carta da diretoria da escola avisando que os alunos fariam uma pequena viagem ao Folha de São Paulo, para redigirem uma matéria sobre o que é o jornalismo. Seria uma viagem curta e ele voltaria no fim do dia. Seus pais caíram na dele, na verdade nem prestaram atenção, só assinaram. Nem sequer ligaram para a diretoria para checar se aquilo era verídico, ou se era mesmo sem custos.

Missão cumprida.

Assim que chegou a São Pedro da Aldeia, procurou uma casa para alugar e achou um alpendre bem simples, mas confortável e aconchegante. Sua carteira de trabalho estava vazia de experiências, mas ele conseguiu arrumar um emprego de ajudante de pedreiro. Afinal, pensava ele, nada melhor do que um trabalho braçal e, no entanto, não apreciado para um rosto tão feio quanto o seu. As pessoas notam as construções, mas ninguém dá uma pausa na caminhada matinal para observar os pedreiros, quiçá seus ajudantes.

Fez tudo isso no mesmo dia.

No dia seguinte, abriu um e-mail que tinha o título “SEU DOENTE MENTAL!”. O sorriso de Zé Coquinho, que já era feio, tornou-se uma caricatura de um monstro ao se alargar de orelha a orelha. Ele abriu o e-mail e viu todos os alunos da sala cuspindo, xingando e dizendo coisas como “O que é isso, gente?”, “Ai, puta merda, meu dente!”, “Quem foi o fdp que fez isso?!”, “Ah, que nojo, vou vomitar!”, “Pensei que fosse o chocolate brinde!, “O gosto!!!! Puta merda, o gosto!!!”. O Diretor dizia “Olha o que você fez, seu desvairado podre e nojento! Olha o que você fez! É disso que você vive, hum? É isso que você faz pra se divertir, seu doente?! Aqui, ó!”. O diretor voltou a câmera para si e o seu rosto grande e rosado apareceu. Ele disse “Aqui ó, olha esta merda que você fez!” e direcionou a câmera para dentro do seu “ovo de Páscoa”. O que apareceu na filmagem foi censurado quando transmitido na matéria da tv (sim, o caso deu origem a uma matéria que teve reprises nos anos seguintes e talvez continuasse a ter até que alguém achassem o culpado).

O que havia dentro do coco era um generoso e enorme pedaço de cocô.

Houve ameaças de processo por todos os lugares, mas ninguém jamais achou o “Criminoso do Cocô”. Sim, era assim que Douglas Dimitri, outrora conhecido como Zé Coquinho, passou a ser chamado, sem que ninguém tivesse ideia de onde ele vinha ou para onde ele foi. Sua mãe e seu pai só foram notar o seu sumiço no fim do dia do trote, quando perceberam que já era meia-noite e ele ainda não tinha chegado da excursão. O Diretor nem sequer ligou os dois pontos, pois para ele, Zé Coquinho ou o Criminoso do Cocô existiam na mesma medida que o seu nariz.

Estavam lá, mas invisíveis.

Pablo Vieira Neves nasceu Rio de Janeiro, onde viveu até os 14 anos. Vive em Varginha-MG, desde então. ​Inspirado em um jogo de videogame chamado Alan Wake, passou a escrever. Escreve desde então por diversão. Publicou em no Wattpad (conta deletada, atualmente), no Recanto das Letras e também publicou em uma feira literária, em Varginha.

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