A Aldeia dos Magos Escondidos - Livro II - Cap. III - Treinamento

Atualizado: Mar 24


Livro II

A Batalha de Khaza-an Lori

Capítulo III – Treinamento

─ Levante a guarda. ─ Faldang não suavizava os golpes. O clangor do aço das espadas podia ser ouvido ao longe. O máximo que Rash fazia era se proteger e apesar da velocidade dos golpes de Faldang ser bem menos rápida que seria normalmente, o menino estava de olhos esbugalhados como se estivesse no meio de uma grande batalha lutando pela sua vida.

─ Aprenda a agir por reflexo. Não pense. Leia meu corpo. Tente prever os golpes. Meu corpo, ou o de qualquer um, indica para onde vou ou o que vou fazer. Seja mais natural e menos consciente. ─ Faldang calmamente desferia movimentos mortais, mas de maneira que o menino pudesse se defender. Atacava e falava ao mesmo tempo. Em um momento parou e corrigiu a pegada de Rash. E voltou a atacar.

Em pouco tempo o suor já escorria na testa de Rash. Ao notar a força do garoto começar a se esvair, o bardo relaxou e disse:

─ Vamos descansar e se quiser tiro suas dúvidas em relação ao que te contei. ─ Bebeu água, sentou-se e esperou. O Bardo sabia que, Rash, ao se recompor, despejaria uma torrente de perguntas. E depois de alguns goles e respiradas profundas, Rash começou:

─ Porque um contador de histórias carrega duas espadas? ─ Essa Rash carregava desde a noite na taverna.

─ Para ensinar. Para defesa. Porque acho lindas. Depende de quem pergunta. ─ Faldang começou a brincar com Rash. Notando que a feição do menino mudou drasticamente, resolveu dar mais informações.

─ Sou de um tempo onde espadas eram armas letais. Símbolos de força, prêmios de batalha. Hoje não são mais do que peças antigas de histórias de anciãos. Carrego para lembrar-me desse tempo onde elas tinham valor. ─ Ao falar olhava a lâmina trabalhada, arduamente, por ferreiros de Harion. Um Reino quase esquecido que o bardo tinha esperança de ver novamente em glória.

Faldang não queria falar muito sobre seu passado. Passado onde as espadas eram por ele desprezadas devido a sua posição social. Se lhe contassem, naquele tempo, que usaria duas ao mesmo tempo e que seria um ótimo espadachim não acreditaria e com certeza gargalharia por minutos sem parar. Porém, a curiosidade de Rash era muito maior que a vontade de Faldang em esconder o passado.

─ Ainda não sei para onde iremos. ─ Rash, na verdade, nem se importava. Queria mesmo, e muito, sair em uma aventura que pudesse contar para seus filhos e netos ou que fosse contada por velhas amas.

─ Iremos para Khaza-an Kall. Você já devia imaginar. Antes passaremos em um templo na cidade de Starek. No caminho contarei mais detalhes.


Descansaram, recolheram a bagagem e seguiram pelo caminho. Conversaram muito. Rash era muito inteligente e sua curiosidade era muito bem vista por Faldang.

A jornada se mostrava muito interessante para Rash e uma felicidade incontida se demonstrava em cada feição feita em seu rosto quando o bardo mostrava algo novo ou contava alguma história desconhecida. Principalmente nas histórias desconhecidas. Rash não se conformava com as mentiras que eram contadas e agora desmoronavam como castelos na areia. Perguntas fervilhavam em sua mente. Não entendia o que era escondido atrás delas. Qual o motivo de distorcerem a verdade? Mas imaginava que devia ser algo muito ruim. Faldang não se cansava em contar tudo sobre o reino. Suas leis, costumes, tipo de comida, roupas. Tudo era muito diferente do que imaginou quando escutou as histórias em Althra.

Faldang contou fatos de todas as eras. As dinastias da Primeira Era eram as mais próximas da população das cidades-estados. Foram quatro famílias que reinaram por setecentos anos. Na Primeira Era foi fundado o Reino de Harion. E em sua Primeira Dinastia, as cidades-estados tornaram-se fortes e poderosas nas artes da magia. Nesse período o Credo, antes dos traidores do Culto o subverterem, se firmou como religião e a vida de todos prosperava.

─ Faldang, o que você sabe sobre a magia antiga? ─ Rash sem querem tocou em um ponto que há muito nem magos brancos pensavam.

─ O suficiente para ser morto. Essa era uma pergunta que esperava que fizesse. Foi a mesma que seu pai me fez quando o conheci. ─ Faldang percebeu na hora que Rash perdeu o chão. E esperou que absorvesse o golpe. Notando que uma crescente torrente de emoções e perguntas se formava na mente do rapaz romperia a qualquer momento, o mago-espadachim habilmente faz uma indagação que poderia represar por mais alguns instantes a imensa ânsia de respostas que Rash queria:

─ Alguma vez em sua vida presenciou alguma coisa inexplicável? Como um sonho que após alguns dias se realizasse? Os chamados sonhos proféticos que tanto falam por aí?

─ Sim...

─ Esses sonhos não são proféticos, nem concebidos pelo desejo de que algo aconteça. Eles são avisos. Você há alguns dias sonhou com alguma coisa que lhe fez vir comigo, não sonhou?

Rash calou-se. Pensou e disse, desconfiado:

─ Não acredito nessas histórias, mas... Sim eu tive um sonho.

─ O que aconteceu?

─ Sonhei com um guerreiro que guardava duas espadas. E ele me entregava às espadas.

─ Seu desejo de aventuras e o fascínio que tem pelas histórias de guerra foram usados para lhe atrair até mim. Nossa alma tem uma visão além do alcance de nossa visão material. Não foi uma visão do futuro, foi o meio que o mundo espiritual encontrou para que você se movesse. Um jeito de lhe tirar do comodismo. Nem todos escutam essa voz interior.

─ Mas meu pai... Como sabia onde me encontrar? Ele mandou que viesse? Ele está vivo?

─ Essas perguntas ainda não poderão ser respondidas. Ainda você não conhece a história toda ainda tenho que lhe ensinar muitos fatos omitidos. O tempo que tudo esteve encoberto para que os anseios de poder e cobiça de poucos está acabando. Peço que acalme seu coração, que detenha seu ímpeto e lhe ensinarei e contarei tudo.

Faldang tomava cuidado com as palavras. Avaliava a reação de Rash em cada detalhe que lhe era passado na conversa. Media sua capacidade de absorver e resolvia se podia continuar alimentando a curiosidade do aprendiz.

─ Mas há pequenas coisas que posso contar.

─ Então conte!

─ Eu enxergo a aura que a alma das pessoas produz.

Rash não compreendia palavra alguma. Faldang percebe a falta de conhecimento no assunto e diz:

─ Não creio que agora seja o momento de continuarmos essa conversa. Haverá uma hora certa, não deixarei de lhe contar o que é isso. Vejo em seu semblante que as histórias falsas contadas ao longo de seus anos lhe turvou a visão. Há em você, conhecimento e poder que desconhece. Vou liberar suas habilidades. Mas agora não. – Faldang calou-se. Rash em seu íntimo sabia que não deveria tentar obter as respostas. Era hora de refletir apenas. Haveria outras possibilidades.

A noite era clara, havia uma abundância de estrelas, Rash olhou para o céu e abrindo um meio sorriso pensou: “Será essa a minha visão noite adentro.”. Dormir seria impossível, após aquela conversa.

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