A gente se acostuma


A gente se acostuma

Acostuma em esperar a noite

Pela mensagem fria

Pelos segundos da resposta,

Nascidas no copo de gelo

E como uma faca quente

Que rasga a manteiga

A gente se acostuma com isso

E aliviado vai dormir

Esperando a próxima noite chegar


A gente se acostuma

Com as notícias de morte do jornal

Como já jantamos com elas,

Dormimos com elas, acordamos com elas,

Então juntos passeamos aos domingos

Já estamos tão bem entrosados

Já somos como família


A gente se acostuma

Com os ônibus lotados, os metrôs aglomerados,

Veículos congestionados

Dentro de uma minúscula selva pedregosa

Estamos acostumados

Em enlatar nossas almas em caixões de metais


A gente se acostuma

Com o acostamento dos acostumados

Sempre na espera

Que abra uma brecha nessa rodovia

Mas ela está sempre cheia

Cheia de mais gente acostumada.

Sobre o Autor:

Pernambucano, ator, produtor cultural e escritor, Luiz Alladin escreve versos desde a infância, influenciado pela família, mas entrou de cabeça mesmo na literatura quando largou a faculdade de ciências contábeis e começou a frequentar os saraus. Hoje ele se dedica em escrever seus textos e a produzir eventos culturais na região onde vive, no interior de Pernambuco, preservando espaços de cultura de resistência.


Revisão do poema: Luiza Fernandes

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