top of page
  • Foto do escritorAlladin

A gente se acostuma


A gente se acostuma

Acostuma em esperar a noite

Pela mensagem fria

Pelos segundos da resposta,

Nascidas no copo de gelo

E como uma faca quente

Que rasga a manteiga

A gente se acostuma com isso

E aliviado vai dormir

Esperando a próxima noite chegar


A gente se acostuma

Com as notícias de morte do jornal

Como já jantamos com elas,

Dormimos com elas, acordamos com elas,

Então juntos passeamos aos domingos

Já estamos tão bem entrosados

Já somos como família


A gente se acostuma

Com os ônibus lotados, os metrôs aglomerados,

Veículos congestionados

Dentro de uma minúscula selva pedregosa

Estamos acostumados

Em enlatar nossas almas em caixões de metais


A gente se acostuma

Com o acostamento dos acostumados

Sempre na espera

Que abra uma brecha nessa rodovia

Mas ela está sempre cheia

Cheia de mais gente acostumada.

 

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.


 

Revisão do poema: Luiza Fernandes

21 visualizações5 comentários

Posts recentes

Ver tudo

5 Comments


Pablo Gomes
Pablo Gomes
Mar 09, 2021

A nossa salvação é a nossa desgraça! A humanidade, que só sobreviveu a tantas intempéries por se adaptar a qualquer situação, hoje poderia deixar todos os seus exemplares com uma tranquila fartura, sem que ninguém precisasse sacrificar o seu conforto... mas, ainda assim, essa fartura fica com uns, enquanto os demais seguem acostumados a todas as intempéries que a vida moderna lhes exige suportar!

Like

Marcelo Taranto
Marcelo Taranto
Mar 06, 2021

Já se dizia a longo tempo. "Somos um produto do meio". Mas que miserável produto então somos, se o nosso costume é costurar os hábitos vulgares as nossas vestes!! Excelente versejar a lembrar-nos que se tudo é lícito, nem tudo nos convém. Vamos a frente, a escolher um mundo de justiça social e equilíbrio. Quem sabe quando, nossas cidades serão amigáveis a ponto de fazerem parte das nossas vidas boas. É não mais, um intróito amargo a esculpir em nossa memória apenas concreto, mendicância e pichações.!! Abraços e como o poeta que somos, sejamos garçons literários a ofertar um pouco de lúmen neste mundo tão cinzento!!!

Like

Parabéns meu caro.

Like

Hugo Britto
Hugo Britto
Mar 03, 2021

Ah esse costume! Que não nos deixa! Digo sempre que não me acostumo, queimo minha língua sempre a me acostumar! Devemos fugir deste! Gostei bem reflexivo!

Like

karlagamaescritora
karlagamaescritora
Mar 03, 2021

Muito bom, Alladin! Parabéns!!

Like
Post: Blog2 Post
bottom of page