A Aldeia dos Magos Escondidos

Atualizado: Nov 10

Em um tempo antigo que não foi registrado em livros de história, houve uma guerra. Orcs, Humanos e Elfos lutavam entre si, alguns nem se lembravam da razão. Para poucos sábios magos humanos, aqueles que viveram o início da guerra, o motivo era vergonhoso.

Eles sabiam que a Vaidade e a Inveja dos Homens provocou a Guerra das Três Raças.

Os Homens se achavam mais belos e inteligentes que os fortes e poderosos Orcs; invejavam o Poder Mágico e a Beleza pura e celestial dos Elfos. E se viam ameaçados.

A única maneira de vencer os Orcs seria dominar as técnicas de Guerra, o combate direto era impossível, a força bruta dos Orcs era imensa. Então, deveriam aprender a fabricar e usar armas, forjar armaduras, afiar as lâminas das espadas. Por outro lado, vencer os elfos era também difícil. Como sobrepujar a magia com espadas? Como derrotar Elfos arqueiros com suas Flechas Flamejantes, Congelantes e que nunca erravam o alvo? Apenas aprendendo Magia a luta seria justa.

Assim, Homens nefastos e sem remorsos, aprenderam a construir armas, escudos, imbuir pedras mágicas nas armaduras, envenenaram flechas, espadas, adagas. Encontraram livros de magia, aprenderam feitiços brancos e negros. Aprenderam técnicas de batalhas. Eles se prepararam para a Ofensiva em duas frentes. Atacariam Elfos e Orcs ao mesmo tempo.

Enfim, a Guerra acabou! Entre os mortos, milhares de Humanos, Orcs e Elfos. Não há vencedores em qualquer guerra. Só perdas, e muitas... Um Conselho foi reunido, com os líderes de cada raça, e decidiram unanimemente proibir a magia dos humanos, pois eles usaram-na de forma errada. Entretanto, a Magia não escolhe quem a usa; e, ao longo das batalhas, estudiosos descobriram que poucos humanos eram sensitivos à magia e podiam canalizá-la sem as palavras usadas para invocá-la. Estes magos de nascença foram mortos um a um. Matança que obrigou os poucos sobreviventes a fugir, a se esconder. Fingir que eram pessoas sem esse dom, que para alguns era uma maldição. Cada um desenvolvia um tipo de poder. Todos extremamente fortes em suas habilidades, mas se não treinadas e sem estudar os modos corretos de desenvolvê-las, ficavam inertes, adormecidas.

E a vida seguiu...

Aos poucos as histórias foram sendo esquecidas, memórias antigas acabam distorcidas, misturadas às invenções, lendas, mitos. Mas uma coisa nunca mudou: a Magia era proibida. Nem sabiam mais o motivo da proibição.

Entretanto não havia como impedir que crianças continuassem a nascer. E entre elas, nasciam aquelas que tinham a força em si. Quando o poder mágico despertava, eram escondidas, separadas de seus familiares, levadas para lugares onde os caçadores de magos não poderiam chegar. Eram treinadas para fingir, esconder e nunca usar seus dons. Sempre que eram levadas para longe, para lugares onde ninguém poderia encontrá-las, havia um mentor, um mago antigo oculto, vivendo junto aos habitantes do lugarejo, para acolher e treinar as crianças nessa arte de dissimulação, de camuflagem.

Existia uma aldeia. Muito distante.

Essa aldeia era um porto seguro para magos por ela atraídos. Sim. Ir ao lugar não era uma escolha consciente. Era um chamado. Ao chegarem próximos, uma sensação de segurança e paz tomava aqueles que antes eram perseguidos. E assim se estabeleciam. Sempre em disfarces. Ao criar raízes no lugar, um se tornava o ferreiro, outro o padeiro, muitos arrendavam terras para plantar. Sempre escolhiam atividades onde força bruta era essencial ou que não necessitasse de amplos conhecimentos. Estudo e saber também eram ligados à magia. Parece-me que conhecimento em todas as eras é considerado perigoso. Então, dessa forma, tornavam-se úteis às pessoas do vilarejo e espantavam suspeitas com demonstrações de saberes passíveis de despertarem olhares e pensamentos curiosos.

Após a vida se nivelar a uma linearidade tal um lago onde a água não é acarinhada pelo vento. A paz primordial que sentiam transformava-se em novo chamado. Claro que os magos reconheciam outros magos. A magia era sentida. Mas faziam de tudo para anular essa força. Tentavam a todo custo serem invisíveis. Mas eles sabiam quem era quem. De todo modo era inevitável, assim desenvolveram códigos de comunicação. Em um futuro ataque poderiam ter que unir forças para defesa.

E a vida seguia.

Um dia um forasteiro apareceu.

Nesses momentos, quando há um evento novo que altera o cotidiano, o curso da vida prende a respiração.

No instante em que ele surgiu, não houve apreensões ou perguntas sobre seu passado ou interesses, mas quando ele começou a fazer perguntas, um alerta de perigo tomou conta de alguns mais desconfiados.

O Forasteiro não era diferente de alguns viajantes que cruzavam as estradas que rasgavam o vilarejo. Era o típico peregrino que buscava trabalho em outras paragens ou estava apenas de passagem em busca de outros destinos. Normalmente esses tipos ficavam um dia ou dois na estalagem que beirava a estrada principal e logo seguiam seu rumo. Ali ninguém ficava. Não havia trabalho que sobrasse vagas ou destinos religiosos ou coisa que despertasse o interesse de ficar. Um lugar para dormir, comer e seguir seu rumo se resumia a isso; e ninguém que morava ali, realmente criava as condições para que um desconhecido quisesse ficar.

Havia um interesse diferente nesse homem de fora.

Ele fazia perguntas, olhava os moradores com curiosidade. Andava calmamente observando cada detalhe do lugar. Tentava ganhar a confiança dos moradores nativos ou oriundos de outros lugares como ele. Demonstrava uma vontade de estabelecer morada. Alguns não se incomodaram, ao contrário de um ferreiro.

Esse ferreiro não era de se aproximar das pessoas em busca de amizade. Tentava depender o mínimo possível de qualquer ajuda de seus vizinhos. Ajudava, trabalhava, mas mantinha uma distância, era até um pouco frio. Prestativo, ao dispor de quem precisasse, mas sem grandes gestos de amizade, sorrisos, abraços, conversas.

Quem observou a conversa que inesperadamente aconteceu se espantou. O ferreiro se aproximou do forasteiro e logo, sem tentar qualquer rodeio, disse:

— Quem é você e o que quer aqui?

— Sabe quem sou.

— Não afirme nada. Não me interessa quem é. Seu lugar não é aqui.

— Sabe que não oferece risco para ninguém. Que pode fazer um velho viajante em busca de morada e trabalho.

— Não me venha com essa falácia. Sabe que os que vivem aqui querem paz.

— Essa paz não será duradoura, meu amigo. Dê-me chance para conversar. Deixe que fale o que acontece nos sombrios corações dos homens belicosos. Não se omita. Quando a escuridão aportar aqui, não haverá muito tempo para aprontar uma defesa ou revide.

Houve uma silenciosa troca de olhares, um media e lia a face do outro. Pareciam se comunicar mentalmente. Não era possível ver movimentos, gestos que pudessem ser lidos. A leitura era da alma de cada um através de seus olhos fixados, vidrados de cada um.

Viraram-se e sem palavras pronunciadas foram cada qual para seu caminho. Quem assistiu ao embate de palavras, não entendeu nada. Talvez a menina que era filha da antiga dona do armazém onde os dois se encontraram. Talvez um ou outro que passava por ali naquele momento. Mas os dois não deram conta de nenhuma dessas possibilidades.

A filha da dona do armazém, contou o que viu e ouviu para sua mãe assim que chegou à sua casa. Sua mãe não esboçou reação. Olhou a filha, para um lugar qualquer na direção da estante de livros e foi para a dispensa da casa. Retirou um objeto embrulhado em um pedaço de couro de serpente e após alguns segundos desfez o nó. A garota olhou por cima dos ombros da mãe para ver o que ela olhava tão quieta e concentrada. Uma varinha era o destino dos olhos de ambas. A mãe, ao perceber o olhar interessado da filha, falou quase solenemente:

— Não imaginava que teria que voltar a usar isso, mas não temos mais opções. Pelo que me contou se essa conversa se provar verdadeira, é melhor estarmos preparadas.

O Ferreiro voltava inquieto para sua casa. Não imaginava que isso poderia acontecer: “Tantos anos escondidos e justo agora, quando tudo estava esquecido, esse infeliz aparece. Quem ou o que o trouxe aqui?” Mesmo desejando que o Forasteiro desaparecesse o mais rápido possível da aldeia. Essas perguntas precisavam de respostas.

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