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A Aldeia dos Magos Escondidos - Livro 2, Cap. XXIII - Reunião

Atualizado: 4 de jun. de 2021



XXIII

Reunião


O corredor até a biblioteca testemunhava mais uma conversa entre Silas e Benevides.

– O que pretende dizer aos monges? – disse Silas.

– Vou enviar emissários para os outros monastérios. Precisamos saber se aconteceram mais despertares e nos preparar para a possível guerra. Depois disso vou lhe apresentar - de verdade - e você vai falar o que achar melhor para preparar a todos. As informações que achar perigosas ou que possam lhe causar problemas, entenderei se omitir.

– Devo ir para Starek. Isso não muda minhas intenções. Mas não vou partir antes de lhe ajudar ao máximo.

– Preciso que leia os pergaminhos.

– Com prazer. Estou curioso quanto ao conteúdo desses pergaminhos.

Seguiram até o scriptorium, onde Benevides ordenou que enviassem mensagens sobre o ocorrido naquele dia e que averiguassem se mais coisas estavam acontecendo. Os monges acolheram as ordens e Inácio falou que deveriam dar mais atenção aos relatos dos viajantes. Muitos agora faziam sentido. Benevides ouviu, atentamente, e disse:

– Devemos investigar os rumores. Tudo que envolver o sobrenatural deve ser analisado com mais cuidado.

Havia além de Silas e Benevides mais cinco monges no scriptorium: Inácio, Sebastião, Antero, Benedito e Valêncio. Antes de eles começarem a preparar as mensagens escritas e selecionar quais monastérios cada um iria visitar, Benevides chamou Silas, que estava sentado um pouco afastado, e assim que o ferreiro postou-se ao seu lado, disse:

– Sei que Silas já foi apresentado, mas ele não é só um antigo amigo e ferreiro excepcional. Alguns de vocês já presenciaram algumas habilidades dele. Eu prefiro que ele mesmo fale os motivos de estar aqui, depois de tantas décadas.

A palavra pronunciada por último causou expressões faciais de surpresa e curiosidade. Silas não aparentava ter tanta idade.

Aproveitando-se de sua capacidade de ler mentes, Silas sabia muito bem o que deveria falar. Assim, economizaria tempo respondendo perguntas desfazendo a curiosidade dos presentes após todos os eventos daquele dia.

Foi direto ao ponto:

– Não tenho a idade que aparento. Não sou qualquer tipo de engodo ou ilusionista. E o que ocorreu no meio da tarde com os dois garotos é verdade, irmão Benedito.

Benedito arregalou os olhos. Passou a mão pela espessa barba, mas não disse palavra alguma. Silas continuou:

– A magia é proibida fora dos muros dos monastérios. Isso não é de hoje. E nascidos sensitivos são escondidos da população. Lugares como esse são refúgios para os que carregam esse fardo. A Fé manteve nossa existência. Mas parece que isso está para mudar. Bento II pretende acabar com a Trégua.

Antero, que era o monge mais velho e um dos mais estudiosos, olhos profundamente nos olhos de Silas, que falou:

– Sim, sou um dos imortais. Um dos fundadores da Mística Ordem dos Magos Arcanos.

Antero, após obter a resposta da pergunta que formulou mentalmente, disse:

– Não, em qualquer instante de devaneio, se quer imaginei que conheceria um arcano original. Saiba que é uma grande honra, em vida, pisar na terra onde passou um imortal. Antero desejava que Silas se sentisse acolhido verdadeiramente. Havia muitas falas venenosas a respeito de suas intenções em visitar o monastério. Antero aproveitou a ponte mental par alertar o imortal.

– Gostaria que acontecesse em tempos de paz. Mas minha presença aqui é carregada de preocupações. Não sem razão. Entretanto, devo reafirmar que a Fé tem laços estreitos com a Mística Ordem. Nossos votos são os mesmos. Acredito que não haja a necessidade de lembrá-los.

Os presentes acenaram concordando.

Benevides aproveitou para fazer uma intervenção:

– Desculpe, Silas, nós nos tornamos, com o tempo, ingênuos e teóricos. O que houve hoje é novo para quase todos nós. Nosso trabalho aqui sempre foi manter as tradições religiosas e proteger a Fé. Sensitivos não nascem há tanto tempo que para muitos a reles menção é somente uma lenda. Eu fui um agraciado. Eu tive a honra de lhe conhecer quando esteve aqui para ampliar seus estudos. Graças a Deus nossa biblioteca é vasta. Mas muitos monges passam a vida em oração, em contemplação, intercedendo, mas nunca veem o nascimento de um sensitivo. Aprendemos todas as orações de poder, com muito custo desenvolvemos dons e até notamos a presença do plano espiritual, mas não temos o que lhe é natural. Não se incomode com a incredulidade. Ela sempre vai estar presente. Por isso preferi convocar essa reunião e esclarecer toda dúvida.

– Sim. Obrigado. Foi muito oportuna e será proveitosa.

– Continue.

– Minha passagem por aqui, a princípio, era apenas para pernoitar, alertar Benevides e seguir em busca dos outros membros. Porém, nem sempre podemos seguir com o que planejamos. Tendo em conta o que houve - a força do que houve não é comum – devo adiar meus planos e auxiliar os senhores.

Silas, então, repetiu a mesma história que contou a Benevides na noite anterior.

– Hoje de manhã acordei, fui até a forja e o resto vocês já sabem.

– Acha que o aço arcano provocou o despertar dos noviços? – perguntou Inácio.

– O aço é um fio condutor. Ele auxilia, amplia a conexão. Mas não provoca. O que ocorreu se deve ao desequilíbrio que Bento II quer causar.

– Isso prova que nosso Deus não está adormecido – falou Antero, com forte convicção.

– Também prova que devemos nos preparar – completou Inácio.

– Não podemos nos precipitar, nem esperar demais. – Silas retomou a fala. – Bento não pode saber que informações sobre suas intenções são de nosso conhecimento. Devemos manter nossas ações o mais sigilosas que conseguirmos.

– O que pretende e que gostaria que fizéssemos? – perguntou Benevides.

– Mandaremos os emissários. Prepararemos as defesas etéreas. Ensinarei o máximo que puder, enquanto estiver aqui. Mas terei que partir. Antes disso, ensinarei os nove despertos. Pelo que pude constatar. Se cada monastério tiver pelo menos um desperto com a mesma capacidade dos que estão aqui. Conseguiremos suportar até que eu encontre os membros da Mística Ordem.

– Mas como treinará os noviços em tão pouco tempo? – Valêncio que estava muito pensativo, perguntou.

Sebastião rompeu o silêncio e disse:

– É hora de colocarmos em prática toda a teoria que conservamos aqui nessa biblioteca. Sempre é mais fácil praticar quando há entre nós um que domine as técnicas como Silas mostrou como as domina. Temos um imortal dentro das muralhas do monastério. Que bênção maior que essa nós poderíamos pedir?

– Obrigado, irmão. Conduzirei os despertos. Isso não é tão difícil quanto parece.

Silas aprendeu séculos atrás que há um caminho para a realização dos feitos etéreos. Os sensitivos apenas têm se deixar conduzir. Não é tão simples, mas também não é tão difícil. Basta ter fé e vontade.

– Os noviços não terão problemas em realizar as ações do Dom. – disse Antero. E continuou, olhando para os outros monges:

– Lembrem-se de tudo que já estudamos e vivenciamos. Quantas coisas acontecem de forma inexplicável? Quantos momentos nós vemos, diante de nossos olhos, realizações que confiamos ao milagroso. Ou dizemos que foi sorte? Parece que não queremos acreditar que há algo em nós que realiza façanhas. Há talentos, há dons e há também aquilo que aprendemos e desenvolvemos. Esses meninos já possuíam esses dons. O que houve foi apenas uma faísca que acendeu a palha seca. Agora é só ensinar a colocar a quantidade certa de lenha na fogueira. – disse Antero.

– Excelente analogia, irmão. – concordou Benevides.

– Assumirei essa responsabilidade. Irei treinar e orientar os despertos a como canalizar o novo poder. Isso não será problema.

Benevides assumiu um tom mais grave.

– Acredita que isso se deva à apostasia dos fiéis? – perguntou para Silas.

– Bento II se aproveitou disso. E se corrompeu. Poder ilimitado. Promessas feitas por caídos. Os motivos dele eu desconheço. Mas certamente ele se aproveita da apostasia. E isso também irá nos atrapalhar. Será mais difícil conseguir que fiéis voltem seu coração para nossa causa.

– Mas seguiremos com fé, irmão. Cumpriremos nosso dever. Estabeleça os próximos passos. Seguiremos juntos. – disse Inácio, incentivando Silas.

– Enviem os emissários. Precisamos saber nossa situação. Esperarei o retorno deles e, enquanto isso treinarei os despertos.

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